Mercados de previsão não são refúgio para ganho pessoal com informações sigilosas
Gannon Ken Van Dyke, de 38 anos, apostou cerca de US$ 33 mil e obteve lucros ilícitos de aproximadamente US$ 409,9 mil em previsões sobre a operação militar contra Maduro. O caso marca a primeira vez que reguladores americanos movem ação por uso de informação privilegiada em mercados de previsão, utilizando a chamada 'Regra Eddie Murphy'.
- Gannon Ken Van Dyke, 38 anos, apostou US$ 33 mil e lucrou US$ 409,9 mil na Polymarket
- Primeira ação de reguladores americanos por uso de informação privilegiada em mercados de previsão
- Enfrenta cinco acusações, incluindo violação da Lei de Bolsa de Mercadorias e fraude eletrônica
- Operação Absolute Resolve capturou Nicolás Maduro em janeiro de 2026
Militar das forças especiais dos EUA foi acusado de usar informações classificadas sobre a captura de Nicolás Maduro para lucrar mais de US$ 400 mil em apostas na plataforma Polymarket, violando leis de mercados de futuros.
Gannon Ken Van Dyke tinha 38 anos, era membro das forças especiais americanas e estava lotado em Fort Bragg, na Carolina do Norte, quando começou a fazer apostas na Polymarket, uma plataforma de previsões sobre eventos do mundo real. No final de dezembro, ele criou uma conta e começou a investir dinheiro em questões sobre o futuro político de Nicolás Maduro na Venezuela. Entre 27 de dezembro e 2 de janeiro, Van Dyke fez cerca de 13 apostas, todas apostando que Maduro sairia do poder, que os EUA invadiriam a Venezuela ou que Trump invocaria poderes de guerra contra o país. Ele investiu aproximadamente US$ 33 mil nesses cenários e obteve lucros de cerca de US$ 409,9 mil — mais de R$ 2 milhões.
O problema é que Van Dyke não era um apostador comum. Ele estava envolvido no planejamento e na execução da Operação Absolute Resolve, o esforço militar dos EUA para capturar Maduro. Como parte de seu trabalho no Comando Conjunto de Operações Especiais, ele havia assinado um acordo de confidencialidade reconhecendo que o governo depositava nele "confiança especial" e prometendo nunca divulgar informações sobre operações no Hemisfério Ocidental. Ao usar informações classificadas sobre uma operação militar sensível para fazer apostas sobre o resultado dessa mesma operação, ele violou essa confiança de forma deliberada e lucrativa.
Horas após Maduro ser capturado, uma foto de Van Dyke foi tirada e enviada à sua conta do Google. A imagem o mostrava no que parecia ser o convés de um navio ao nascer do sol, uniformizado, carregando um rifle, ao lado de outras três pessoas também uniformizadas. No mesmo dia da operação, ele sacou seus ganhos e os transferiu para um cofre estrangeiro de criptomoedas, depois pediu à Polymarket que excluísse sua conta. O Departamento de Justiça dos EUA anunciou as acusações na quinta-feira. Van Dyke enfrenta cinco acusações, incluindo três por violar a Lei de Bolsa de Mercadorias — cada uma com pena de até 10 anos — e uma por fraude eletrônica, com pena de até 20 anos.
O caso marca um ponto de inflexão para os mercados de previsão, que explodiram em popularidade nos últimos anos. A Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA apresentou uma ação civil paralela contra Van Dyke, a primeira vez que o regulador de derivativos move um caso de uso de informação privilegiada em mercados de previsão. Ainda mais notável: foi a primeira vez que a agência utilizou a chamada "Regra Eddie Murphy" em um caso desse tipo — uma regra nomeada em homenagem ao filme de 1983 em que personagens usam um relatório governamental roubado sobre produção de laranja para ganhar milhões apostando em contratos futuros de suco.
