Médica alerta: genética responsável por apenas 1% da obesidade, hábitos alimentares são decisivos

A genética abre a porta, mas você escolhe se entra
Reflexão sobre como a hereditariedade predispõe mas não determina a obesidade.

Numa época em que a obesidade afeta milhões e as explicações fáceis abundam, a endocrinologista Selma Souto lembra-nos que a biologia não é destino: a genética responde por apenas 1% dos casos, enquanto as escolhas quotidianas — o que comemos, como nos movemos, como dormimos — moldam o restante. É um convite à responsabilidade, mas também à esperança, pois o que está em grande parte nas nossas mãos pode ser mudado.

  • A crença generalizada de que 'é da genética' serve de escudo cómodo, mas a ciência desfaz esse mito: 99% da obesidade tem raízes em comportamentos e ambiente, não em hereditariedade.
  • Gorduras em excesso, açúcar, sal, ultraprocessados, sedentarismo e stress formam uma tempestade silenciosa que abre caminho a diabetes, doenças cardíacas e até cancro.
  • A microbiota intestinal emerge como personagem central: o desequilíbrio entre Firmicutes e Bacteroidetes determina como o corpo armazena energia, e restaurá-lo é uma das alavancas mais poderosas de mudança.
  • O tratamento começa sempre pelo plano alimentar e exercício físico, mas a medicina dispõe hoje de probióticos, fármacos com evidência robusta e cirurgia bariátrica para os casos mais resistentes.
  • Cinco gestos concretos — evitar ultraprocessados, comer mais fibra, preparar lanches saudáveis, fracionar as refeições e trocar refrigerantes por água — são o mapa prático para quem quer começar.

Selma Souto, endocrinologista no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, é direta: a hereditariedade explica apenas 1% dos casos de obesidade. O resto resulta das escolhas que fazemos dia após dia — o excesso de gorduras, açúcar e sal, os produtos ultraprocessados consumidos sem pensar, o álcool frequente, as horas sentado sem mover o corpo. Uma alimentação monótona e pobre em vegetais agrava o quadro, e as consequências vão muito além da balança: diabetes, doenças cardiovasculares, problemas respiratórios, complicações musculoesqueléticas e certos cancros estão todos na lista.

A médica sublinha, porém, que há margem enorme para intervir. Sedentarismo, stress, qualidade do sono e até disruptores endócrinos são fatores modificáveis. E há um aliado invisível mas decisivo: a microbiota intestinal. A proporção entre Firmicutes e Bacteroidetes influencia diretamente como o corpo processa calorias e regula o apetite. Estudos mostram que pessoas com obesidade têm mais Firmicutes; quando perdem peso, o equilíbrio inverte-se. Manter a flora intestinal diversa é, por isso, uma das estratégias mais eficazes de prevenção.

Quando alguém procura ajuda, o ponto de partida é sempre uma história clínica detalhada: como evoluiu o peso, que tentativas já foram feitas, qual é a alimentação real, o que motiva a mudança. Em cerca de 4% dos casos existe uma doença endócrina subjacente; em apenas 1%, uma causa genética pura. A primeira linha de tratamento é o plano alimentar combinado com atividade física. Quando não é suficiente, entram em cena probióticos, medicamentos com evidência científica e, nos casos mais graves, cirurgia bariátrica.

Souto deixa cinco recomendações práticas: afastar os ultraprocessados ricos em aditivos, privilegiar alimentos com fibra como vegetais e leguminosas, preparar lanches saudáveis para evitar tentações, fazer cinco ou seis refeições pequenas em vez de saltar refeições, e substituir refrigerantes e álcool por água. Mudanças aparentemente simples que, em conjunto, podem restaurar o equilíbrio que o corpo precisa.

Selma Souto, endocrinologista no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, tem uma mensagem clara para quem culpa a genética pelo excesso de peso: a hereditariedade explica apenas 1% dos casos de obesidade. O resto depende de nós.

O que realmente importa são as escolhas que fazemos todos os dias. O consumo excessivo de gorduras, a adição generosa de açúcar, o sal em demasia nos temperos, os produtos ultraprocessados que comemos sem pensar — estes são os verdadeiros culpados, alerta a médica. Juntam-se a isto os hábitos que parecem inofensivos: beber álcool com frequência, consumir bebidas açucaradas, passar horas sentado sem fazer exercício. Uma alimentação monótona, pobre em frutas e vegetais, agrava ainda mais o problema. E as consequências vão muito além do número na balança. A obesidade abre a porta a diabetes, doenças do coração, problemas respiratórios, complicações musculoesqueléticas e até certos tipos de cancro.

