A luta ainda não terminou, dizia Valdés aos 82 anos
Com a morte de Ramiro Valdés, aos 94 anos, Cuba perde um dos últimos testemunhos vivos de sua revolução fundadora. Homem que sobreviveu ao iate Granma, às montanhas da Sierra Maestra e a seis décadas de poder, Valdés encarnava a ideia de que a revolução não é um momento, mas uma vida inteira de compromisso. Sua partida não é apenas a de um comandante — é o silenciamento de uma voz que ainda falava da origem, quando tudo ainda estava por ser feito.
- Um dos 12 sobreviventes da expedição do Granma morreu aos 94 anos, levando consigo uma memória insubstituível da revolução cubana de 1959.
- O presidente Díaz-Canel anunciou a morte nas redes sociais com palavras de luto profundo, comparando Valdés a uma figura paterna para a geração que herdou o poder.
- Valdés permaneceu ativo até o fim — aparecia em uniforme militar em campanhas contra os apagões que afligem Cuba, recusando-se a se tornar apenas símbolo.
- Com sua morte, a geração original da revolução cubana aproxima-se do desaparecimento completo, deixando o regime sem suas últimas âncoras históricas vivas.
Ramiro Valdés morreu no domingo, 21 de junho, aos 94 anos. O presidente Miguel Díaz-Canel anunciou a notícia com palavras pesadas: a perda doía "profundamente, como a de um pai". Não revelou a causa da morte, mas deixou claro que Valdés era muito mais do que um colega de governo.
Nascido em 1932, Valdés entrou para a história cubana ainda jovem, participando do ataque ao quartel de Moncada em 1953. Três anos depois, estava entre os 82 homens que embarcaram no iate Granma rumo a Cuba. Apenas 12 sobreviveram — entre eles Fidel Castro, Raúl Castro, Che Guevara e o próprio Valdés. Nas montanhas da Sierra Maestra, serviu como vice-comandante de Guevara e lutou ao lado dele na Batalha de Santa Clara, o confronto que precipitou a fuga de Batista em janeiro de 1959.
Por mais de seis décadas, ocupou posições centrais no regime: ministro do Interior, vice-presidente entre 2009 e 2019, membro do Bureau Político do Partido Comunista. Recebeu os títulos de "Herói da República" e "Comandante da Revolução". No momento de sua morte, ainda atuava como vice-primeiro-ministro.
Até os últimos anos, Valdés aparecia regularmente em uniforme militar ao lado de Díaz-Canel, participando de campanhas contra os apagões que assolam a ilha. Mantinha rotina rigorosa de exercícios até os 80 anos. Em 2014, ao celebrar o aniversário do Moncada, resumiu sua visão de mundo: "Essa luta ainda não terminou."
Com sua morte, desaparece uma das últimas figuras vivas da geração que fez a revolução cubana. O momento em que a história vivida se torna apenas história chegou um pouco mais perto.
Ramiro Valdés morreu no domingo, 21 de junho, aos 94 anos. O anúncio veio do presidente cubano Miguel Díaz-Canel, que publicou a notícia nas redes sociais com uma mensagem pessoal: a morte do comandante doia "profundamente, como a de um pai". Díaz-Canel não revelou a causa do falecimento, mas deixou claro que Valdés era mais que um colega político — era uma figura paternal para a geração que herdou a revolução.
Valdés nasceu em 28 de abril de 1932 e entrou para a história cubana aos 21 anos, quando participou do ataque ao quartel de Moncada em 1953, o evento que marcou o início da revolta contra o governo de Fulgencio Batista. Três anos depois, em 1956, ele estava entre os 82 homens que embarcaram no iate Granma rumo a Cuba para retomar a insurreição. Apenas 12 daqueles homens sobreviveram à travessia e aos combates que se seguiram. Valdés foi um deles — assim como Fidel Castro, seu irmão Raúl, que depois se tornaria presidente, e Ernesto "Che" Guevara, o revolucionário argentino que morreria na Bolívia uma década depois.
Nas montanhas da Sierra Maestra, no leste de Cuba, Valdés serviu como vice-comandante de Guevara. Lutou ao lado dele na Batalha de Santa Clara, o confronto decisivo que precipitou a fuga de Batista do país em 1º de janeiro de 1959. Quando Castro chegou ao poder, Valdés assumiu a chefia da agência de segurança recém-criada, consolidando seu lugar na estrutura do novo regime. Como Castro e Guevara, ele usava o uniforme verde-oliva que se tornou símbolo da revolução, e manteve até o final de sua vida o cavanhaque no estilo de Leon Trótski que adotara desde os primeiros dias da luta.
