Ao mudar apenas um hormônio, você muda todo o seu relacionamento com a comida
Semaglutida e similares funcionam alterando hormônios cerebrais, reduzindo apetite e mudando fundamentalmente a relação das pessoas com alimentos. Obesidade é parcialmente biológica, não apenas falha moral; ambiente obesogênico moderno com alimentos baratos e porções grandes acelera ganho de peso.
- Semaglutida (Wegovy) reduz apetite alterando hormônios cerebrais e pode fazer alguém perder até 15% do peso inicial
- No Brasil, projeção de 2022 indica 88,1% da população obesa ou com sobrepeso em 2060, com custo de US$ 218,2 bilhões
- Medicamentos vão ficar mais baratos na próxima década conforme patentes expiram e novos fármacos como tirzepatida chegam ao mercado
Medicamentos como semaglutida estão transformando o tratamento da obesidade ao alterar hormônios e a relação com comida, levantando questões sobre responsabilidade individual versus mudanças sociais estruturais.
Estamos entrando numa era em que um hormônio manipulado pode reescrever a relação de uma pessoa com a comida. A semaglutida, vendida como Wegovy para perda de peso, funciona enganando o cérebro —imita um hormônio liberado quando comemos e convence o corpo de que já está satisfeito. O resultado é simples e radical: alguém que pesa 120 quilos pode chegar a 107. Mas essa mudança de números esconde algo muito maior. Segundo o professor Giles Yeo, da Universidade de Cambridge, ao alterar apenas um hormônio, você muda todo o seu relacionamento com a comida. E isso força a sociedade a repensar uma questão que parecia resolvida: a obesidade é falha moral ou doença biológica?
Por séculos, a resposta foi clara. A gula é um dos sete pecados capitais. O obeso era fraco, indisciplinado, culpado. Mas a ciência está derrubando essa crença. Yeo argumenta que muitas pessoas acima do peso têm uma deficiência hormonal que as deixa biologicamente mais famintas do que alguém naturalmente magro. Há cem anos, isso era vantagem evolutiva —quando a comida era escassa, comer mais quando havia disponibilidade garantia sobrevivência. Nossos genes não mudaram em um século. O mundo mudou. Alimentos baratos e calóricos proliferaram. As porções cresceram. As cidades foram desenhadas para carros, não para caminhadas. Cientistas chamam isso de ambiente obesogênico —um mundo que incentiva ganho de peso sem que ninguém precise fazer nada de errado.
Os números revelam a escala do problema. No Reino Unido, um em cada quatro adultos é obeso. No Brasil, um estudo de 2022 projeta que 88,1% da população estará obesa ou com sobrepeso em 2060, com impacto econômico de 218,2 bilhões de dólares. A crise começa cedo: uma em cada cinco crianças já está acima do peso quando entra na escola. E atinge os pobres muito mais duramente —36% dos adultos obesos na Inglaterra vivem em comunidades carentes, contra 20% nas ricas, em parte porque alimentos saudáveis são caros e alimentos baratos são calóricos.
Agora o governo britânico sugeriu usar esses medicamentos como ferramenta para tirar pessoas obesas dos benefícios sociais e devolvê-las ao trabalho. O anúncio acendeu um debate que vai muito além da medicina. Margaret McCartney, médica geral em Glasgow, avisa: se continuarmos colocando pessoas num ambiente obesogênico, só aumentaremos a necessidade desses medicamentos para sempre. O Wegovy pode fazer alguém perder 15% do peso inicial, melhorando risco de infarto, apneia do sono e diabetes tipo 2. Mas quando a pessoa para de tomar, o apetite volta e o peso sobe novamente. O sistema de saúde britânico planeja prescrever por apenas dois anos, por questão de custo. McCartney pergunta: estamos olhando para a solução errada?
