A atmosfera funciona como uma panela de pressão
Pelo terceiro inverno consecutivo, o Brasil é varrido por uma massa de ar subantártico de intensidade histórica, com temperaturas próximas a zero alcançando latitudes onde isso raramente ocorre. Mais do que um fenômeno meteorológico isolado, essa sequência de ondas severas é o rosto visível de um clima em desequilíbrio — onde extremos de frio e de calor, de chuva e de seca, tornam-se cada vez mais frequentes e mais intensos. O frio passará, mas a seca que assombra o Centro-Sul há oito anos permanece como o sinal mais duradouro de que algo fundamental mudou.
- Uma terceira massa de ar subantártico avança sobre o Brasil com força suficiente para levar temperaturas de 2°C de Ushuaia até São Paulo entre quinta e sexta-feira.
- A sequência de três ondas poderosas num único inverno é incomum e preocupa meteorologistas, que a associam ao aumento global na frequência de eventos climáticos extremos.
- Pessoas em situação de rua enfrentam risco imediato de vida, enquanto o setor agropecuário contabiliza prejuízos econômicos crescentes a cada nova onda.
- Alertas exagerados nas redes sociais sobre sensações térmicas de -25°C foram desmentidos por cientistas do Cemaden e do Inmet, mas os perigos reais permanecem.
- O frio pontual encobre uma ameaça mais grave e duradoura: oito anos de seca severa no Centro-Sul comprometem a geração de energia, a agricultura e o abastecimento de água sem previsão de alívio.
O inverno de 2021 no Brasil não segue o roteiro habitual. Três ondas de frio de intensidade excepcional chegaram em sequência, e a terceira — a mais intensa até agora — promete levar temperaturas próximas a zero a regiões onde isso é raro ou inédito. Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, do Cemaden, entre quinta e sexta-feira uma faixa que vai de Ushuaia a São Paulo pode registrar mínimas em torno de 2°C. A velocidade com que essa massa de ar avança pelo interior do continente impede que ela se aqueça no caminho, tornando o fenômeno ainda mais notável.
A origem está nos mares subantárticos, e a hipótese mais aceita aponta para a inércia da La Niña — fenômeno que tecnicamente encerrou, mas deixou o Pacífico mais frio do que o normal, alterando o regime de ventos. A primeira onda, no fim de junho, chegou a cruzar a linha do Equador e trouxe consigo o inédito ciclone subtropical Raoni. A segunda impactou o Vale do Paraíba. Agora a terceira ameaça fazer o termômetro cair onde ele raramente cai.
Cientistas alertam que essa concentração de extremos é coerente com as mudanças climáticas em curso — tema que dominará a COP-26 em Glasgow e o novo relatório do IPCC, previsto para agosto. Claudine Dereczynski, da UFRJ, confirma que a queda de temperatura neste inverno é muito mais acentuada do que nas últimas décadas. A percepção do frio é amplificada justamente porque, desde os anos 1980, dias frios tornaram-se mais raros no Brasil — quando três ondas chegam seguidas, o contraste é brutal.
Mas o frio é passageiro. A ameaça mais silenciosa e persistente é a seca que castiga o Centro-Sul há oito anos, comprometendo reservatórios, lavouras e o abastecimento de água. Nenhum fenômeno isolado — La Niña, El Niño, ou outro — explica sozinho uma estiagem tão prolongada. A devastação do Cerrado, caixa d'água natural do país, e as projeções dos modelos climáticos apontam para causas mais profundas. Como resume Seluchi, a atmosfera funciona como uma panela de pressão: quanto maior o desequilíbrio, mais violentos e imprevisíveis os extremos — em qualquer direção.
O inverno de 2021 no Brasil não está se comportando como deveria. Massas de ar gelado são esperadas na estação mais fria do ano, mas o que está acontecendo agora é diferente — uma sequência de três ondas de frio particularmente severas, sendo a terceira delas o ponto de maior intensidade até o momento, com possibilidade de outras ainda por vir antes do fim da estação.
A onda que se intensifica a partir de quarta-feira marca o clímax de um inverno extremo que reflete um padrão mais amplo: o aumento na frequência e na intensidade de eventos climáticos severos é a marca mais evidente das mudanças climáticas em curso no planeta. Cientistas alertam que esses extremos devem dominar as discussões na próxima cúpula climática, a COP-26, em Glasgow, na Escócia, em novembro, e também serão destaque no novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, previsto para agosto.
O que torna esta terceira onda particularmente notável é a possibilidade de temperaturas chegarem a marcas próximas a zero em lugares onde isso nunca foi registrado ou é extremamente raro. Segundo Marcelo Seluchi, meteorologista e coordenador-geral de Operações e Modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, entre quinta e sexta-feira a temperatura mínima pode ficar próxima de zero graus Celsius numa área que se estende desde Ushuaia, a cidade mais austral da América, até São Paulo. Em ambos os lugares, as temperaturas podem atingir cerca de 2°C — algo normal no extremo sul do continente, mas incomum em parte do Sul e do Sudeste brasileiros. Essa massa de ar se desloca com velocidade extraordinária, permitindo que cidades tão distantes experimentem a mesma temperatura num mesmo momento.
