37 licenciaturas ficaram sem qualquer estudante este ano
Pela segunda vez consecutiva, o ensino superior português recebeu menos estudantes do que no ano anterior — 49.438 colocações em 2023, numa queda que acompanha também a diminuição de candidatos. O fenómeno não é apenas estatístico: revela uma transformação silenciosa nas aspirações e na geografia do conhecimento em Portugal, onde a Engenharia Aeroespacial supera a Medicina no prestígio das médias de entrada e 37 licenciaturas ficam completamente desertas. O país que forma mais médicos do que nunca é também o país onde o interior perde alunos, cursos e futuro.
- Pela segunda vez seguida, o número de colocados no ensino superior caiu — sinal de que a procura pelo sistema está a encolher, não apenas a redistribuir-se.
- Engenharia Aeroespacial na Universidade do Minho destronou Medicina como o curso de entrada mais exigente do país, com 188,6 valores, marcando uma viragem simbólica nas ambições académicas dos jovens portugueses.
- 37 licenciaturas não receberam um único estudante — mais 11 do que em 2022 —, e quase todas estão em institutos politécnicos do interior e da periferia, onde a desertificação académica se aprofunda.
- O Governo sublinha que 56% dos candidatos entraram na primeira opção e 87% nas três primeiras, os valores mais altos dos últimos anos, tentando enquadrar a queda como uma seleção mais eficiente e não como um recuo.
- Medicina bateu o recorde histórico de admissões com 1.595 estudantes, e Educação Básica cresceu 21%, mas estes ganhos pontuais não travam a concentração crescente da procura nas grandes universidades urbanas.
Os resultados da primeira fase de acesso ao ensino superior em 2023 confirmaram uma tendência que já se desenhava: menos alunos colocados pelo segundo ano consecutivo. Foram 49.438 estudantes, uma queda de 0,7% face a 2022, num contexto em que o próprio número de candidatos também diminuiu — de 61.507 para 59.073. A redução não é apenas uma questão de vagas; é um reflexo de uma procura que se contrai.
A grande novidade do ano foi a ascensão da Engenharia Aeroespacial da Universidade do Minho ao topo das médias nacionais, com 188,6 valores, ultrapassando Medicina, que passou para segundo lugar com 186,8 valores no último colocado do Instituto Abel Salazar. A mudança é simbólica: a engenharia aeroespacial cresce em prestígio enquanto a medicina, ainda dominante, vê a sua posição histórica desafiada.
O Governo procurou destacar os aspetos positivos: taxa de ocupação de vagas de 84%, 56% dos candidatos colocados na primeira opção e 87% nas três primeiras — os valores mais elevados dos últimos anos. Medicina admitiu 1.595 estudantes, um recorde absoluto, e Educação Básica cresceu 21% em colocações, com uma taxa de ocupação de 97%, respondendo a carências reconhecidas de profissionais em ambas as áreas.
Mas a geografia do ensino superior português continua a fragmentar-se. O top 10 de cursos com médias mais altas concentra-se nas universidades do Porto, Minho, Aveiro e Lisboa — todas em grandes centros urbanos. No extremo oposto, os cursos com notas de entrada mais baixas, todas nos 95 valores, estão em instituições do interior: Évora, Beja, Bragança e Castelo Branco. E 37 licenciaturas não receberam qualquer estudante este ano, mais 11 do que em 2022, distribuídas maioritariamente por institutos politécnicos do interior e da periferia. A concentração da procura nas grandes instituições urbanas não para de crescer, deixando programas inteiros — e regiões inteiras — sem alunos.
Os resultados da primeira fase de acesso ao Ensino Superior chegaram no domingo com um padrão que se repete: menos alunos conseguiram vaga do que no ano anterior. Foram colocados 49.438 estudantes, uma queda de 0,7% em relação a 2022. O número pode parecer pequeno, mas marca o segundo ano consecutivo de diminuição após o pico de 2020. Ao mesmo tempo, o número de candidatos também caiu — de 61.507 em 2022 para 59.073 este ano — sugerindo que a redução nas colocações acompanha uma procura menor pelo ensino superior português.
O curso que se destaca este ano é Engenharia Aeroespacial na Universidade do Minho, que conquistou o lugar de programa com a média mais alta do país: 188,6 valores. Isto significa que Medicina, que liderava o ranking no ano anterior, desceu para segundo lugar. O curso de Medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, na Universidade do Porto, registou uma média de 186,8 valores no último colocado. A mudança é simbólica de uma transformação mais ampla no ensino superior português, onde a procura por engenharia aeroespacial continua a crescer enquanto a medicina, apesar de manter prestígio, vê a sua posição desafiada.
