Adorei cada minuto. Só queria que tivesse durado mais.
Wally Funk, aviadora que nos anos 1960 passou em todos os testes da Nasa sem jamais ser chamada, morreu aos 87 anos em Grapevine, Texas, deixando para trás uma vida inteira dedicada ao céu. Sua trajetória encarna uma das tensões mais duradouras da história moderna: o abismo entre a competência demonstrada e a oportunidade negada por convenção. Quando finalmente viajou ao espaço aos 82 anos, não como astronauta da Nasa, mas a bordo de um foguete comercial, ela não apenas realizou um sonho pessoal — ela fechou, com dignidade silenciosa, um capítulo aberto há seis décadas.
- Funk foi a única do grupo Mercury 13 a passar em todos os testes da Nasa, mas a agência escolheu sete homens e a deixou para trás — uma exclusão que definiria e desafiaria toda a sua existência.
- Em vez de desistir, ela acumulou mais de 19 mil horas de voo, tornou-se a primeira inspetora feminina de acidentes aéreos da aviação federal americana e construiu uma carreira que a Nasa nunca lhe ofereceu.
- Aos 82 anos, em julho de 2021, ela subiu a bordo do New Shepard da Blue Origin e cruzou a fronteira do espaço — batendo o recorde de idade para viajantes espaciais e realizando o que o governo americano lhe negou por décadas.
- Sua morte, aos 87 anos, encerra a vida de uma mulher que nunca precisou de validação institucional para provar o que valia — mas que, ao final, recebeu do universo o que a burocracia humana lhe havia recusado.
Wally Funk morreu na quarta-feira, 8 de julho, aos 87 anos, em sua casa em Grapevine, Texas. Com ela se foi uma das figuras mais singulares da aviação americana — uma mulher que provou ser capaz de ir ao espaço antes de qualquer astronauta americano, e que esperou décadas para que o mundo concordasse.
Nos anos 1960, Funk integrava o grupo que ficaria conhecido como Mercury 13, um conjunto de mulheres submetidas aos mesmos rigorosos testes físicos e psicológicos que os candidatos à Nasa. Ela foi a única a passar em todos. Mesmo assim, a agência escolheu sete homens — o Mercury Seven — e o sonho de Funk foi adiado indefinidamente. A Nasa só abriria suas portas para mulheres em 1978, quando ela já tinha 39 anos.
Mas Funk não parou. Deu aulas de aviação, tornou-se a primeira inspetora feminina de acidentes aéreos da Administração Federal de Aviação, pilotou aviões comerciais, dirigiu uma escola de aviação em Taos e acumulou mais de 19 mil horas de voo ao longo da carreira. Em 1995, foi incluída no Hall da Fama das Pioneiras da Women in Aviation International.
Em julho de 2021, aos 82 anos, ela finalmente cruzou a fronteira do espaço — não pela Nasa, mas a bordo do New Shepard, foguete da Blue Origin de Jeff Bezos. O voo durou pouco mais de dez minutos, mas bastou para bater o recorde de idade entre viajantes espaciais. "Subimos direto, e eu vi a escuridão", disse ela depois. "Adorei cada minuto. Só queria que tivesse durado mais."
Nascida em Las Vegas em 1939 e criada em Taos, Novo México, Funk obteve sua licença de piloto ainda na faculdade e aos 19 anos já pilotava planadores e hidroaviões. Em suas memórias de 2020, resumiu a própria vida com precisão: "A aviação foi toda a minha vida. Eu a como e a respiro." Nunca se casou e não deixa parentes próximos. Deixa, porém, uma trajetória que redefiniu o que é possível — e o que nunca deveria ter sido negado.
Wally Funk morreu na quarta-feira, 8 de julho, aos 87 anos, em sua casa em Grapevine, Texas. A morte da aviadora foi confirmada por Mona Quintanilla, porta-voz da cidade. Com ela se foi uma das figuras mais notáveis da história da aviação americana — uma mulher que passou em todos os testes para viajar ao espaço quando a Nasa ainda não acreditava que mulheres pudessem fazer isso, e que finalmente realizou esse sonho aos 82 anos, décadas depois de ter sido rejeitada.
Nos anos 1960, Funk integrava um grupo de 25 mulheres que foram submetidas a rigorosos testes para determinar como o sexo feminino se comportaria no espaço. O grupo, que ficaria conhecido como Mercury 13, foi reduzido para 13 candidatas. Funk era a única aviadora entre elas — e a única a passar em todos os testes. Mas a Nasa escolheu sete homens, o Mercury Seven, para serem seus primeiros astronautas. Alan Shepard Jr. e John Glenn, nomes que entrariam para a história, foram selecionados. A agência espacial americana simplesmente não estava preparada para arriscar enviar mulheres ao espaço. Funk fez várias tentativas para ser aceita. A Nasa só admitiu mulheres em 1978, quando ela já tinha 39 anos. Sally Ride se tornaria a primeira americana no espaço em 1983, a bordo de um ônibus espacial. Valentina Tereshkova, uma cosmonauta russa, havia sido a primeira mulher no espaço em 1963, realizando uma missão solo.
