Os dados mostram precisamente o contrário do que se esperava
No congresso da Endocrine Society de 2026, dois estudos vieram perturbar uma certeza confortável: os medicamentos que ajudam milhões a perder peso podem, paradoxalmente, torná-los mais sedentários e mais frágeis. A promessa de uma balança mais leve revela-se incompleta quando o músculo desaparece junto com a gordura e os passos diários diminuem em vez de aumentar. A ciência é confrontada, assim, com uma verdade antiga — que a saúde não se mede apenas pelo que se perde, mas pelo que se preserva.
- Utilizadores de semaglutido e tirzepatida deram, em média, 560 passos a menos por dia e reduziram o exercício moderado ou vigoroso em 21%, contrariando a expectativa de que emagrecer motiva a mover-se mais.
- A perda de massa muscular emerge como efeito colateral silencioso destes tratamentos, ameaçando a força, a mobilidade e a saúde a longo prazo de quem os toma.
- Investigadores da Regeneron testam a combinação de semaglutido com o anticorpo monoclonal trevogrumab, conseguindo reduzir para metade a perda de massa magra sem comprometer significativamente a eliminação de gordura.
- Os medicamentos experimentais ainda não têm aprovação clínica para esta indicação, e a combinação de três fármacos levanta dúvidas sobre tolerabilidade que exigem estudos mais amplos.
- O campo da obesidade reorienta-se: o objetivo deixa de ser apenas o número na balança e passa a ser uma perda de peso que preserve movimento, força e qualidade de vida.
Os medicamentos GLP-1 que revolucionaram o tratamento da obesidade — entre eles o semaglutido e a tirzepatida — podem estar a produzir um efeito inesperado: em vez de encorajar o movimento, parecem inibi-lo. Dois estudos apresentados no congresso anual da Endocrine Society em 2026 lançam uma sombra sobre algumas das suposições mais enraizadas nesta área.
O primeiro acompanhou 753 adultos com obesidade que iniciaram estes tratamentos. Com recurso a dispositivos de monitorização, os investigadores verificaram que os passos diários médios caíram de 5.047 para 4.487, e o tempo de exercício moderado ou vigoroso diminuiu de 28 para 22 minutos — uma redução de 21%. Os homens e quem sofria de dores articulares foram os mais afetados. A médica responsável, Sajana Maharjan, admitiu que os dados contrariaram as suas próprias expectativas: emagrecer não leva, automaticamente, a exercitar mais.
O segundo estudo debruçou-se sobre outro problema: parte do peso perdido com estes fármacos é músculo, não apenas gordura. Investigadores da Regeneron testaram a combinação de semaglutido com o trevogrumab, um anticorpo monoclonal que bloqueia a miostatina — proteína que limita naturalmente o crescimento muscular. Ao longo de 26 semanas, esta combinação reduziu para metade a perda de massa magra, mantendo uma redução significativa da gordura corporal.
As ressalvas são consideráveis: os medicamentos experimentais ainda não têm aprovação clínica, e a combinação de três substâncias levanta questões de tolerabilidade que carecem de investigação mais aprofundada. Ainda assim, estes estudos sinalizam uma mudança de paradigma: tratar a obesidade com eficácia exigirá, no futuro, não apenas medicação, mas programas de exercício integrados e estratégias ativas de proteção muscular.
Os medicamentos que transformaram o tratamento da obesidade nos últimos anos podem estar a trazer um efeito colateral inesperado: as pessoas que os tomam estão a mover-se menos, não mais. Dois estudos apresentados no congresso anual da Endocrine Society em 2026 levantam questões incómodas sobre como estes fármacos funcionam na prática, sugerindo que a perda de peso nem sempre vem acompanhada dos benefícios de saúde que se esperaria.
O primeiro estudo acompanhou 753 adultos com obesidade que iniciaram tratamento com agonistas do recetor GLP-1 — a classe de medicamentos que inclui o semaglutido, comercializado como Ozempic e Wegovy, e a tirzepatida, conhecida como Mounjaro e Zepbound. Utilizando dispositivos de monitorização de atividade física, os investigadores registaram uma mudança clara após o início da medicação. O número médio de passos diários caiu de 5.047 para 4.487, uma redução de cerca de 10%. Mais significativo ainda foi o tempo dedicado a exercício moderado ou vigoroso, que diminuiu de 28 para 22 minutos por dia — uma queda de 21%. Os homens e as pessoas com dores articulares ou musculares foram os mais afetados por esta redução de atividade.