A Polymarket, que tem Donald Trump Jr. como investidor e conselheiro, afirmou que identificou o operador usando informações sigilosas, encaminhou o caso ao Departamento de Justiça e cooperou com a investigação. "Uso de informação privilegiada não tem lugar na Polymarket," disse a empresa em uma publicação na rede social X. "A prisão de hoje prova que o sistema funciona." Mas a plataforma tem sido alvo de críticas por oferecer contratos ligados a operações militares — algo que a maioria das outras plataformas evita, tanto por questões de segurança nacional quanto pelo risco de abuso de informação privilegiada.
O caso não é isolado. Autoridades israelenses apresentaram acusações em fevereiro contra duas pessoas, incluindo um reservista militar, acusando-as de usar informações confidenciais para apostar na Polymarket. A crescente preocupação com esses abusos levou a Casa Branca e outros órgãos do governo a alertar funcionários de que não podem negociar nesses mercados usando informações confidenciais. Democratas no Congresso propuseram recentemente novas leis para combater essas práticas. A Polymarket e sua rival Kalshi anunciaram novas políticas para impedir o uso de informações não públicas. Na quarta-feira, a Kalshi informou que multou e baniu três candidatos políticos que apostaram em suas próprias eleições.
Quando questionado sobre a prisão, o presidente Donald Trump disse a jornalistas: "Vou analisar isso", acrescentando que há muito tempo tem reservas quanto a plataformas de apostas em eventos. O procurador federal em Manhattan, Jay Clayton, foi mais direto: "Mercados de previsão não são um refúgio para o uso de informações confidenciais ou sigilosas obtidas indevidamente para ganho pessoal. O réu supostamente violou a confiança nele depositada pelo governo dos EUA ao usar informações classificadas sobre uma operação militar sensível para apostar no momento e no resultado dessa mesma operação, tudo para obter lucro."
Notable Quotes
O réu supostamente violou a confiança nele depositada pelo governo dos EUA ao usar informações classificadas sobre uma operação militar sensível para apostar no momento e no resultado dessa mesma operação, tudo para obter lucro.— Jay Clayton, procurador federal em Manhattan
Uso de informação privilegiada não tem lugar na Polymarket. A prisão de hoje prova que o sistema funciona.— Polymarket, em comunicado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um militar teria acesso a informações sobre uma operação que ainda não havia acontecido?
Van Dyke estava envolvido no planejamento e execução da Operação Absolute Resolve. Ele não apenas tinha acesso — ele estava dentro da operação. Isso é o que torna tudo tão grave.
E ele simplesmente apostou sabendo o que ia acontecer?
Exatamente. Ele criou uma conta, investiu US$ 33 mil em apostas que Maduro sairia do poder, que os EUA invadiriam a Venezuela. Tudo isso enquanto sabia que a operação estava em andamento.
Quanto ele ganhou?
Cerca de US$ 409,9 mil. Mais de R$ 2 milhões. Depois que Maduro foi capturado, ele sacou tudo e transferiu para um cofre de criptomoedas estrangeiro.
Como foi descoberto?
A Polymarket identificou um operador usando informações sigilosas e encaminhou o caso ao Departamento de Justiça. Também havia uma foto — ele foi fotografado no convés de um navio no dia da operação, uniformizado, com um rifle.
Isso é crime?
Sim. Ele viola a Lei de Bolsa de Mercadorias — até 10 anos de prisão por cada acusação — e fraude eletrônica, que pode render até 20 anos. Mas o mais importante é que ele quebrou um acordo de confidencialidade que havia assinado, reconhecendo que o governo depositava nele "confiança especial".
Isso vai mudar as regras dessas plataformas?
Já está mudando. Este é o primeiro caso de seu tipo, e reguladores estão usando uma regra chamada "Regra Eddie Murphy" — nomeada em homenagem a um filme de 1983. Democratas no Congresso propõem novas leis. Polymarket e Kalshi estão implementando políticas mais rigorosas.