Cirurgião curitibano entra para Guinness após telecirurgia robótica internacional

O legal é o caminho, não a chegada
Loureiro explica sua filosofia de vida e trabalho, rejeitando a ideia de que um recorde é o destino final.

Cirurgião de 55 anos realiza primeira telecirurgia robótica entre países, operando paciente no Kuwait a partir de Curitiba com sucesso auditado pelo Guinness. Fundador da Scolla Centro de Treinamento Cirúrgico, Loureiro trouxe tecnologia da China e vê telecirurgia como ferramenta de democratização do acesso médico, não apenas como recorde.

  • Cirurgião Marcelo Loureiro, 55 anos, realiza telecirurgia robótica entre Curitiba e Kuwait a 13 mil quilômetros de distância
  • Recorde auditado pelo Guinness World Records em 2025
  • Fundador da Scolla Centro de Treinamento Cirúrgico em Campo Largo, que recebe 700 a 800 médicos por ano
  • Telecirurgia pioneira entre Paraná e Paraíba realizada meses antes, a 3 mil quilômetros de distância

Médico curitibano Marcelo Loureiro entra para o Guinness World Records após realizar telecirurgia robótica entre Curitiba e Kuwait, a 13 mil quilômetros de distância, democratizando acesso à medicina especializada.

Marcelo Loureiro tem 55 anos e uma inquietação que não o deixa parar. Cirurgião do aparelho digestivo, fundador de um centro de treinamento cirúrgico em Campo Largo, ele acaba de entrar para o Guinness World Records — não por um feito isolado, mas por uma convicção que o move há décadas: a medicina precisa continuar evoluindo, e quem quer permanecer relevante não pode ficar para trás.

A trajetória que o levou a operar um paciente no Kuwait a 13 mil quilômetros de distância começou muito antes dos robôs cirúrgicos. Quando jovem, Loureiro queria estudar física ou matemática. Gostava de raciocínios lógicos, de entender como as coisas funcionam. Vendo o irmão mais velho na medicina, mudou de rumo. Formou-se e fez residência na Universidade Federal do Paraná, escolhendo o aparelho digestivo — uma especialidade que, segundo ele, oferecia complexidade suficiente para alimentar a curiosidade de alguém como ele.

No final dos anos 1990, quando saía da residência, a cirurgia passava por uma transformação: o abandono das grandes incisões abertas em favor de procedimentos minimamente invasivos. Enquanto muitos colegas observavam com cautela, Loureiro mergulhou. Foi para a França, país de origem de sua família e referência mundial na área, onde passou um ano aprendendo a técnica. Ao voltar, trouxe não apenas conhecimento, mas uma lição que o acompanharia: a medicina muda constantemente, e ficar relevante exige aprendizado permanente.

Essa convicção o levou a criar, em 2004, um modelo de treinamento para cirurgiões. Durante 18 anos, o projeto funcionou dentro de uma universidade em Curitiba. Mas a inquietação — que sua esposa brinca ser tão intensa que a deixa cansada apenas de olhar para ele — o impulsionou a criar sua própria estrutura. Em 2022, nasceu a Scolla Centro de Treinamento Cirúrgico. O gatilho foi simples e preocupante: o número de faculdades de medicina havia crescido aceleradamente, o de médicos também, mas a qualidade da formação prática não acompanhava o ritmo. "Se existe uma profissão em que precisamos entregar o melhor profissional possível para a sociedade, é a de cirurgião. Aqui não pode haver erro", afirmou. Hoje, a Scolla recebe entre 700 e 800 médicos de diversas especialidades e nacionalidades por ano, consolidando-se como um dos maiores centros de treinamento cirúrgico da América Latina.

Mas o recorde que o levou ao Guinness veio de um lugar diferente. Nos últimos anos, Loureiro passou a viajar frequentemente à China em busca de tecnologias emergentes para a medicina. Assim descobriu a telecirurgia robótica — um conceito que parecia ficção científica quando ele estudava na França: um médico operando um paciente a milhares de quilômetros de distância, usando um robô cirúrgico conectado por internet de alta velocidade. Em 2025, essa tecnologia colocou o Paraná no centro das atenções da medicina mundial. Uma cirurgia de hérnia inguinal realizada entre Curitiba e o Kuwait estabeleceu o recorde de maior distância entre médico e paciente em uma telecirurgia robótica, auditada pelo Guinness. Meses antes, Loureiro e sua equipe já haviam operado, de forma pioneira, entre Paraná e Paraíba, a 3 mil quilômetros de distância.

Mas ele evita tratar o assunto como troféu pessoal. "Nós não fizemos isso para bater recorde. Foi para que mais pessoas se interessassem pelo tema", disse. Para Loureiro, a questão não é a marca no livro dos recordes. É o que a tecnologia representa: redução de distâncias, acesso de especialistas a pacientes que antes não tinham oportunidade de tratamento, democratização da medicina. Sua inquietação, afinal, nunca foi sobre chegar a um destino. "O legal é o caminho, não a chegada", resume. E o caminho que ele abriu agora aponta para um horizonte onde a geografia deixa de ser barreira para quem precisa de cuidado cirúrgico especializado.

Se existe uma profissão em que precisamos entregar o melhor profissional possível para a sociedade, é a de cirurgião. Aqui não pode haver erro.
— Marcelo Loureiro, explicando a motivação para criar a Scolla
Nós não fizemos isso para bater recorde. Foi para que mais pessoas se interessassem pelo tema. A tecnologia reduz distâncias e leva especialistas a pacientes que antes não tinham acesso.
— Marcelo Loureiro, sobre o significado da telecirurgia robótica
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como um cirurgião que poderia ter escolhido física acaba revolucionando a medicina com robôs?

Model

Acho que a curiosidade é a mesma. Física, matemática, medicina — o que o atrai é entender como as coisas funcionam. Um robô cirúrgico é só uma extensão disso. É lógica, mecanismo, solução.

Inventor

Mas por que ele não ficou satisfeito com o sucesso que já tinha? Já era respeitado, tinha pacientes, ensinava.

Model

Porque inquietação não é satisfeita. Ele vê um problema — médicos mal formados, pacientes sem acesso — e não consegue deixar passar. A Scolla nasceu disso. O recorde também.

Inventor

Ele fala muito em "democratização". Isso é marketing ou é genuíno?

Model

Acho que é genuíno. Ele recusa tratar como troféu pessoal. Viaja para a China, traz tecnologia, testa entre estados, depois entre países. Não é alguém que quer ficar famoso. É alguém que quer que a coisa funcione.

Inventor

E se a telecirurgia não funcionar em larga escala? Se for muito cara, muito complexa?

Model

Ele já sabe disso. Por isso continua testando, ensinando, trazendo tecnologia. Não é uma pessoa que acredita que um recorde resolve algo. É uma pessoa que acredita que o caminho resolve.

Inventor

Sua esposa diz que fica cansada só de olhar para ele. Isso é engraçado ou é um aviso?

Model

Acho que é os dois. Mas também é a descrição perfeita de alguém que não consegue parar. E talvez seja exatamente isso que o mundo precisa — pessoas que não conseguem parar de tentar melhorar as coisas.

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