Mulheres com mais de 50 anos: invisibilidade e desvalorização na sociedade

Mulheres com mais de 50 anos sofrem exclusão sistemática do mercado de trabalho criativo e descarte social baseado em idade e género.
Desapareça. Ou submeta-se a procedimentos para fingir que o tempo não passou.
A resposta implícita que a sociedade oferece às mulheres que envelhecem, segundo o artigo.

Há uma forma de apagamento que não precisa de ser declarado para ser eficaz: basta que a sociedade desvie o olhar. Em Portugal e no mundo, mulheres com mais de 50 anos enfrentam uma armadilha sem saída — condenadas se envelhecem naturalmente, condenadas se recorrem à estética para resistir ao tempo. O cinema, espelho e amplificador da cultura, documenta esta exclusão há décadas, relegando mulheres maduras a papéis secundários e solitários, como se a experiência acumulada de uma vida fosse, afinal, uma forma de irrelevância.

  • A crítica ao regresso de Sex and the City ignorou as histórias e fixou-se num único facto: as atrizes envelheceram — revelando que a sociedade tolera mulheres visíveis apenas enquanto forem jovens.
  • O estudo 'The Ageless Test' confirma o que muitas já sentiam: em quatro países analisados, mulheres acima dos 50 anos são sistematicamente empurradas para papéis secundários, solitários e depressivos no cinema.
  • A série Feud expõe que esta discriminação não é nova — o padrão que destruiu as carreiras de Joan Crawford e Bette Davis nos anos 60 permanece intacto décadas depois.
  • A exclusão não é apenas simbólica: mulheres maduras são afastadas do mercado de trabalho criativo não por falta de talento, mas por não corresponderem a um ideal de juventude que a indústria decidiu ser o único que importa.
  • Enquanto a indústria criativa não reconhecer a complexidade e a riqueza das vidas das mulheres maduras, a sociedade continuará a descartar sistematicamente metade da população no momento em que deveria estar no auge da sua sabedoria.

Há uma crueldade particular na forma como a sociedade trata as mulheres que ultrapassam os 50 anos — e o cinema é talvez o lugar onde essa crueldade se torna mais visível. Quando And Just Like That regressou à HBO, a crítica não se debruçou sobre as histórias contadas. Debruçou-se sobre um facto simples: as atrizes envelheceram. Sarah Jessica Parker respondeu com uma pergunta que deveria envergonhar quem a fez: "Parar de envelhecer? Desaparecer?"

A armadilha é perfeita e sem saída. Se uma mulher envelhece naturalmente, é condenada. Se recorre a procedimentos estéticos para manter a aparência, é igualmente condenada. Não há vitória possível.

Um estudo recente, 'The Ageless Test', analisou os filmes com melhor desempenho nas bilheteiras da Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos. Os resultados foram claros: mulheres com mais de 50 anos são escolhidas sobretudo para papéis secundários, frequentemente retratando personagens solitárias e depressivas. Não vivem vidas complexas — servem de âncora narrativa para atores mais jovens. São cenário, não protagonistas.

A série Feud, também na HBO, documenta este padrão através da rivalidade entre Joan Crawford e Bette Davis: o que a indústria faz às mulheres conforme envelhecem. Jessica Lange e Susan Sarandon entregam interpretações excepcionais, mas o que a série revela é que este padrão remonta aos anos 60 — e que, décadas depois, nada mudou.

A questão mais perturbadora é a que raramente se formula em voz alta: uma mulher, depois dos 50 anos, deixa de ter utilidade? A exclusão do mercado de trabalho criativo não acontece por falta de talento ou experiência, mas porque estas mulheres deixaram de corresponder a um ideal de juventude que a sociedade decidiu ser o único que importa. O dano é real, a mensagem é clara — e enquanto a indústria criativa não reconhecer que as mulheres maduras têm histórias tão dignas de ser contadas quanto qualquer outra pessoa, continuaremos a descartar sistematicamente metade da população no momento em que deveria estar no auge da sua sabedoria.

Há uma crueldade particular na forma como a sociedade observa as mulheres que ultrapassam os 50 anos. Não é uma crueldade acidental ou negligente — é sistemática, quase institucionalizada. E talvez o lugar onde essa crueldade se torna mais visível seja exatamente onde deveria haver espaço para contar histórias: o cinema.

Quando a série Sex and the City regressou recentemente com um novo formato — And Just Like That, que estreou em dezembro na HBO — a crítica não se concentrou na qualidade da narrativa ou na relevância das histórias. Concentrou-se numa coisa simples e devastadora: as atrizes envelheceram. Sarah Jessica Parker, que interpretou a icónica Carrie durante anos, respondeu com uma pergunta que deveria envergonhar qualquer pessoa que a fizesse: "Eu sei como sou. Não tenho escolha. O que posso fazer a este respeito? Parar de envelhecer? Desaparecer?" A resposta implícita que a sociedade oferece é perturbadora. Sim, desapareça. Ou, se insistir em permanecer visível, submeta-se a procedimentos estéticos para fingir que o tempo não passou. Mas aqui está a armadilha perfeita: se uma mulher envelhece naturalmente, é condenada; se recorre a cirurgias para manter a aparência, é igualmente condenada. Não há saída. Não há vitória possível.