Mas há esperança. Souto sublinha que existem muitos fatores que podemos controlar. Além das escolhas alimentares, contam o sedentarismo, o stress, a qualidade do sono, até mesmo alguns medicamentos e a forma como o corpo responde a disruptores endócrinos. O que significa que, apesar de a genética ter algum peso, há margem enorme para intervir. Uma alimentação mais variada e equilibrada, mais movimento, menos stress, melhor descanso — estas mudanças fazem diferença real.

O segredo está, em parte, numa coisa invisível: a microbiota intestinal. A flora do nosso intestino não é apenas um detalhe biológico — é fundamental para o equilíbrio metabólico. Certas bactérias ajudam a regular o apetite, a sensação de saciedade, a forma como armazenamos energia. A proporção entre dois tipos principais de bactérias, Firmicutes e Bacteroidetes, influencia como o corpo processa as calorias que ingerimos. Estudos mostram que pessoas com obesidade têm mais Firmicutes e menos Bacteroidetes. Quando perdem peso, essa proporção inverte-se. Manter a microbiota diversa e equilibrada é, portanto, uma das formas mais eficazes de prevenir não apenas o excesso de peso, mas outras doenças também.

Quando alguém procura ajuda, o tratamento começa com o básico: uma história clínica detalhada e um exame físico cuidadoso. O médico precisa entender como o peso evoluiu desde o nascimento, quais foram as tentativas anteriores de perder peso, como é a ingestão alimentar real, qual é o nível de atividade física, o que motiva a pessoa a mudar. Isto é importante porque, em cerca de 4% dos casos, a obesidade tem origem numa doença endócrina clássica que precisa ser identificada e tratada. E em apenas 1%, uma causa genética pura. Exames analíticos ajudam a descartar estas possibilidades e a avaliar outras comorbilidades.

A primeira linha de tratamento é sempre o plano alimentar e a atividade física. Mas quando isto não é suficiente, existem agora várias opções: probióticos, medicamentos orais ou injetáveis com evidência científica significativa, e nos casos mais graves, cirurgia bariátrica. Souto oferece cinco recomendações práticas: evitar alimentos processados cheios de aditivos que prejudicam a microbiota; comer mais alimentos ricos em fibra como vegetais, frutas e leguminosas; preparar lanches saudáveis para não cair em tentação; fazer cinco ou seis refeições pequenas em vez de pular refeições; e beber água em vez de refrigerantes e bebidas alcoólicas. Cada uma destas mudanças, aparentemente simples, trabalha em conjunto para restaurar o equilíbrio que o corpo precisa.

A alimentação pouco variada, com baixo consumo de frutas e vegetais, é frequente em pessoas com obesidade e pode contribuir para carência de vitaminas e minerais essenciais
— Selma Souto, endocrinologista
A primeira linha do tratamento é o plano alimentar e a atividade física, sendo que atualmente temos várias opções de tratamento médico com evidência significativa na perda de peso
— Selma Souto, endocrinologista
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Quando a médica diz que a genética explica apenas 1%, o que quer dizer exatamente? Significa que ninguém com predisposição genética fica obeso?

Model

Não é bem assim. Significa que ter genes que predispõem à obesidade não é determinante. A genética pode criar uma tendência, mas são as escolhas diárias que decidem se essa tendência se manifesta ou não. É como ter uma porta aberta — a genética abre a porta, mas você é quem escolhe se entra ou não.

Inventor

E a microbiota intestinal? Como é que bactérias no intestino conseguem influenciar tanto?

Model

As bactérias não são passageiras. Elas processam o que comemos, produzem moléculas que afetam o apetite, a saciedade, a forma como armazenamos energia. Se a comunidade de bactérias está desequilibrada, o metabolismo funciona de forma diferente. É por isso que a alimentação que escolhemos muda literalmente a população de microrganismos que vivem em nós.

Inventor

Então alguém que comeu mal durante anos consegue reverter isto?

Model

Sim. Quando as pessoas começam a comer melhor, a microbiota muda. Os estudos mostram que a proporção de bactérias inverte-se quando há perda de peso. Não é instantâneo, mas é reversível. O corpo tem capacidade de se reequilibrar se lhe dermos a oportunidade.

Inventor

E se alguém já tentou tudo isto e não consegue perder peso?

Model

Aí é importante investigar. Em 4% dos casos há uma doença endócrina por trás. Em 1%, uma causa genética específica. Por isso o médico faz exames. E se nada disto explica, existem medicamentos e, em casos graves, cirurgia. Mas a maioria das pessoas consegue com mudanças nos hábitos.

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