As escolhas feitas ao longo da vida influenciam a fertilidade
Fatores masculinos agora explicam cerca de 50% dos casos de infertilidade conjugal, revertendo percepção anterior de que era problema exclusivamente feminino. Estilo de vida inadequado, incluindo consumo de ultraprocessados, sedentarismo, estresse e privação de sono, prejudica qualidade e produção de espermatozoides.
- Fatores masculinos explicam cerca de 50% dos casos de infertilidade conjugal
- Varicocele está presente em 40% dos casos de infertilidade masculina
- Entre 15% e 20% dos homens em idade fértil têm varicocele
- Microplásticos já foram identificados em testículos humanos
Especialistas apontam que fatores masculinos estão presentes em metade dos casos de infertilidade conjugal, com queda expressiva na concentração de espermatozoides. Alimentação inadequada, obesidade, álcool, anabolizantes e microplásticos são investigados como possíveis causas.
A infertilidade deixou de ser um problema que se atribui apenas às mulheres. Nos consultórios de reprodução humana, a conversa mudou: especialistas agora estimam que fatores ligados aos homens explicam cerca de metade de todos os casos de dificuldade para engravidar em casais. Ao mesmo tempo, pesquisas documentam uma queda expressiva na concentração de espermatozoides ao longo das últimas décadas — um sinal de que algo está mudando na saúde reprodutiva masculina.
O que está acontecendo? A resposta não aponta para um único culpado, mas para um conjunto de escolhas e exposições que se acumulam ao longo da vida. Alimentação inadequada, obesidade, sedentarismo, estresse crônico, falta de sono, tabagismo, consumo excessivo de álcool e uso de anabolizantes estão entre os principais fatores que prejudicam a capacidade reprodutiva dos homens. Paralelamente, cientistas investigam ameaças mais recentes e menos compreendidas — como a presença de microplásticos no corpo humano e seu possível impacto sobre a fertilidade.
Os espermatozoides são células particularmente vulneráveis ao estresse oxidativo, um processo que danifica as estruturas celulares e reduz tanto a qualidade quanto a quantidade dessas células. Por isso, especialistas recomendam uma alimentação baseada em frutas, verduras, legumes, grãos integrais e gorduras saudáveis, com destaque para nutrientes como ômega-3, vitaminas C e E, zinco e selênio. O caminho oposto — consumir frequentemente alimentos ultraprocessados, carnes processadas e álcool em excesso — favorece inflamação no corpo e prejudica a produção, a mobilidade e até a integridade genética dos espermatozoides. Marília Bonow, especialista em reprodução humana, resume a questão de forma direta: as escolhas feitas ao longo da vida influenciam a fertilidade. Tabagismo, privação de sono, estresse crônico, obesidade e consumo excessivo de ultraprocessados reduzem as chances de gravidez, enquanto hábitos saudáveis — dormir bem, exercitar-se regularmente, manter peso adequado — ajudam a preservar a saúde reprodutiva.
Além dos fatores comportamentais, existem condições clínicas que comprometem a fertilidade masculina. A mais comum é a varicocele, uma dilatação das veias que envolvem o cordão espermático. Essa condição aumenta a temperatura dos testículos e interfere na produção de espermatozoides. Entre 15% e 20% dos homens em idade fértil têm varicocele, e ela está presente em aproximadamente 40% dos casos de infertilidade masculina. O problema é que muitas vezes não causa sintomas óbvios — o diagnóstico geralmente ocorre apenas quando um casal procura investigar dificuldades para engravidar.
Dois fatores emergentes preocupam a comunidade médica. O primeiro envolve os microplásticos, partículas minúsculas que já foram identificadas em testículos humanos. Ainda não há comprovação de que causem infertilidade em homens, mas estudos em animais já demonstraram redução na produção de espermatozoides. João Guilherme Grassi, especialista em reprodução humana, observa que as descobertas atuais são um passo importante, mas mais pesquisas são necessárias para estabelecer a relação com certeza.
O segundo fator é o uso de anabolizantes. Os derivados sintéticos da testosterona reduzem a produção natural dos hormônios responsáveis pela formação dos espermatozoides. Quando um homem usa anabolizantes, o corpo para de produzir os hormônios FSH e LH, cessando a produção natural tanto de espermatozoides quanto de testosterona. Em alguns casos, esse dano é permanente. Além disso, Grassi aponta que o problema vai além da infertilidade: pacientes que usam anabolizantes frequentemente desenvolvem disfunção erétil e perda de libido, porque o excesso de esteroides desregula todo o sistema hormonal masculino.
O consumo excessivo de álcool também compromete a saúde reprodutiva. Estudos mostram que homens que bebem com frequência apresentam pior qualidade de sêmen e alterações hormonais significativas. Quanto maior o consumo, pior o resultado. Não existe um nível absolutamente seguro de consumo de álcool quando o objetivo é preservar a fertilidade.
Para os especialistas, a estratégia mais eficaz continua sendo investir em hábitos saudáveis e procurar avaliação médica quando surge dificuldade para engravidar. Identificar precocemente a causa da infertilidade aumenta significativamente as chances de sucesso no tratamento.
Citas Notables
Tabagismo, privação de sono, estresse crônico, obesidade e consumo excessivo de ultraprocessados podem reduzir as chances de gravidez, enquanto hábitos saudáveis ajudam a reduzir a inflamação e melhorar níveis de hormônios— Marília Bonow, especialista em reprodução humana
Os anabolizantes comprometem significativamente a produção de espermatozoides e podem levar à infertilidade de forma permanente, além de causar disfunção erétil e perda de libido— João Guilherme Grassi, especialista em reprodução humana
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a infertilidade masculina não era reconhecida como um problema tão importante antes?
Porque durante muito tempo a medicina focou principalmente nas mulheres. Agora temos dados melhores e vemos que metade dos casos envolvem fatores masculinos. Mudou a forma como olhamos para o problema.
E essa queda na concentração de espermatozoides — é algo novo ou sempre foi assim?
É novo. As pesquisas mostram uma queda expressiva nas últimas décadas. Isso sugere que algo no nosso ambiente ou no nosso estilo de vida mudou de forma significativa.
Qual é o fator mais fácil de controlar?
Provavelmente a alimentação e o exercício. São coisas que cada homem pode mudar hoje. Dormir bem, comer melhor, se exercitar — isso reduz inflamação e melhora a qualidade dos espermatozoides.
E quanto aos microplásticos? Podemos fazer algo a respeito?
Ainda não sabemos exatamente como eles afetam a fertilidade em humanos. Mas a presença deles em testículos é preocupante. Precisamos de mais pesquisa antes de poder dar orientações específicas.
O que mais surpreende você nessa história?
Que tantos homens usam anabolizantes sem entender que podem estar causando infertilidade permanente. E que muitos nem sabem que têm varicocele até procurar ajuda para engravidar.
Então a detecção precoce faz diferença?
Faz toda a diferença. Quanto antes você identifica o problema, mais opções de tratamento você tem. Esperar anos pode significar dano permanente.