Mas Funk não parou de voar. Ela deu aulas particulares de aviação, supervisionou investigações de acidentes aéreos como a primeira inspetora mulher da Administração Federal de Aviação e, posteriormente, do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes. Foi dona de uma escola de aviação em Taos, Novo México, pilotou um avião bimotor de passageiros para a Sierra Pacific Airlines em Tucson, Arizona, e competiu nas Powder Puff Derby, as corridas aéreas transcontinentais femininas. Ao longo de sua carreira, acumulou mais de 19 mil horas de voo. Em 1995, foi incluída no Hall da Fama das Pioneiras da Women in Aviation International. Em 2017, seu nome foi inscrito no Muro de Honra do Museu Nacional do Ar e do Espaço em Washington.
Em julho de 2021, aos 82 anos, Funk finalmente voou ao espaço. Não foi pela Nasa, mas a bordo do New Shepard, o foguete construído pela Blue Origin de Jeff Bezos. O voo durou 10 minutos e 19 segundos. Bezos estava lá, junto com seu irmão Mark e um estudante adolescente de física. O foguete subiu acima dos 100 quilômetros, o limite geralmente considerado como o início do espaço, antes de retornar à Terra. Funk bateu o recorde de idade para viajantes espaciais. "Subimos direto, e eu vi a escuridão", disse ela depois. "Eu ia ver o mundo, mas não estávamos em uma altitude suficiente. Adorei cada minuto. Só queria que tivesse durado mais."
Em outubro daquele mesmo ano, William Shatner, o ator famoso por Star Trek, então com 90 anos, tomou o recorde de Funk. Em 2024, Ed Dwight, também com 90 anos mas alguns meses mais velho que Shatner na época, se tornou o atual detentor. Mas o recorde importava menos do que o fato consumado: Funk havia ido ao espaço.
Mary Wallace Funk nasceu em Las Vegas em 1º de fevereiro de 1939, filha de Losier e Virginia Shy Funk. Cresceu em Taos, Novo México, onde seu pai abriu uma loja. Sua primeira experiência com voo aconteceu aos cinco anos, quando pulou do celeiro do pai usando uma capa de Super-Homem. Caiu em uma pilha de feno, mas o fascínio não diminuiu. "Eu tinha permissão para fazer aviões com blocos de madeira e pendurá-los no meu teto", relembrou. Ela foi criada também por indígenas do povo Taos, que lhe ensinaram a pescar, caçar, acampar e sobreviver na natureza selvagem. Obteve sua licença de piloto enquanto estudava no Stephens College em Columbia, Missouri. Depois se matriculou na Universidade Estadual de Oklahoma, que tinha uma escola de aviação famosa. Aos 19 anos, já tinha habilitação para pilotar planador e hidroavião. Após se formar, tornou-se instrutora de voo na base do Exército de Fort Sill, Oklahoma.
Em suas memórias de 2020, "Higher Faster Longer", escritas com Loretta Hall, Funk resumiu sua vida em poucas palavras: "A aviação foi toda a minha vida. Eu a como e a respiro." Nunca se casou e não deixa parentes próximos. Quando seu voo na Blue Origin terminou, ela expressou um desejo simples: "Quero ir de novo, logo". Tanya Harrison, cientista planetária e diretora de estratégia científica da Planet Labs, havia dito ao New York Times antes daquele voo que ver Funk finalmente ir ao espaço "décadas depois de provar que ela não era apenas capaz, mas talvez mais capaz do que os homens contra quem ela estava competindo durante o programa Mercury" era algo incrível. Agora, aquela mulher que a Nasa rejeitou em 1960 havia partido para sempre.
Citações Notáveis
A aviação foi toda a minha vida. Eu a como e a respiro.— Wally Funk, em suas memórias de 2020
Quero ir de novo, logo.— Wally Funk, após seu voo espacial em 2021
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a história de Wally Funk importa tanto? Ela foi ao espaço por apenas dez minutos.
Porque ela foi rejeitada pela Nasa quando era jovem e talentosa demais para ser ignorada. Passou em todos os testes que os homens passaram. E a agência espacial disse não porque era mulher. Isso não é um detalhe histórico — é uma ferida que levou 60 anos para cicatrizar.
Mas ela continuou voando mesmo depois de ser rejeitada. Como ela lidou com isso?
Não parou. Voou profissionalmente, treinou pilotos, investigou acidentes aéreos. Acumulou 19 mil horas de voo. Ela transformou a rejeição em uma vida inteira de trabalho. Quando finalmente foi ao espaço aos 82 anos, não era um prêmio de consolação — era a prova de que ela sempre esteve certa.
E quando ela chegou lá, o que ela sentiu?
Viu a escuridão. Queria ver mais do mundo, mas não estavam em altitude suficiente. Mas adorou cada minuto. E disse que queria ir de novo. Mesmo aos 82 anos, ela ainda queria mais.
Há algo trágico em uma pessoa ter que esperar tanto tempo pelo que merecia.
Sim. Mas há também algo poderoso em alguém que não desiste. Funk não se tornou amargada. Ela voou. Ela viveu. E quando finalmente chegou ao espaço, foi porque ela nunca parou de acreditar que era possível.