Por mais de seis décadas, Valdés ocupou posições de poder crescente. Foi ministro do Interior, vice-ministro da Defesa, ministro da Informação e Comunicações, vice-presidente entre 2009 e 2019, e membro do poderoso Bureau Político do Partido Comunista até 2019. Recebeu os títulos honorários de "Herói da República" e "Comandante da Revolução". No momento de sua morte, atuava como vice-primeiro-ministro, mantendo-se ativamente envolvido nos assuntos do governo.
Até seus últimos anos, Valdés permaneceu visível na vida pública cubana. Aparecia regularmente em uniforme militar ao lado de Díaz-Canel, participando de campanhas para enfrentar os frequentes apagões que assolam a ilha. Incentivava os cubanos a apagarem as luzes, reduzirem o consumo de energia e mantivessem vivo o fervor revolucionário. Homem disciplinado, manteve uma rotina rigorosa de exercícios físicos até os 80 anos, refletindo o compromisso com a vida que sempre demonstrou.
Sua lealdade à revolução nunca vacilou, mesmo durante os períodos mais difíceis enfrentados por Cuba. Em 2014, ao celebrar o 61º aniversário do ataque ao Moncada, Valdés reafirmou essa convicção: "Não podemos esquecer que chegamos até aqui graças à unidade do povo e à confiança na revolução. Devemos preservar essa unidade acima de tudo, porque sabemos que essa luta ainda não terminou." Essas palavras capturavam a visão de mundo que o guiou por sete décadas — a ideia de que a revolução era um processo contínuo, não um evento concluído.
Com a morte de Valdés, desaparece uma das últimas figuras vivas da geração original que fez a revolução cubana. Poucos dos 12 sobreviventes da expedição do Granma ainda estão vivos. Sua morte marca o encerramento de uma era, o momento em que a história vivida se torna apenas história.
Citações Notáveis
A morte de Valdés dói profundamente, como a de um pai— Miguel Díaz-Canel, presidente cubano
Não podemos esquecer que chegamos até aqui graças à unidade do povo e à confiança na revolução. Devemos preservar essa unidade acima de tudo, porque sabemos que essa luta ainda não terminou— Ramiro Valdés, em 2014
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Valdés permaneceu tão próximo do poder por tanto tempo, mesmo quando outros revolucionários se afastaram ou foram afastados?
Porque ele nunca questionou a revolução. Enquanto muitos companheiros de luta se tornaram críticos ou foram purificados, Valdés manteve uma lealdade absoluta — não apenas a Castro, mas à ideia de que a revolução era um processo permanente que exigia vigilância constante.
Ele parecia estar envolvido em tudo — segurança, defesa, comunicação, energia. Como um homem consegue ocupar tantos cargos simultaneamente?
Cuba é um sistema centralizado onde o poder flui através de pessoas de confiança. Valdés era confiável. Sua presença em múltiplas áreas refletia menos uma carreira tradicional e mais uma função: ser a mão de Castro, depois de Díaz-Canel, em questões que importavam.
O que significa que ele ainda estava envolvido com os apagões até o final? Isso não sugere que o governo o via como alguém que podia resolver problemas?
Ou que ninguém mais podia. Valdés tinha credibilidade com o povo de uma forma que poucos têm. Colocá-lo em uniforme ao lado do presidente, pedindo sacrifício, era uma forma de dizer: até nossos heróis estão nessa luta com vocês.
Ele viveu 94 anos em um país que passou por embargo, crise econômica, isolamento. Como isso moldou sua visão?
Provavelmente o convenceu de que tinha razão. Cada dificuldade podia ser interpretada como prova de que a revolução era necessária, de que os inimigos externos eram reais, de que a unidade era essencial. Ele nunca teve que confrontar a possibilidade de que as escolhas da revolução criaram alguns dos problemas.
Qual é o significado real de sua morte para Cuba agora?
É o fim de uma testemunha viva. Enquanto Valdés estava vivo, havia alguém que podia dizer: eu estava lá, eu vi, eu fiz isso. Agora só há registros, interpretações, histórias. A geração que fez a revolução está desaparecendo.