Chavismo ironiza Nobel de Machado enquanto família chega a Oslo para cerimônia

Machado permaneceu na clandestinidade por mais de um ano após a crise pós-eleitoral; operações militares dos EUA no Caribe causaram 87 mortes.
Não sabemos nada sobre isso, não participamos dessa licitação
Diosdado Cabello ironiza o Nobel de Machado, reduzindo a premiação a um negócio sem valor.

Em Oslo, enquanto a família e aliados de María Corina Machado se reuniam para uma das mais altas honrarias do mundo, o governo de Nicolás Maduro escolhia as ruas de Caracas como palco de resposta. O Comitê Norueguês do Nobel reconheceu, na líder opositora venezuelana, uma trajetória de resistência democrática vivida em grande parte na clandestinidade — um testemunho de quanto custa, em certas latitudes, defender o direito ao voto. A cerimônia de 10 de dezembro de 2025 não foi apenas uma entrega de medalha: foi o momento em que a luta de um povo por autodeterminação encontrou o olhar do mundo.

  • Machado viajou a Oslo desafiando a ameaça do próprio procurador-geral venezuelano, que havia declarado que ela seria considerada foragida ao deixar o país.
  • O governo Maduro recusou qualquer legitimidade ao prêmio, com Diosdado Cabello chamando a premiação de 'licitação' e convocando uma marcha em Caracas para o mesmo dia da cerimônia.
  • Presidentes de Argentina, Panamá, Equador e Paraguai viajaram a Oslo para apoiar Machado, transformando a entrega do Nobel em um gesto coletivo de solidariedade democrática regional.
  • A mãe de Machado, que rezava o rosário todos os dias pela segurança da filha, desembarcou em Oslo com esperança — símbolo humano de uma espera que durou mais de um ano de clandestinidade.
  • O pano de fundo permanece tenso: operações militares dos EUA no Caribe causaram 87 mortes, e Machado dedicou seu Nobel a Trump, aprofundando o abismo entre sua visão e a narrativa do governo Maduro.

A família de María Corina Machado chegou a Oslo para uma cerimônia que o governo venezuelano estava determinado a deslegitimar. Enquanto parentes e chefes de Estado se posicionavam na capital norueguesa, Diosdado Cabello respondia com sarcasmo, chamando o prêmio de 'licitação' e anunciando uma marcha em Caracas para o mesmo dia — transformando a data do Nobel em um ponto de confronto político.

O Comitê Norueguês havia anunciado em outubro a decisão de premiar Machado por seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos e por sua luta por uma transição pacífica da ditadura para a democracia na Venezuela. A honraria reconhecia uma trajetória marcada pelo risco pessoal: Machado viveu mais de um ano na clandestinidade após a proclamação de Maduro para um terceiro mandato, contestada pela oposição como fraude.

Sua mãe, Corina Parisca, desembarcou em Oslo com emoção contida. Ela contou que soube da notícia quando uma filha a acordou às sete da manhã — 'a única vez que me acordaram às sete e não fiquei brava', brincou. Nunca havia imaginado que a filha receberia uma honraria deste porte.

A cerimônia reuniu líderes regionais: Javier Milei da Argentina, José Raúl Mulino do Panamá, Daniel Noboa do Equador e Santiago Peña do Paraguai. Mulino declarou que viajava como presidente democrático para 'dar uma grande congratulação a esta heroína da democracia'.

O contexto permanecia sombrio. Em novembro, o procurador-geral venezuelano havia ameaçado declarar Machado foragida caso ela deixasse o país. Ela viajou mesmo assim. Ao dedicar seu Nobel ao povo venezuelano e a Donald Trump — em meio a operações militares americanas no Caribe que causaram 87 mortes —, Machado aprofundou as linhas de fratura entre sua visão e a narrativa do governo Maduro, que nega acusações de narcotráfico e acusa Washington de querer derrubar Maduro e tomar o petróleo venezuelano.

A família de María Corina Machado chegou a Oslo na segunda-feira para uma cerimônia que o governo venezuelano está decidido a ridicularizar. Enquanto parentes e chefes de Estado se posicionavam na capital norueguesa para a entrega do Prêmio Nobel da Paz, Diosdado Cabello, um dos principais nomes do chavismo, respondeu com sarcasmo às perguntas sobre a presença da líder opositora. "Não sabemos nada sobre isso, não participamos dessa licitação", disse, sugerindo que o prêmio era simplesmente uma questão de quem oferecia o melhor lance. O governo anunciou que marcharia pelas ruas de Caracas no mesmo dia da cerimônia, transformando a homenagem internacional em um ponto de confronto político.