A tensão é real. Você pode dirigir, mas precisa usar cinto de segurança. Pode fumar, mas com impostos altos e restrições. Com a obesidade, há mais camadas. Deveríamos enfrentar o ambiente obesogênico —regulando a indústria alimentícia, proibindo certos anúncios, taxando junk food? Deveríamos aprender com o Japão, país rico com baixa obesidade, e promover refeições menores baseadas em arroz, vegetais e peixe? Ou deveríamos apenas tratar pessoas quando a obesidade prejudica a saúde? Yeo diz que mudança real exige aceitar restrições, perder algumas liberdades. Mas a sociedade ainda não debateu isso o suficiente para decidir. Na Inglaterra, houve 14 planos governamentais contra obesidade em três décadas. Nenhum funcionou. Campanhas de cinco porções de frutas por dia, rotulagem de calorias, restrições a anúncios para crianças —tudo tímido demais.
Há quem acredite que os medicamentos para perda de peso possam ser o catalisador que desperta mudança. Naveed Sattar, da Universidade de Glasgow, especula: se medicamentos ajudarem muitas pessoas a resistir a fast food, será que isso pode começar a mudar o ambiente alimentar? Mas por enquanto, estamos apenas no começo. Esses medicamentos são caros e raros. Espera-se que isso mude drasticamente na próxima década. Novos fármacos como tirzepatida estão chegando. As patentes vão expirar. Outras empresas fabricarão versões mais baratas. Quando medicamentos para pressão arterial e estatinas começaram, também eram caros e raros. Hoje, oito milhões de britânicos os tomam.
Stephen O'Rahilly, diretor da Unidade de Doenças Metabólicas do Conselho de Pesquisas Médicas, diz que a pressão arterial foi controlada com combinação de medicamentos e mudanças sociais —exames, aconselhamento sobre sódio, fármacos baratos e eficazes. Isso é o que precisa acontecer com obesidade. Mas as perguntas se multiplicam. Quantos de nós tomarão esses medicamentos? Apenas os muito obesos em risco? Ou se tornará preventivo? Por quanto tempo? Para o resto da vida? Faz diferença se as pessoas continuarem comendo junk food em porções menores? É ético que pessoas saudáveis tomem por motivos estéticos? A ausência desses medicamentos na rede pública pode aumentar disparidade de saúde entre ricos e pobres? Naveed Sattar resume: não sei onde isso vai parar. Estamos em uma viagem incerta.
Citações Notáveis
Se continuarmos colocando as pessoas em um ambiente obesogênico, só aumentaremos a necessidade desses medicamentos para sempre— Margaret McCartney, médica geral em Glasgow
Teremos que aceitar restrições em algum ponto, teremos que perder algumas liberdades— Giles Yeo, professor da Universidade de Cambridge
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que um medicamento que reduz apetite levanta tantas questões políticas e morais?
Porque a obesidade carrega séculos de culpa. Sempre foi vista como falha pessoal. Agora descobrimos que é parcialmente biológica —um hormônio que pode ser manipulado. Isso muda tudo. Se é biológico, talvez o problema não seja a pessoa, mas o mundo em que ela vive.
Qual é o mundo em que ela vive?
Um ambiente obesogênico. Alimentos baratos e calóricos em toda parte. Porções gigantes. Cidades feitas para carros, não para caminhadas. Nossos genes não mudaram em cem anos, mas tudo ao redor mudou.
Então o medicamento é a solução?
É uma solução incompleta. Faz alguém perder 15% do peso. Melhora saúde. Mas quando para de tomar, o peso volta. Se não mudarmos o ambiente, só precisaremos de mais medicamentos para sempre.
E se mudássemos o ambiente? Como?
Regulando alimentos, taxando junk food, restringindo anúncios, aprendendo com países como Japão. Mas isso exige aceitar restrições nas liberdades pessoais. A sociedade ainda não debateu isso o suficiente para decidir.
O que preocupa você mais?
A disparidade. Esses medicamentos são caros. Se ficarem caros, apenas ricos terão acesso. E a obesidade já atinge pobres muito mais duramente. Poderíamos estar criando duas sociedades de saúde.
Então o futuro é incerto?
Completamente. Estamos em uma viagem sem mapa. Medicamentos vão ficar mais baratos e acessíveis. Mas não sabemos como usá-los, por quanto tempo, em quem, ou se vão realmente resolver algo.