Médicos contestam restrições do Governo à comparticipação de medicamentos para diabetes

Número substancial de pessoas com diabetes ficará privada dos benefícios terapêuticos destes medicamentos devido às restrições de acesso.
Um número substancial de doentes ficará privado dos benefícios
As sociedades médicas alertam para o impacto da restrição de comparticipação nos doentes com diabetes tipo 2.

Em Portugal, uma decisão governamental que restringe o financiamento público de medicamentos inovadores para a diabetes levanta uma questão antiga: quando a contenção de custos e a evidência científica entram em rota de colisão, quem paga o preço são os doentes. Quatro das mais representativas sociedades médicas do país uniram-se para contestar a limitação imposta aos agonistas do recetor GLP-1, argumentando que o critério escolhido — um índice de massa corporal acima de 35 — ignora décadas de investigação clínica sobre os benefícios cardiovasculares e metabólicos destes fármacos. A medida, prevista desde 2014 mas só agora aplicada, chega num momento em que a visibilidade destes medicamentos cresceu, e com ela, a pressão sobre o sistema.

  • O Governo limitou a comparticipação dos agonistas GLP-1 a diabéticos tipo 2 com IMC superior a 35 kg/m², excluindo uma fatia significativa de doentes que beneficiariam clinicamente do tratamento.
  • Quatro sociedades médicas emitiram um comunicado conjunto de contestação, invocando evidência científica robusta que aponta para reduções de peso, melhoria glicémica e até 26% menos mortes cardiovasculares.
  • A popularidade do semaglutido como fármaco para perda de peso gerou ruturas de mercado e pressionou o Ministério da Saúde a apertar as regras de prescrição, desencadeando a restrição mais ampla.
  • Sem comparticipação, o custo elevado destes medicamentos tornará o acesso praticamente impossível para a maioria dos doentes excluídos pelos novos critérios.
  • O Jornal de Notícias aguarda resposta do Ministério da Saúde e do Infarmed, deixando por esclarecer se o Governo está disposto a reconsiderar a medida.

O Governo português implementou uma restrição ao financiamento público dos agonistas do recetor GLP-1 — uma classe de medicamentos para a diabetes que inclui o exenatido, o liraglutido, o dulaglutido e o semaglutido — limitando a comparticipação apenas a doentes com diabetes tipo 2 cujo índice de massa corporal ultrapasse 35 kg/m². A medida, prevista desde 2014, só agora foi aplicada pelas autoridades de saúde, num contexto em que o semaglutido ganhou enorme visibilidade pelo seu uso na perda de peso, chegando a causar ruturas no mercado.

A resposta da comunidade médica foi imediata e concertada. A Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, a Sociedade Portuguesa de Diabetologia, o Núcleo de Estudos da Diabetes Mellitus da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e o Grupo de Estudos em Diabetologia da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar juntaram-se num comunicado conjunto de contestação. O argumento central é claro: a restrição contradiz a evidência científica disponível, que demonstra benefícios comprovados no controlo glicémico, na redução de peso entre 2 e 6 quilogramas, e numa diminuição de até 26% na ocorrência de morte cardiovascular, enfarte ou acidente vascular cerebral. Alguns destes fármacos conseguem ainda abrandar o agravamento da doença renal associada à diabetes.

O impacto humano da medida é direto: um número substancial de pessoas com diabetes ficará privado destes benefícios terapêuticos simplesmente por não cumprir o critério do IMC. Sem comparticipação, o custo elevado destes medicamentos tornará o tratamento inacessível para a maioria. As sociedades científicas apelam ao Governo que reconsidere e alargue o acesso a todos os doentes que possam beneficiar clinicamente. O Jornal de Notícias aguarda resposta do Ministério da Saúde e do Infarmed.

O Governo português acaba de implementar uma restrição que está a provocar reações fortes entre os médicos que tratam diabetes. A decisão limita o financiamento público de uma classe de medicamentos — os agonistas do recetor do GLP-1 — apenas a doentes com diabetes tipo 2 cujo índice de massa corporal ultrapasse 35 kg/m². Quatro organizações médicas de peso juntaram-se para contestar a medida: a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, a Sociedade Portuguesa de Diabetologia, o Núcleo de Estudos da Diabetes Mellitus da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e o Grupo de Estudos em Diabetologia da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.

