Mastercard, B3 e Anbima defendem segregação patrimonial para corretoras de cripto

Bilhões desviados para investimentos pessoais do CEO
O caso FTX mostrou por que a segregação patrimonial se tornou central na discussão sobre regulação de criptoativos.

Após o colapso da FTX revelar ao mundo a fragilidade de exchanges sem controles patrimoniais, o Banco Central do Brasil encerrou uma consulta pública com 240 sugestões sobre como regular criptoativos. A segregação patrimonial — a separação contábil entre o dinheiro dos clientes e o caixa da instituição — emergiu como a medida mais defendida por grandes nomes do mercado financeiro brasileiro. O país enfrenta agora uma tensão antiga: como construir proteções sólidas sem sufocar o território fértil da inovação.

  • O fantasma da FTX pressiona reguladores: bilhões desviados por Sam Bankman-Fried tornaram a segregação patrimonial uma exigência urgente para quem quer evitar repetir o desastre.
  • B3, Anbima, Cielo e Mastercard pressionam o BC a equiparar corretoras cripto a instituições financeiras tradicionais, inclusive na responsabilidade sobre custódia de chaves privadas.
  • A Binance resiste, preferindo 'provas de reservas' a separação formal de contas, enquanto o BTG alerta que regulação excessiva pode engessar o mercado e frear novos produtos.
  • Exchanges como MB, Coinext e Coinbase apoiam a segregação, ampliando o coro favorável à proteção mais rígida do investidor.
  • O Banco Central agora precisa transformar 240 sugestões conflitantes em uma regulação que seja ao mesmo tempo robusta internacionalmente e viável para um mercado em expansão.

A consulta pública do Banco Central sobre criptoativos encerrou com 240 sugestões e uma proposta dominante: a segregação patrimonial. A ideia é simples e poderosa — manter o dinheiro dos clientes separado do caixa da própria instituição. O colapso da FTX em 2022, quando Sam Bankman-Fried desviou bilhões de clientes para investimentos próprios, tornou essa separação não apenas desejável, mas urgente.

Grandes nomes do mercado financeiro brasileiro se uniram em torno dessa bandeira. A B3 e a Cielo apresentaram a demanda formalmente. A Anbima foi além, sugerindo que corretoras de criptomoedas sejam tratadas como bancos tradicionais na custódia de ativos. A Mastercard pediu que a responsabilidade se estenda até os custodiantes de chaves privadas — as senhas criptográficas que controlam o acesso às moedas digitais.

Nem todos seguiram o mesmo caminho. O BTG Pactual reconheceu o valor da proteção, mas alertou para o risco de engessar o mercado. A Binance foi mais direta na resistência: a exchange, que já enfrentou multas bilionárias nos EUA, defende uma 'abordagem holística' baseada em provas de reservas, sem separação formal de contas.

O Banco Central carrega agora um dilema clássico da regulação financeira. Como resumiu a advogada Nicole Dyskant, o desafio é produzir normas robustas, alinhadas às boas práticas internacionais, sem sufocar um mercado que o Brasil quer liderar. A resposta definirá se o país aprende com a queda da FTX ou apenas a observa de longe.

A consulta pública do Banco Central sobre regulação de criptoativos encerrou na quarta-feira com 240 sugestões em mãos. Entre elas, uma ideia ganhou força: a segregação patrimonial, aquela prática contábil que mantém o dinheiro dos clientes separado do caixa da instituição financeira. Não é coincidência. O fantasma da FTX ainda paira sobre o setor.

Quando a exchange de criptomoedas desabou no final de 2022, o que emergiu foi um roubo em escala industrial. Sam Bankman-Fried, o fundador e CEO, havia desviado bilhões de dólares dos clientes para seus próprios investimentos. A segregação patrimonial teria impedido exatamente isso — os recursos dos investidores estariam fisicamente separados, intocáveis para a instituição. É por isso que grandes nomes do mercado financeiro brasileiro estão pedindo ao BC que transforme essa prática em lei obrigatória.

A B3, a bolsa de valores do país, apresentou essa demanda. A Cielo, processadora de pagamentos, também. A Anbima, associação que representa as instituições financeiras, foi além: sugeriu que as corretoras de criptomoedas fossem tratadas exatamente como os bancos tradicionais quando o assunto é guardar ativos e receber depósitos. A Mastercard entrou no coro, argumentando que a lei deveria responsabilizar até mesmo as empresas que guardam as chaves privadas — aquelas senhas criptográficas que controlam o acesso às moedas digitais. Essa responsabilidade, segundo a Mastercard, deveria ser tão rigorosa quanto a de um custodiante de ativos ordinários.

Mas nem todos concordam. O BTG Pactual reconheceu que a segregação protege o investidor, mas alertou: uma regulação muito rígida pode engesssar o mercado, impedindo que novas soluções e produtos nasçam. A Binance foi mais longe. A exchange, que já pagou multa bilionária nos EUA e enfrenta processos por ter permitido que o Hamas negociasse em sua plataforma, disse ao BC que a segregação patrimonial pode não funcionar na prática. A empresa prefere o que chama de "abordagem holística", incluindo provas de reservas — basicamente, mostrar que tem o dinheiro dos clientes guardado em algum lugar, sem necessariamente separar as contas.

Outras exchanges como MB, Coinext e Coinbase apoiam a segregação. O Banco Central agora tem nas mãos não apenas as 240 sugestões, mas um dilema clássico: como proteger o investidor sem matar a inovação? Nicole Dyskant, advogada especialista em criptoativos, resumiu o desafio: o BC precisa produzir uma regulação que seja robusta, que siga as boas práticas internacionais, mas que não sufoque o mercado. O Brasil quer ser vanguarda em ativos digitais. A questão é se consegue ser vanguarda sem repetir os erros que levaram à queda da FTX.

Uma regulação muito rígida pode impedir que o mercado se desenvolva e crie novos produtos e serviços
— BTG Pactual
O BC estará em melhores condições para produzir uma regulação que atenda ao desafio da robustez das boas práticas internacionais, sem inibir a inovação
— Nicole Dyskant, advogada especialista em criptoativos
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que a segregação patrimonial virou o ponto central dessa discussão?

Model

Porque FTX mostrou o que acontece quando não existe. Bilhões de dólares de clientes foram usados como caixa pessoal do CEO. Se houvesse uma separação legal e contábil, aquilo seria impossível.

Inventor

Mas a Binance diz que não funciona na prática. O que ela quer dizer?

Model

Que separar contas no papel não impede fraude sofisticada. A Binance prefere provas de reservas — basicamente, auditorias que mostrem que o dinheiro existe. É uma visão mais tecnológica do que legal.

Inventor

E o BTG Pactual? Por que um banco grande teria medo de regulação?

Model

Porque regulação rígida demais congela o mercado. Se você obriga segregação total, fica difícil criar produtos novos, fazer empréstimos com cripto, inovar. O BTG quer proteção, mas com espaço para respirar.

Inventor

Então o Banco Central está em um impasse?

Model

Não é impasse. É tensão legítima. Proteger investidor é essencial. Mas matar inovação também prejudica investidor. O BC tem que encontrar o meio termo.

Inventor

E se não encontrar?

Model

O Brasil perde posição. Outros países regulam melhor, exchanges migram, o mercado cripto cresce em outro lugar. Ou pior: cresce aqui, mas sem proteção, e quando o próximo FTX cair, o estrago é maior.

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