Esta dinâmica não é acidental. Um estudo recente intitulado "The Ageless Test" analisou os filmes com melhor desempenho nas bilheteiras da Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos. Os resultados foram inequívocos: mulheres com mais de 50 anos têm muito maior probabilidade de serem escolhidas para papéis secundários. Esses papéis, frequentemente, retratam personagens solitárias e depressivas. Em vez de viverem vidas complexas, entusiasmantes e cheias de substância, estas mulheres servem apenas como âncoras narrativas para os restantes atores — invariavelmente mais jovens. São cenário. São contexto. São tudo menos protagonistas das suas próprias histórias.

A série Feud, disponível na HBO, oferece um retrato perturbador desta realidade. Conta a história da rivalidade entre duas grandes atrizes — Joan Crawford e Bette Davis — mas é, fundamentalmente, sobre o que a indústria cinematográfica faz às mulheres conforme envelhecem. Jessica Lange e Susan Sarandon oferecem interpretações excepcionais, mas o que a série documenta é um padrão que remonta aos anos 60 do século XX. E aqui está o problema: nada mudou. Décadas passaram, tecnologia avançou, sociedades evoluíram em muitos aspetos, mas a forma como a indústria criativa descarta mulheres maduras permanece congelada no tempo.

A questão subjacente é ainda mais perturbadora. Uma mulher, depois dos 50 anos, deixa de ter utilidade? A biologia oferece uma resposta que a sociedade parece aceitar com demasiada facilidade. A função reprodutiva termina e, portanto, o interesse esmorece. Poucas pessoas consideram a idade uma forma de excelência. Ainda menos encaram as rugas alheias com generosidade. Uma mulher é sempre um alvo fácil de ataque — na cultura, na política, no sector empresarial, em qualquer lugar onde o poder e a visibilidade se concentram.

Esta invisibilidade não é meramente simbólica. Tem consequências reais. Mulheres com mais de 50 anos enfrentam exclusão sistemática do mercado de trabalho criativo. São descartadas não por falta de talento, experiência ou capacidade, mas porque deixaram de corresponder a um ideal de juventude que a sociedade decidiu ser o único ideal que importa. E quando uma mulher sente, numa reunião de trabalho, que é descartável simplesmente pela idade que tem — uma mulher loira, pós-menopausa, sem utilidade aparente — o sentimento de rejeição não é menor por ser uma reunião de importância menor. O dano é real. A mensagem é clara.

Sarah Jessica Parker tem razão quando questiona o que a sociedade esperava. Esperava que as mulheres desaparecessem? Que permanecessem jovens para sempre? Que aceitassem ser invisíveis? A verdade é que pouco ou nada se fala sobre as mulheres com mais de 50 anos e da sua sexualidade, da sua relevância, das suas histórias. E enquanto essa conversa não acontecer — enquanto a indústria criativa não reconhecer que as mulheres maduras têm vidas tão complexas, interessantes e dignas de serem contadas quanto qualquer outra pessoa — continuaremos a viver numa sociedade que escolhe sistematicamente descartar metade da população no momento em que deveria estar no auge da sua sabedoria e poder.

Eu sei como sou. Não tenho escolha. O que posso fazer a este respeito? Parar de envelhecer? Desaparecer?
— Sarah Jessica Parker
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que acha que a crítica se focou tanto na idade das atrizes e não na qualidade da série?

Model

Porque é mais fácil atacar um corpo do que confrontar uma história. A idade é visível, é imediata, não requer pensamento. A qualidade exigiria análise.

Inventor

Mas as mulheres sempre envelheceram. Porque é que isto é diferente agora?

Model

Não é diferente. É apenas que agora temos câmaras que capturam cada ruga em alta definição. O preconceito é antigo; a tecnologia que o amplifica é que é nova.

Inventor

O estudo "The Ageless Test" — será que isto é apenas um problema do cinema?

Model

Não. O cinema é apenas onde é mais visível. Nos negócios, na política, em qualquer espaço onde a visibilidade importa, as mulheres maduras são relegadas para segundo plano.

Inventor

Então qual é a solução? As mulheres devem fazer cirurgias estéticas ou aceitar o envelhecimento?

Model

Essa é uma pergunta que coloca a responsabilidade no lugar errado. A solução não é o que as mulheres fazem com os seus corpos. É o que a sociedade faz com a sua perceção desses corpos.

Inventor

E as atrizes mais velhas que conseguem papéis principais?

Model

São exceções que provam a regra. E mesmo quando conseguem, frequentemente têm de lutar muito mais do que os seus colegas homens da mesma idade.

Inventor

Isto vai mudar?

Model

Só se começarmos a contar histórias diferentes. Enquanto o cinema continuar a usar mulheres maduras apenas como âncoras narrativas, a mensagem permanece: vocês deixaram de importar.

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