O resultado surpreendeu os próprios investigadores. Sajana Maharjan, médica do HSHS St. John's Hospital nos Estados Unidos e responsável pelo estudo, explicou que os dados contradizem uma suposição comum: a de que emagrecer naturalmente leva as pessoas a exercitarem-se mais. "Embora muitos assumam que o emagrecimento conduz naturalmente a níveis mais elevados de atividade física, os nossos dados mostram precisamente o contrário," afirmou. A descoberta reforça a necessidade de integrar programas específicos de exercício nos tratamentos para a obesidade, garantindo que os doentes não apenas perdem peso, mas mantêm a força e a função muscular.
O segundo desafio que emergiu destes estudos é igualmente preocupante: parte do peso que as pessoas perdem com estes medicamentos não é apenas gordura. Investigadores do laboratório Regeneron testaram uma abordagem experimental para resolver este problema, combinando o semaglutido com o trevogrumab, um anticorpo monoclonal concebido para bloquear a miostatina, uma proteína que naturalmente limita o crescimento muscular. Alguns participantes receberam também o garetosmab, outro medicamento que atua sobre a proteína activina A. Durante 26 semanas, os investigadores mediram a composição corporal dos participantes através de exames especializados capazes de distinguir gordura de músculo.
Os resultados preliminares foram reveladores. O semaglutido administrado isoladamente esteve associado a maiores perdas de massa muscular. Mas quando combinado com o trevogrumab, a perda de massa magra foi reduzida em cerca de metade, enquanto a redução da gordura corporal se manteve significativa. Alexander Benchimol, endocrinologista envolvido no estudo, destacou que esta combinação oferecia um equilíbrio mais favorável entre perda de gordura e preservação muscular.
No entanto, há ressalvas importantes. Tanto o trevogrumab como o garetosmab permanecem em fase de investigação e ainda não foram aprovados para utilização clínica nesta indicação. A combinação dos três medicamentos também levantou preocupações sobre tolerabilidade e efeitos adversos, questões que terão de ser avaliadas em estudos mais amplos antes de qualquer aplicação prática.
Estes estudos refletem uma mudança fundamental na forma como os especialistas pensam sobre o tratamento da obesidade. O objetivo já não é apenas reduzir o número na balança, mas garantir que essa redução ocorre sem comprometer a qualidade de vida dos doentes — preservando a sua capacidade de movimento, a sua força muscular e a sua saúde geral. À medida que as chamadas "canetas para emagrecer" ganham popularidade em todo o mundo, a próxima geração de terapias terá de integrar não apenas medicação, mas também programas de exercício específicos e estratégias de proteção muscular. Os especialistas defendem que apenas esta abordagem combinada poderá garantir resultados verdadeiramente sustentáveis a longo prazo.
Notable Quotes
Embora muitos assumam que o emagrecimento conduz naturalmente a níveis mais elevados de atividade física, os nossos dados mostram precisamente o contrário— Sajana Maharjan, médica do HSHS St. John's Hospital
A combinação de semaglutido e trevogrumab reduziu em cerca de metade a perda de massa muscular normalmente associada ao tratamento com semaglutido— Alexander Benchimol, endocrinologista
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que as pessoas que tomam estes medicamentos se movem menos, se estão a ficar mais leves?
É uma pergunta que os próprios investigadores não esperavam ter de fazer. A teoria era que perder peso removeria um obstáculo ao exercício. Mas o que os dados mostram é que algo nestes medicamentos — talvez a forma como afetam o apetite, a energia, ou até sinais neurológicos — está a desencorajar a atividade física.
E a perda de massa muscular? Isso é um problema real ou apenas um detalhe técnico?
É muito real. Quando perdes peso rapidamente, o teu corpo não distingue entre gordura e músculo. Se não estás a exercitar-te — e estes medicamentos parecem desencorajar isso — perdes ainda mais músculo. Um corpo mais fraco é um corpo mais frágil, independentemente de quanto pesa.
Então a solução é combinar estes medicamentos com outros que protegem o músculo?
É uma possibilidade promissora, mas ainda experimental. O trevogrumab mostrou resultados interessantes em laboratório, reduzindo a perda muscular em cerca de metade. Mas ninguém sabe ainda quais serão os efeitos de tomar três medicamentos em simultâneo durante meses ou anos.
Qual é o verdadeiro objetivo aqui — emagrecer ou ficar saudável?
Essa é a questão que estes estudos estão a forçar a medicina a responder. Durante anos, o peso foi o marcador principal. Agora percebemos que podes perder peso e ficar mais fraco, menos ativo, menos saudável. O objetivo tem de ser diferente: perder gordura enquanto preservas força, mobilidade e qualidade de vida.
E se as pessoas simplesmente exercitassem mais enquanto tomam estes medicamentos?
Ótima pergunta. Provavelmente ajudaria. Mas o estudo sugere que o medicamento em si está a desencorajar o exercício — talvez através de efeitos no apetite energético ou na motivação. Não é apenas uma questão de vontade. É por isso que os especialistas dizem que o exercício tem de ser integrado no tratamento, não apenas recomendado.