O Comitê Norueguês do Nobel havia anunciado em outubro que concederia o prêmio a Machado "por seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos para o povo da Venezuela e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia". A decisão reconhecia uma trajetória marcada pelo risco pessoal. Machado permaneceu na clandestinidade por mais de um ano após a crise que se seguiu à proclamação de Nicolás Maduro para um terceiro mandato consecutivo — uma vitória que a oposição denunciou como fraude.

A mãe de Machado, Corina Parisca, desembarcou em Oslo com esperança e fé. "Todos os dias rezo o rosário a Deus Pai, à Virgem, a ambos juntos, para que tenhamos Maria Corina amanhã", declarou à AFP no aeroporto. Ela contou que soube da notícia do prêmio quando uma de suas filhas a acordou às sete da manhã — "a única vez que me acordaram às sete da manhã e não fiquei brava", brincou. A mãe nunca havia imaginado que sua filha receberia uma honraria deste porte.

A cerimônia atraiu líderes de toda a região. Javier Milei, presidente da Argentina, viajou para Oslo na segunda-feira à noite, chegando na terça-feira. Ele participaria da cerimônia na quarta-feira e depois seria recebido pelo rei Harald V da Noruega e pelo primeiro-ministro Jonas Gahr Store. Outros presidentes latino-americanos confirmaram presença: José Raúl Mulino do Panamá, Daniel Noboa do Equador e Santiago Peña do Paraguai. Mulino declarou à AFP que viajava como presidente "democrático da região" para "dar uma grande congratulação a esta heroína da democracia, ao povo venezuelano lutador".

O contexto da premiação é sombrio. Desde setembro, os Estados Unidos realizou vários ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico que alegava transportarem drogas, operações que causaram 87 mortes. Machado apoiou essas operações, dedicando seu Nobel ao povo venezuelano e ao presidente americano Donald Trump. O governo Maduro nega as acusações de narcotráfico e argumenta que o objetivo de Washington é derrubar o presidente e tomar controle do petróleo do país.

Em novembro, o procurador-geral da Venezuela havia declarado que Machado seria considerada "foragida" se deixasse o país para receber o prêmio. Apesar do risco legal e da hostilidade do governo, ela viajou. Cabello respondeu ao anúncio da cerimônia com uma declaração que misturava desprezo e mobilização política. "No dia 10 teremos uma grande marcha. Estaremos marchando e relembrando a última proclamação do Libertador", anunciou, transformando a data do Nobel em um dia de confronto nas ruas de Caracas. O governo venezuelano estava deixando claro que não reconheceria a legitimidade da homenagem internacional, nem permitiria que ela passasse sem resposta.

Todos os dias rezo o rosário a Deus Pai, à Virgem, a ambos juntos, para que tenhamos Maria Corina amanhã
— Corina Parisca, mãe de María Corina Machado, ao chegar a Oslo
No dia 10 teremos uma grande marcha. Estaremos marchando e relembrando a última proclamação do Libertador
— Diosdado Cabello, chavista, anunciando protesto no dia da cerimônia
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que o governo Maduro escolheu ridicularizar o prêmio em vez de simplesmente ignorá-lo?

Model

Porque ignorar seria admitir que a cerimônia importa. Ao chamar de "licitação", Cabello tenta rebaixar o Nobel a algo comercial, sem peso moral. É uma forma de negar a legitimidade da honraria enquanto a reconhece o suficiente para combatê-la.

Inventor

A mãe de Machado rezando no aeroporto — isso muda algo na história?

Model

Muda tudo. Mostra que há risco real. Se fosse apenas uma cerimônia de prêmio, não haveria necessidade de rezar. A mãe sabe que sua filha pode não chegar, que o governo pode intervir. A fé dela é um reconhecimento silencioso do perigo.

Inventor

Por que tantos presidentes latino-americanos viajaram?

Model

Porque Machado representa algo que eles precisam defender publicamente — a ideia de que a democracia ainda é possível na região. Se não fossem, estariam sinalizando que aceitam o modelo de Maduro. É política, mas também é uma aposta.

Inventor

E as 87 mortes nas operações dos EUA — por que isso importa para esta história?

Model

Porque mostra que o Nobel não é apenas um reconhecimento abstrato de direitos democráticos. Machado apoiou operações que mataram pessoas. O prêmio está sendo entregue em meio a uma escalada de violência, não apesar dela. Isso complica tudo.

Inventor

O que Maduro ganha com a marcha no mesmo dia?

Model

Tira o foco de Machado. Se conseguir mobilizar multidões em Caracas enquanto ela recebe o prêmio em Oslo, pode argumentar que tem apoio popular real, que a cerimônia é apenas teatro internacional. É uma disputa por narrativa.

Quieres la nota completa? Lee el original en O GLOBO ↗
Contáctanos FAQ