A origem dessa onda fria está nos mares subantárticos, não em regiões polares como tem sido frequentemente mencionado. O que a distingue é sua capacidade de avançar rapidamente pelo interior do continente, evitando que se aqueça durante o trajeto. A provável causa, segundo cientistas, está relacionada à inércia da La Niña — um fenômeno que tecnicamente já terminou, mas deixou o Oceano Pacífico mais frio do que o normal, influenciando o regime de ventos que transporta essas massas frias do Sul para o Norte. Por enquanto, porém, isso permanece como hipótese.
As três ondas de frio que marcaram este inverno revelam um padrão preocupante. A primeira, no fim de junho, percorreu toda a América do Sul com potência para cobrir a Amazônia, atravessar a linha do Equador e alcançar o verão do Hemisfério Norte, atingindo dimensões colossais e trazendo consigo um inédito e improvável ciclone subtropical em pleno inverno, o Raoni. A segunda, no começo de julho, fez seu impacto no Vale do Paraíba. Agora a terceira promete fazer o termômetro ficar perto de zero onde isso não costuma ocorrer. Embora seja improvável que neve no ponto mais frio do Brasil, o Parque Nacional do Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, devido à falta de umidade, o frio será abundante.
Cientistas do Cemaden e do Instituto Nacional de Meteorologia já esclareceram que os alertas circulando nas redes sociais sobre sensações térmicas de -25°C carecem de fundamento. Ainda assim, há perigos reais: pessoas em situação de rua enfrentam risco durante essas ondas, e o setor agropecuário sofre impactos econômicos significativos. Claudine Dereczynski, do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, confirma que em 2021 a queda de temperatura neste inverno está muito acentuada em relação às últimas décadas. A percepção do frio se intensifica porque desde a década de 1980 ocorre em todo o Brasil um aumento na frequência de extremos quentes e uma redução na frequência de dias frios — assim, quando três massas particularmente frias chegam em sequência, a mudança é especialmente notável.
Mas o frio, por mais severo que seja, é pontual e breve. Um extremo muito mais perigoso está em curso sem prazo para terminar: a seca severíssima que ameaça a geração de energia, a agricultura e o abastecimento de água. O Centro-Sul do país está há oito anos com chuvas abaixo da média. Embora tenha havido períodos de La Niña, El Niño e outros fenômenos, nenhum deles possui força suficiente para explicar uma seca tão grave. Há ainda importantes mudanças no uso do solo, como a devastação do Cerrado, uma caixa d'água natural que foi substituída por plantações. Além disso, secas como essa foram previstas nos modelos das consequências das mudanças climáticas. Como explica Marcelo Seluchi, a atmosfera funciona como uma panela de pressão — quanto mais calor, maior o desequilíbrio, e esse desequilíbrio pode se manifestar tanto com extremos de frio quanto de calor, de chuva e de seca.
Citas Notables
Tanto em Ushuaia quanto em São Paulo as temperaturas podem ficar na casa dos 2°C. Essas temperaturas são normais no Sul do continente, mas não em parte do Sul e do Sudeste brasileiros.— Marcelo Seluchi, meteorologista e coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden
A atmosfera funciona como uma panela de pressão. Quanto mais calor, maior o desequilíbrio. Esse desequilíbrio pode se manifestar tanto com extremos de frio quanto de calor, de chuva e de seca.— Marcelo Seluchi
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que este inverno é tão diferente dos anteriores?
Porque temos três ondas de frio poderosas chegando em sequência, e cada uma é mais intensa que o normal. Desde os anos 1980, o Brasil tem experimentado menos dias frios e mais extremos de calor, então quando isso acontece, é uma mudança brusca que as pessoas sentem intensamente.
A terceira onda é realmente a pior?
Até agora sim. A primeira cobriu quase toda a América do Sul e trouxe um ciclone subtropical inédito. A segunda afetou o Vale do Paraíba. Agora a terceira pode levar temperaturas próximas a zero para lugares onde isso nunca aconteceu — São Paulo pode ter a mesma temperatura que Ushuaia.
Isso tem a ver com mudanças climáticas?
Sim, mas não da forma que as pessoas imaginam. Não é que o planeta está ficando mais frio. É que o aumento de calor na atmosfera cria desequilíbrios que se manifestam como extremos — frio extremo, calor extremo, seca extrema, chuva extrema. A frequência desses eventos está aumentando.
E a seca que mencionam é mais preocupante que o frio?
Muito mais. O frio passa em dias. A seca no Centro-Sul já dura oito anos, ameaça a energia, a agricultura, a água que as pessoas bebem. Ninguém sabe quando vai terminar.
Como a La Niña entra nisso?
Tecnicamente a La Niña já terminou, mas deixou o Oceano Pacífico mais frio do que o normal. Isso influencia os ventos que trazem essas massas frias do sul para o norte. É uma hipótese ainda, mas faz sentido com o que estamos vendo.