Metrô do Rio é o mais caro porque não recebe subsídios do governo

A tarifa de R$ 6,50 compromete 22% da renda média do carioca, afetando especialmente usuários de baixa renda que dependem do transporte público.
O metrô carioca precisa cobrir 100% de seus custos; em outros estados, o governo entra com o resto
Explicação de por que a tarifa do Rio é a mais cara do país entre todas as capitais brasileiras.

No Rio de Janeiro, pagar para andar de metrô é pagar sozinho — sem que o Estado divida o peso. Desde a privatização de 1997, a cidade optou por um modelo em que toda a responsabilidade financeira recai sobre o passageiro, enquanto outras metrópoles brasileiras mantiveram subsídios que amortecem o custo real do transporte. A tarifa de R$ 6,50, a mais cara do país, não é uma anomalia passageira: é a consequência duradoura de uma escolha estrutural feita há 25 anos, cujos efeitos recaem hoje com mais força sobre quem menos pode arcar com eles.

  • Com a passagem subindo para R$ 6,50 em abril de 2022, o metrô do Rio passou a consumir 22% da renda média do carioca — uma fatia que pesa mais sobre quem depende do transporte público para sobreviver.
  • O Rio é o único sistema metroviário do Brasil sem subsídio governamental: enquanto outras cidades cobrem até 30% dos custos operacionais com recursos públicos, aqui cada centavo sai da catraca.
  • O reajuste seguiu o IGP-M, que acumulou quase 17% entre 2021 e 2022, tornando a inflação um multiplicador direto da tarifa — um mecanismo que o governo estadual promete substituir pelo IPCA, mas ainda sem prazo concreto.
  • A privatização de 1997 extinguiu os subsídios que antes bancavam entre 20% e 30% dos custos da CBTU, transferindo ao concessionário — e, na prática, ao usuário — uma responsabilidade que em Recife, São Paulo e Belo Horizonte ainda é compartilhada com o poder público.
  • O governo do Rio estuda uma tarifa social integrada entre trem e metrô, mas a medida esbarra em cláusulas dos contratos de concessão, mantendo a solução travada enquanto a pressão sobre o bolso do passageiro continua crescendo.

No início de abril de 2022, a passagem do metrô do Rio de Janeiro subiu para R$ 6,50 — a mais cara do Brasil. O número tem peso concreto: compromete 22% da renda média do carioca. A razão é estrutural. O metrô carioca é o único do país que não recebe subsídio governamental, obrigando os passageiros a cobrir 100% dos custos operacionais. Em outras cidades, o governo entra com até 30% das despesas, mantendo as tarifas em patamares menores.

O reajuste seguiu o IGP-M, índice que acumulou 16,91% entre janeiro de 2021 e janeiro de 2022. O governo estadual sinaliza que pretende migrar para o IPCA nas próximas revisões — um índice menos volátil —, mas a mudança ainda não foi implementada.

A origem desse modelo remonta a 1997, quando o Estado privatizou a operação que era feita pela CBTU, estatal que funcionava com déficit coberto por recursos públicos. Ao entregar o sistema aos consórcios Supervia e MetrôRio, o governo abriu mão dos subsídios. O que era para ser uma transição virou regra permanente.

O contraste com outras cidades é revelador. Em Recife, onde a CBTU ainda opera, a tarifa é de R$ 4,25 e o sistema recebia R$ 310 milhões em subsídios federais anuais. Em São Paulo, o governo estadual complementa R$ 1,90 por passageiro na Linha 4-Amarela, mantendo a passagem em R$ 4,40 mesmo com pressão inflacionária.

No Rio, o governo estuda uma tarifa social para usuários que integram trem e metrô com bilhete único. Mas a medida esbarra em cláusulas dos contratos de concessão, assinados quando o Estado abriu mão de qualquer papel financeiro no sistema. Enquanto a solução não avança, a cidade colhe as consequências de uma escolha feita 25 anos atrás: um transporte público que se sustenta inteiramente por quem o usa.

No sábado 2 de abril, a passagem do metrô do Rio de Janeiro subiu para R$ 6,50, consolidando o que já era uma realidade incômoda: a tarifa mais cara do país. Para quem vive na cidade, o número tem peso concreto — a passagem agora consome 22% da renda média de um carioca. A razão por trás dessa disparidade é simples e estrutural: o metrô do Rio é o único do Brasil que não recebe um centavo de subsídio governamental. Toda a operação, da manutenção à segurança, sai do bolso de quem entra na catraca.

Joubert Flores, presidente da ANPTrilhos, a associação que representa operadores de transporte sobre trilhos, explicou a lógica sem rodeios. Enquanto o metrô carioca precisa cobrir 100% de seus custos operacionais através das tarifas, em outros estados a realidade é diferente. Lá, as passagens cobrem no máximo 70% das despesas — o governo entra com o resto. É essa diferença que explica por que você paga menos em São Paulo, Brasília ou Belo Horizonte.

