A desigualdade dentro da Venezuela é abissal: 35 vezes entre ricos e pobres
No limiar entre a desesperança e o deslocamento, México e Venezuela firmaram, em março de 2024, um pacto que tenta ordenar o fluxo de milhares de venezuelanos presos no corredor rumo aos Estados Unidos. O acordo prevê deportações acompanhadas de auxílio financeiro e reinserção no mercado de trabalho — uma resposta pragmática a uma crise enraizada na pobreza estrutural que afeta mais da metade da população venezuelana. É um momento que revela como as nações vizinhas absorvem, cada uma à sua maneira, as pressões de uma diáspora nascida da desigualdade.
- Entre 4 mil e 5 mil venezuelanos estão retidos em Tijuana, suspensos numa fronteira que não os deixa avançar nem os convida a voltar.
- A pressão americana cresce: 17% dos norte-americanos já apontam a imigração como o maior problema do país, seis pontos a mais do que em dezembro anterior.
- O acordo tenta transformar a deportação em algo mais palatável — US$ 110 mensais por seis meses e vagas em empresas como PDVSA, Polar e Bimbo.
- Na Venezuela, 51,9% da população vive em pobreza em 2023, número que sobe mesmo com programas de transferência de renda alcançando quase 80% dos entrevistados.
- A desigualdade interna é brutal: a renda per capita do grupo mais pobre é de US$ 10 mensais, enquanto a do mais rico chega a US$ 347 — uma diferença de 35 vezes.
No final de março de 2024, México e Venezuela anunciaram um acordo para lidar com o fluxo de imigrantes venezuelanos que atravessam o território mexicano em direção aos Estados Unidos. A ministra das Relações Exteriores do México, Alicia Barcena, apresentou os detalhes do programa em Brasília no dia 21 de março: além das deportações, cada retornado receberá cerca de US$ 110 mensais durante seis meses e terá acesso a oportunidades de emprego em empresas dos dois países, entre elas a petrolífera PDVSA, a cervejaria Polar e a panificadora Bimbo.
O cenário que torna o acordo urgente é concreto: entre 4 mil e 5 mil venezuelanos estão concentrados principalmente em Tijuana, na fronteira com os EUA, em situação de extrema vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, pesquisa da Reuters com o Ipsos mostra que a imigração tornou-se a principal preocupação para 17% dos norte-americanos no início de 2024 — alta de seis pontos percentuais em poucos meses.
A raiz do problema está na Venezuela. Segundo a Encovi, divulgada em março pelo Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade Católica Andrés Bello, 51,9% dos venezuelanos viviam em pobreza em 2023, índice superior ao de 2022. Quase 80% da população recebeu algum benefício de transferência de renda no período, mas a pobreza persiste e se aprofunda. A renda per capita do grupo mais pobre é de apenas US$ 10 mensais, contra US$ 347 do grupo mais rico — uma diferença de quase 35 vezes que continua empurrando milhares de pessoas para a estrada.
No final de março de 2024, México e Venezuela selaram um acordo que marca uma virada na forma como os dois países lidam com o fluxo migratório que atravessa a região. O pacto prevê que imigrantes venezuelanos interceptados em território mexicano sejam deportados de volta à Venezuela, uma medida que o governo mexicano enquadra como necessária para controlar o movimento de pessoas que tentam chegar aos Estados Unidos.
A ministra das Relações Exteriores do México, Alicia Barcena, apresentou os detalhes do programa a jornalistas em Brasília na quinta-feira, 21 de março. O acordo não é apenas uma questão de deportação simples. Ele inclui um componente de assistência econômica: cada imigrante que retornar à Venezuela receberá aproximadamente 110 dólares por mês durante seis meses. Além disso, o programa oferece oportunidades de emprego em empresas de ambos os países, criando um incentivo para que os deportados se reintegrem economicamente. Entre as empresas envolvidas estão a petrolífera estatal PDVSA, a cervejaria Polar e a panificadora Bimbo.