A restrição estava prevista desde 2014, mas só agora foi implementada pelas autoridades de saúde. Os medicamentos em causa — exenatido, liraglutido, dulaglutido e semaglutido — tornaram-se particularmente visíveis nos últimos meses porque o semaglutido começou a ser amplamente utilizado para perda de peso, causando até ruturas no mercado. O Ministério da Saúde respondeu apertando as regras para a sua prescrição, o que levou à decisão mais ampla de limitar a comparticipação.

Os médicos argumentam que esta restrição contradiz a evidência científica robusta que existe sobre estes fármacos. Segundo as sociedades que assinam o comunicado conjunto, os medicamentos demonstraram elevada eficácia no tratamento da diabetes, com benefícios comprovados sobre o peso corporal e redução de eventos cardiovasculares. Os ensaios clínicos mostram reduções de peso entre 2 e 6 quilogramas, números que foram confirmados e até ultrapassados em estudos de vida real. Além disso, estes medicamentos reduzem até 26% a ocorrência de morte por causa cardiovascular, enfarte não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal. Alguns conseguem ainda travar o agravamento da doença renal associada à diabetes.

O impacto prático da restrição será significativo. Um número substancial de doentes com diabetes ficará privado dos efeitos benéficos destes medicamentos — não apenas no controlo do açúcar no sangue, mas também no peso e no risco cardiovascular — simplesmente porque não se enquadram no critério de um índice de massa corporal superior a 35 kg/m². O custo elevado desta classe de fármacos sem comparticipação pública significa que a maioria dos doentes que não são abrangidos pela restrição não conseguirá continuar o tratamento. Para muitos, o acesso fica efetivamente cortado.

As sociedades científicas pedem ao Governo que reconsidere a implementação desta limitação. O seu apelo é claro: alargar o acesso a todos os doentes com diabetes tipo 2 que possam beneficiar destes medicamentos, reconhecendo a sua eficácia no tratamento, a melhoria do peso e a redução dos eventos cardiovasculares. O Jornal de Notícias contactou o Ministério da Saúde e o Infarmed para obter esclarecimentos sobre a posição das organizações médicas, aguardando resposta.

A restrição não é compatível com a robusta evidência científica atual, nem com as recomendações para o tratamento da diabetes das sociedades científicas nacionais e internacionais
— Sociedades médicas portuguesas
O elevado custo desta classe de medicamentos sem comparticipação levará a que a maioria dos doentes não o possa continuar
— Comunicado conjunto das sociedades médicas
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que é que os médicos estão tão preocupados com este critério específico de 35 kg/m²?

Model

Porque a evidência científica mostra que estes medicamentos funcionam bem em pessoas com diabetes tipo 2 independentemente do peso. Muitos doentes que poderiam beneficiar — que têm diabetes e problemas cardiovasculares — ficam de fora apenas por um número no papel.

Inventor

E quanto ao custo? Por que não podem os doentes simplesmente pagar do bolso?

Model

Estes medicamentos são muito caros. Sem comparticipação pública, a maioria das pessoas não consegue pagar. Estamos a falar de deixar pessoas sem acesso a um tratamento que reduz o risco de enfarte ou acidente vascular cerebral.

Inventor

Há alguma razão pela qual o Governo tenha escolhido este limite específico?

Model

A restrição vinha prevista desde 2014, mas o que a ativou agora foi o semaglutido ficar famoso para perda de peso. Houve ruturas no mercado, o Governo apertou as regras, e isto acabou por limitar o acesso a todos os doentes.

Inventor

Então isto é mais sobre controlar o uso para emagrecimento do que sobre diabetes?

Model

Aparentemente sim. Mas os médicos dizem que isto prejudica quem realmente precisa — pessoas com diabetes que poderiam evitar um enfarte ou um acidente vascular cerebral com este tratamento.

Inventor

Qual é o próximo passo?

Model

Os médicos apelaram ao Governo para reconsiderar. Agora espera-se pela resposta do Ministério da Saúde e do Infarmed. A decisão pode afetar milhares de pessoas.

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