O reajuste de R$ 5,80 para R$ 6,50 não foi aleatório. O metrô usa o IGP-M, o Índice Geral de Preços do Mercado, como referência para aumentos anuais. Entre janeiro de 2021 e janeiro de 2022, esse índice subiu 16,91% — uma consequência direta da inflação que assolou o país. O governo estadual já sinalizou que pretende mudar para o IPCA, um índice menos volátil, nas próximas revisões. Isso deveria frear futuras altas, mas a mudança ainda não saiu do papel.

A história dessa situação começa em 1997. Até então, tanto o trem quanto o metrô eram operados pela CBTU, a Companhia Brasileira de Trens Urbanos, uma estatal que funcionava com um déficit gigantesco — o governo estadual bancava entre 20% e 30% dos custos. Quando veio a privatização, o Estado entregou a operação a dois consórcios: a Supervia, que cobra R$ 5 pela passagem de trem, e a MetrôRio, responsável pelo metrô. Naquela época, a ideia era que o concessionário assumisse a responsabilidade financeira. O governo, por sua vez, deixou de subsidiar. O que era um arranjo temporário virou permanente.

Em outras cidades, a CBTU ainda opera. Em Belo Horizonte, Recife, Natal, João Pessoa e Maceió, a estatal continua gerenciando o sistema, e por isso as tarifas recebem subsídios. Em Recife, por exemplo, a tarifa é de R$ 4,25 — menos da metade do Rio. Antes de um reajuste drástico em 2020, quando a passagem saltou de R$ 1,60 para R$ 4, o metrô arrecadava R$ 62 milhões por ano enquanto recebia R$ 310 milhões em subsídios federais. Mesmo assim, 56% dos usuários não pagavam tarifa direta por causa da integração com ônibus.

São Paulo oferece outro modelo. Lá, o governo estadual subsidia diretamente. Na Linha 4-Amarela, que é privada, o usuário paga R$ 4,40, mas o governo coloca mais R$ 1,90 por passageiro. Entre outubro e novembro do ano passado, o sistema recebeu R$ 276 milhões em créditos suplementares do Estado. Se o governo repassasse todos os ajustes inflacionários desde o último aumento, a passagem subiria de R$ 4,40 para R$ 4,92. Mas a decisão foi manter o preço estável.

No Rio, o governo estuda medidas para aliviar a pressão. Uma delas é a tarifa social, que está em análise desde outubro do ano passado. A ideia é que o Estado subsidie parte do valor para quem usa bilhete único integrando trem e metrô. Por enquanto, a tarifa social só funciona para quem usa as barcas — a passagem custa R$ 5,15, e o governo complementa até R$ 6,90. O obstáculo real é um acordo feito entre o governo e as empresas privadas quando foram assinadas as concessões. Mexer nesse contrato é complicado, e por isso a tarifa social segue travada.

A situação do Rio é um reflexo de uma escolha feita 25 anos atrás. Enquanto outras cidades mantiveram a operação estatal ou negociaram subsídios nas concessões, o Rio transferiu toda a responsabilidade financeira para os passageiros. Agora, com a inflação pressionando e sem espaço para manobra contratual, a cidade colhe as consequências. A passagem mais cara do país não é um acaso — é o resultado de uma estrutura que, diferentemente de qualquer outra metrópole brasileira, exige que o transporte se sustente inteiramente por quem o usa.

O valor cobrado pela tarifa do metrô do Rio cobre 100% do custo da operação, inclusive manutenção e custos com segurança. Já as tarifas cobradas em outros estados cobrem no máximo 70% da operação, então precisa ter um complemento.
— Joubert Flores, presidente da ANPTrilhos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o Rio é o único lugar onde isso acontece? Não era mais fácil manter subsídios como em outros estados?

Model

Quando privatizaram em 1997, o Estado tinha um déficit gigantesco — 20 a 30% do orçamento ia para o metrô. A ideia era que a empresa privada resolvesse isso. Mas ninguém negociou subsídios na concessão, diferente de São Paulo. O Rio simplesmente saiu do jogo.

Inventor

E por que o governo não muda isso agora? Parece fácil voltar a subsidiar.

Model

Existe um contrato. Quando você privatiza, você assina um acordo com a empresa. Mexer nisso é complicado legalmente e politicamente. A tarifa social está em estudo há meses justamente porque precisa navegar esse contrato.

Inventor

Então a pessoa que pega metrô todo dia no Rio está pagando por uma decisão de 1997?

Model

Exatamente. E não é só isso — está pagando com um índice de reajuste que sobe mais rápido que em outros lugares. O IGP-M subiu 16,91% em um ano. Em São Paulo, o governo absorve esses aumentos.

Inventor

A tarifa social que estão estudando resolveria?

Model

Ajudaria, mas não resolve tudo. Ela subsidiaria quem usa integração trem-metrô, não a passagem inteira. E mesmo assim está travada no contrato. É uma solução parcial para um problema estrutural.

Inventor

Se o Rio não tivesse privatizado, seria diferente?

Model

Provavelmente. Belo Horizonte, Recife, Natal — todas ainda têm a CBTU operando e recebem subsídios. O metrô carioca teria um déficit, sim, mas o Estado estaria bancando parte. Aqui, o passageiro banca tudo.

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