O contexto que torna esse acordo urgente é visível nos números. Segundo a agência Reuters, entre 4 mil e 5 mil imigrantes venezuelanos estão atualmente retidos no México, concentrados principalmente na cidade de Tijuana, na fronteira com os Estados Unidos. Esses indivíduos representam uma população em situação de vulnerabilidade extrema, presa em um limbo geográfico enquanto tentam alcançar o norte.
A preocupação americana com a imigração cresceu significativamente. Uma pesquisa realizada no início de 2024 pela Reuters em parceria com o Ipsos revelou que 17% dos norte-americanos apontam a imigração como o maior problema enfrentado pelo país. Esse percentual representa um aumento de seis pontos percentuais em relação a dezembro do ano anterior, sinalizando uma escalada na ansiedade pública sobre o tema.
O que impulsiona essa migração em massa é a situação econômica devastadora na Venezuela. De acordo com a Encovi, uma pesquisa nacional sobre condições de vida divulgada em 13 de março pelo Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade Católica Andrés Bello, 51,9% da população venezuelana vivia em pobreza em 2023. Esse número é ainda mais alarmante quando comparado a 2022, quando a taxa era de 50,5%. A pobreza continua crescendo apesar dos esforços do governo para flexibilizar controles econômicos e estimular uma dolarização informal.
O paradoxo é que mesmo com investimentos públicos em programas de transferência de renda, a situação não melhora. Quase 80% dos entrevistados pela Encovi disseram ter recebido algum benefício desse tipo nos últimos 12 meses, um aumento em relação aos 71% registrados em 2022. Entre os beneficiários, 44,1% recebem os valores mensalmente e 24% quinzenalmente. Ainda assim, a pobreza persiste e se aprofunda.
A desigualdade dentro da Venezuela é abissal. Enquanto a renda per capita do grupo mais pobre é de apenas 10 dólares por mês, a do grupo mais rico chega a 347,20 dólares. A diferença entre esses dois extremos é de quase 35 vezes, revelando uma sociedade profundamente fragmentada. É nesse cenário de desesperança econômica que milhares de venezuelanos arriscam a jornada para o norte, alimentando o fluxo migratório que México e Venezuela agora tentam controlar através deste novo acordo.
Citações Notáveis
O programa inclui empresas de ambos os países que irão contratar quem retornar à Venezuela— Alicia Barcena, ministra das Relações Exteriores do México
17% da população dos EUA considera a imigração o maior problema do país, aumento de 6 pontos percentuais desde dezembro— Pesquisa Reuters/Ipsos, início de 2024
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o México aceitaria deportar pessoas que claramente estão em situação desesperada? Qual é o incentivo real?
O México está sob pressão dos Estados Unidos, que vê a imigração como uma crise política crescente. Ao aceitar deportar, o México oferece uma solução que parece humana — com auxílio financeiro — mas que também reduz o número de pessoas na sua fronteira.
E a Venezuela? Por que aceitaria receber de volta pessoas que fugiram?
A Venezuela precisa de divisas e de mão de obra. O acordo envolve empresas mexicanas e venezuelanas contratando esses deportados. É uma forma de o governo venezuelano recuperar pessoas que poderiam contribuir economicamente, mesmo que a economia esteja em colapso.
Os 110 dólares mensais são suficientes para alguém viver na Venezuela?
Não. A pesquisa mostra que a renda per capita do grupo mais pobre é de 10 dólares por mês. Os 110 dólares são uma quantia significativa em comparação, mas por apenas seis meses. Depois disso, a pessoa fica dependente de encontrar trabalho em uma economia que mal funciona.
Então o programa é uma solução temporária?
Exatamente. Ele resolve o problema imediato do México — reduzir a população retida em Tijuana — mas não resolve o problema fundamental: por que as pessoas saem da Venezuela. Enquanto a pobreza afetar mais da metade da população, as pessoas continuarão tentando sair.
A pesquisa americana sobre imigração mostra algo importante?
Mostra que a imigração se tornou uma questão política central nos EUA. O aumento de seis pontos percentuais em poucos meses indica que o tema está ganhando urgência na mente dos eleitores. Isso explica por que o México está disposto a fazer acordos como este — está respondendo a uma pressão política que vem de Washington.