Rasgam a pele em vez de estimular cicatrização controlada
Na busca por pele perfeita sem sair de casa, muitos brasileiros recorrem a rolinhos de microagulhamento vendidos pela internet — dispositivos baratos que prometem resultados clínicos, mas que, nas mãos de leigos, podem transformar uma tentativa de cura em uma nova ferida. O cirurgião dermatológico Emerson de Andrade Lima alertou que esses aparelhos domésticos rasgam a pele em vez de perfurá-la com precisão, abrindo caminho para infecções, cicatrizes adicionais e danos permanentes. A história de cada cicatriz já carrega um trauma; o uso inadequado dessas ferramentas arrisca aprofundá-lo.
- Rolinhos de microagulhamento vendidos online prometem resultados de clínica, mas carecem da qualidade técnica necessária para perfurar a pele de forma controlada — e rasgam onde deveriam estimular.
- O uso doméstico sem orientação aumenta drasticamente o risco de infecções bacterianas graves, incluindo micobactérias que exigem antibióticos por tempo prolongado.
- Compartilhar o aparelho entre pessoas — prática comum em grupos de amigas ou famílias — eleva o risco de transmissão de doenças, enquanto cosméticos não-estéreis aplicados após o procedimento agravam ainda mais os danos.
- Cicatrizes não são apenas marcas físicas: podem limitar movimentos, causar dor crônica e carregar o peso emocional do trauma original, tornando o tratamento uma questão de saúde integral.
- O caminho seguro passa pelo consultório — laser, luz pulsada, silicone e microagulhamento supervisionado são opções eficazes, mas o processo de amadurecimento de uma cicatriz pode levar até dois anos.
Os rolinhos com agulhas minúsculas vendem bem na internet: são baratos, discretos e prometem resultados de clínica no conforto do banheiro. O problema, segundo o cirurgião dermatológico Emerson de Andrade Lima, é que eles funcionam — mas não da forma esperada. Em vez de perfurar a pele de maneira controlada como ocorre em consultório, os dispositivos domésticos rasgam o tecido, produzindo manchas mais evidentes e cicatrizes novas no lugar das que se tentava tratar.
As complicações vão além do dano imediato. O uso inadequado eleva o risco de infecções bacterianas sérias, incluindo micobactérias que exigem tratamento prolongado com antibióticos. Compartilhar o aparelho — hábito comum entre amigas ou moradores da mesma casa — acrescenta o risco de transmissão de doenças. E os cosméticos aplicados logo após o procedimento, sem a esterilidade necessária para uma pele recém-perfurada, podem provocar queimaduras e infecções adicionais.
Para entender o que está em jogo, é preciso compreender o que uma cicatriz representa. Ela surge quando o corpo tenta se recuperar de cirurgias, queimaduras, acne severa ou traumas, produzindo um tecido diferente da pele original — com alterações de cor, textura e elasticidade. Dependendo da localização, pode limitar movimentos, causar dor crônica ou comprometer funções básicas. Além do impacto físico, há o emocional: muitas pessoas carregam o desconforto psicológico associado à memória do trauma que deixou a marca.
Lima também esclarece uma confusão frequente: nem toda cicatriz elevada é um queloide. O queloide é uma lesão específica, endurecida e avermelhada, que ultrapassa os limites do ferimento original, com predisposição genética e maior incidência em pessoas de pele preta ou parda. As estrias, por sua vez, são cicatrizes formadas pela ruptura das fibras da pele durante gravidez, ganho de peso ou crescimento muscular intenso.
O tratamento profissional varia conforme cada caso e pode incluir laser, luz intensa pulsada, géis e placas de silicone, infiltrações e, sim, microagulhamento — desde que realizado por profissionais habilitados. Os cuidados começam logo após a lesão: seguir orientações médicas, proteger a área do sol e evitar tensão sobre a cicatriz fazem diferença no resultado final. O processo de amadurecimento pode durar até dois anos, e mesmo marcas antigas ainda respondem ao tratamento adequado — desde que conduzido por quem realmente sabe o que está fazendo.
Os rolinhos com agulhas minúsculas vendem bem na internet. São baratos, prometem resultados de clínica no conforto do banheiro, e chegam em uma caixa discreta. O problema é que funcionam — mas não da forma que as pessoas esperam.
O cirurgião dermatológico Emerson de Andrade Lima passou pelo programa Bem Estar, da Globo, para explicar por que esses aparelhos caseiros preocupam tanto os especialistas. A técnica do microagulhamento, quando feita corretamente em consultório, realmente ajuda com cicatrizes, rugas e manchas. Mas os dispositivos vendidos para uso doméstico carecem da qualidade necessária para perfurar a pele de forma controlada. Em vez de estimular uma cicatrização ordenada, eles rasgam. E quando a pele é rasgada de forma descontrolada, o resultado é exatamente o oposto do que se busca: manchas mais evidentes e cicatrizes novas.