Apesar da queda nas colocações, o Governo destaca números que considera positivos. A taxa de ocupação de vagas foi de 84%, e mais importante ainda: 56% dos candidatos foram colocados na sua primeira escolha, enquanto 87% conseguiram entrar numa das três primeiras opções. O ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior argumenta que estes são os valores mais elevados dos últimos anos e um indicador de sucesso académico. Há ainda 5.212 vagas sobrantes para a segunda fase do concurso.
Dois setores recebem atenção especial do Governo. A Educação Básica registou um aumento de 21% em colocações em relação a 2022, com 923 novos estudantes a entrarem em licenciaturas nesta área — uma taxa de ocupação de 97%. Medicina, por sua vez, admitiu 1.595 estudantes, o maior número de sempre, com um acréscimo de 51 colocados face ao ano anterior, resultado de vagas sobrantes dos concursos especiais para licenciados. Ambas as áreas enfrentam carências significativas de profissionais, e o Governo apresenta estes números como resposta a essas necessidades.
A Universidade do Porto domina o topo das médias, com seis cursos no top 10 nacional: Medicina em duas instituições diferentes, Engenharia e Estratégia Industrial, Arquitetura, Bioengenharia, e Línguas e Relações Internacionais. Os restantes lugares no top 10 são ocupados por programas das universidades do Minho, Aveiro e Lisboa, todos em Engenharia Aeroespacial. Todos estes cursos de elite estão concentrados em grandes centros urbanos.
Mas enquanto o topo se concentra nas cidades, o interior do país enfrenta uma realidade diferente. Os cursos com as notas de entrada mais baixas — todas com 95 valores — estão localizados em instituições do interior: Enologia na Universidade de Évora, Ciência e Tecnologia dos Alimentos no Instituto Politécnico de Beja, Gestão dos Negócios Internacionais no Instituto Politécnico de Bragança, e Secretariado no Instituto Politécnico de Castelo Branco. Esta disparidade geográfica aprofunda-se a cada ano.
O número de cursos sem qualquer colocação aumentou significativamente. Este ano, 37 licenciaturas não receberam nenhum estudante — mais 11 do que em 2022. Destes 37 cursos vazios, cinco estão em três universidades (Beira Interior, Madeira e Algarve) e os restantes distribuem-se por dez institutos politécnicos espalhados pelo interior e periferia do país: Beja, Bragança, Castelo Branco, Guarda, Leiria, Portalegre, Santarém, Setúbal, Viseu e Tomar. A tendência sugere que a concentração de procura nas grandes instituições urbanas continua a aumentar, deixando programas inteiros sem alunos.
Citações Notáveis
O maior número de sempre de estudantes admitidos em Medicina: 1.595 alunos— Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
Os valores mais elevados dos últimos anos em colocações na primeira opção são um dos fatores mais relevantes para o sucesso académico— Governo português
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que é que Engenharia Aeroespacial no Minho conseguiu ultrapassar Medicina neste ranking?
Não é apenas uma questão de qualidade — é sobre procura. A engenharia aeroespacial tem crescido em atratividade, especialmente em programas especializados. Medicina mantém prestígio, mas a concorrência por vagas em medicina é tão intensa que as médias sobem em todos os cursos. Quando há mais vagas em aeroespacial, as médias podem ser ligeiramente mais altas porque o programa atrai candidatos muito fortes.
E o que significa que 37 cursos ficaram completamente vazios?
Significa que há instituições inteiras — principalmente no interior — que não conseguem atrair ninguém. Não é um problema de qualidade pedagógica necessariamente. É geografia, é reputação, é onde os alunos querem estar. Um curso de Secretariado com nota de entrada de 95 valores não consegue competir com a visibilidade de um curso em Lisboa ou Porto.
Mas o Governo diz que 87% dos alunos entraram numa das três primeiras opções. Isso não é bom?
É bom para quem consegue entrar. Mas o contexto importa: houve menos candidatos este ano, e menos colocações. Os números percentuais parecem positivos porque estão a medir uma população menor. O que realmente preocupa é a tendência: menos gente a candidatar-se, menos vagas preenchidas, e uma concentração cada vez maior nas mesmas instituições.
A Educação Básica cresceu 21%. Isso é uma resposta à falta de professores?
Parece ser uma tentativa. O Governo está a tentar atrair mais gente para a formação de professores, e conseguiu aumentar as colocações significativamente. Mas 923 novos professores por ano não resolve uma crise que é muito mais profunda. É um passo, mas pequeno.
O que vem a seguir? Isto vai piorar?
A segunda fase do concurso tem 5.212 vagas sobrantes. Alguns dos cursos vazios podem receber alunos aí. Mas a tendência estrutural — concentração urbana, esvaziamento do interior, menos candidatos — essa não se inverte com uma fase de colocações. Precisa de políticas muito mais ambiciosas.