As complicações vão além do dano imediato. Usar esses rolinhos aumenta significativamente o risco de infecções bacterianas, incluindo micobactérias que exigem tratamento prolongado com antibióticos. Há ainda o risco de transmissão de doenças quando o aparelho é compartilhado entre pessoas — algo comum em casas com vários moradores ou em grupos de amigas que experimentam juntas. Depois vem a questão dos produtos aplicados logo após o procedimento. Os cosméticos de uso doméstico não têm a esterilidade necessária para uma pele que acabou de ser perfurada, o que abre caminho para queimaduras e infecções adicionais.
Para entender por que isso importa, é preciso saber o que uma cicatriz realmente é. Ela surge quando o corpo tenta se recuperar de uma cirurgia, queimadura, acne severa ou trauma. Durante esse processo, o organismo produz um tecido diferente da pele original — com alterações de cor, espessura, textura e elasticidade. Dependendo de onde fica, uma cicatriz pode limitar movimentos, causar dor crônica, coceira persistente, ou até comprometer funções básicas como abrir a boca ou mover os braços. Além do impacto físico, há o emocional: muitas pessoas carregam o desconforto psicológico das lembranças associadas ao trauma que deixou a marca.
Há uma confusão comum que Lima aproveita para esclarecer. Nem toda cicatriz alta é um queloide. Um queloide é uma lesão específica — endurecida, elevada, avermelhada — que ultrapassa os limites do ferimento original e causa dor e coceira, frequentemente no tórax ou mamas. Tem predisposição genética e é mais comum em pessoas de pele preta ou parda, embora possa ocorrer em qualquer tom de pele. As estrias também entram nessa categoria: são cicatrizes que surgem quando as fibras da pele se rompem, durante gravidez, ganho de peso ou crescimento muscular intenso. Começam avermelhadas e ficam esbranquiçadas com o tempo.
O tratamento profissional de cicatrizes não é único. Varia conforme as características de cada caso. As opções incluem laser, luz intensa pulsada, placas e géis de silicone, hidratação adequada, infiltrações, técnicas cirúrgicas específicas e, sim, microagulhamento — desde que realizado por profissionais habilitados em ambiente apropriado. O objetivo é tornar a cicatriz o mais semelhante possível à pele normal, mesmo que o tecido nunca recupere completamente suas características originais.
Os cuidados começam logo após a lesão inicial. Seguir as orientações médicas à risca, proteger a região do sol, usar placas ou géis de silicone quando indicados, manter a hidratação e evitar esforços que causem tensão sobre a cicatriz — tudo isso contribui para um resultado melhor. Se a cicatriz apresentar vermelhidão intensa, aumento exagerado de volume ou outras alterações inesperadas, é hora de procurar avaliação médica. O processo de amadurecimento de uma cicatriz pode continuar por até dois anos. Mesmo marcas antigas deixadas por acne, queimaduras ou acidentes ainda podem melhorar com o tratamento adequado — mas esse tratamento precisa vir de quem sabe o que está fazendo.
Citações Notáveis
Em vez de estimular uma cicatrização controlada, esses equipamentos podem rasgar a pele, favorecendo o aparecimento de manchas e cicatrizes ainda mais evidentes— Emerson de Andrade Lima, cirurgião dermatológico
Cosméticos destinados ao uso doméstico podem não apresentar a esterilidade necessária para esse tipo de procedimento, elevando as chances de queimaduras, infecções e outras complicações— Emerson de Andrade Lima
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que esses rolinhos caseiros são tão populares se causam tanto dano?
Porque funcionam — ou parecem funcionar. A pessoa vê a agulha penetrando a pele, sente o incômodo, e pensa que está estimulando a cicatrização como nos consultórios. Mas a qualidade do equipamento faz toda a diferença. Os caseiros rasgam em vez de perfurar de forma controlada.
E se alguém usar apenas uma vez, o risco é menor?
Não é bem assim. Uma única sessão descontrolada já pode deixar marcas permanentes. E muitas pessoas não param em uma — repetem o procedimento porque não veem resultado imediato, piorando tudo.
O que torna um queloide diferente de uma cicatriz comum?
Um queloide cresce além dos limites do ferimento original. É endurecido, avermelhado, causa dor e coceira. Uma cicatriz comum fica dentro dos limites da lesão. Geneticamente, algumas pessoas estão predispostas a desenvolver queloides, especialmente pessoas de pele preta ou parda.
Se alguém já tem uma cicatriz ruim, quanto tempo leva para melhorar com tratamento profissional?
O processo de amadurecimento pode continuar por até dois anos. Mas mesmo cicatrizes antigas — de acne, queimaduras, acidentes — ainda podem melhorar significativamente com o tratamento certo. O ponto é que precisa ser feito por quem entende.
Qual é o maior risco além das novas cicatrizes?
As infecções bacterianas, incluindo micobactérias. Elas exigem antibióticos prolongados e podem deixar consequências piores que a cicatriz original. E se o aparelho for compartilhado, você ainda corre risco de pegar doenças de outras pessoas.