Marrocos aposta em dessalinização para garantir água potável até 2030

A seca de sete anos reduziu pela metade a produção de cereais marroquina e aumentou o desemprego nas áreas rurais, afetando especialmente pequenos agricultores que não conseguem arcar com água dessalinizada.
A dessalinização salvou a agricultura em Chtouka
Agricultor marroquino que expandiu sua produção de tomates graças ao acesso a água dessalinizada em região árida.

Marrocos pretende gerar 60% da água potável através de dessalinização acoplada a energias renováveis, reduzindo custos operacionais e pegada de carbono. A dessalinização já transforma a agricultura de exportação em regiões áridas, mas permanece cara para pequenos agricultores e culturas de subsistência.

  • Marrocos pretende obter 60% da água potável de dessalinização até 2030
  • Sete anos de seca reduziram pela metade a produção de cereais do país
  • Cada galão de água doce produz 1 a 1,5 galão de salmoura devolvida ao oceano
  • Água dessalinizada custa 1,5 a 4 vezes mais que fontes tradicionais de água doce
  • Região de Souss-Massa é responsável por 85% das exportações marroquinas de frutas e vegetais

Marrocos planeja obter 60% de sua água potável da dessalinização até 2030, integrando usinas a parques eólicos e solares. A estratégia visa reduzir custos e emissões, mas enfrenta desafios ambientais com a gestão da salmoura.

Marrocos está apostando em uma transformação radical de como o país obtém água potável. Até 2030, o governo pretende que 60% da água consumida venha do oceano — não através de chuva ou aquíferos, mas de usinas de dessalinização acopladas a parques eólicos e solares espalhados pelo território. É um plano ambicioso que toca em três crises simultâneas: a escassez de água, a dependência energética e o colapso agrícola causado por sete anos de seca.

O raciocínio é elegante. Marrocos tem vento e sol em abundância — em 2024, energias renováveis geraram pouco mais de um quarto da eletricidade do país. Ao ligar usinas de dessalinização diretamente a esses parques, o governo reduz custos operacionais a longo prazo e, simultaneamente, elimina a pegada de carbono da produção de água. É o que um porta-voz do governo chamou de objetivo duplo: segurança hídrica e sustentabilidade energética no mesmo movimento.

Mas a dessalinização tem um preço ambiental que não aparece na conta de água. Cada galão de água doce produzido deixa para trás entre um e 1,5 galões de salmoura — água saturada de sal e resíduos químicos, com concentração salina duas vezes maior que a do oceano. Essa salmoura é normalmente devolvida ao mar, e sua má gestão cria o que pesquisadores chamam de zonas da morte: áreas com oxigênio tão baixo que dizimam pradarias marinhas e populações de plâncton. A nova usina de Casablanca tentou contornar isso com um tubo de descarga de 2,4 quilômetros projetado para diluir a salmoura antes que ela atinja o fundo do oceano. Mas aqui está o problema: Marrocos não possui regulamentações nacionais que definam quanto de diluição é necessário. Os limites são estabelecidos por quem financia as usinas, não por lei.

O verdadeiro teste dessa estratégia acontece na agricultura. O setor consome 87% de toda a água de Marrocos e emprega quase um terço da força de trabalho do país. A seca de sete anos cortou a produção de cereais pela metade e disparou o desemprego nas áreas rurais. A dessalinização é vendida como salvação — mas apenas para quem consegue pagar. Na região de Souss-Massa, responsável por 85% das exportações marroquinas de frutas e vegetais, a usina de Chtouka Aït Baha abastece 1.500 agricultores que cultivam tomates e frutas principalmente para supermercados europeus. Mohamed Boumarg, que antes cultivava 12 acres de tomates-cereja, conseguiu expandir para 50 acres, com 60% destinados à exportação. "A dessalinização salvou a agricultura em Chtouka", disse ele à AFP em julho de 2025. Um gerente de fazenda resumiu a realidade: aceitaram o preço mais alto da água dessalinizada ou teriam fechado as portas.

O custo, porém, é proibitivo para a maioria. Especialistas do Instituto Internacional de Gestão da Água apontam que água dessalinizada custa entre 1,5 e 4 vezes mais que fontes tradicionais de água doce. Funciona para agricultura de alto valor agregado voltada à exportação — tomates premium em estufas para a Europa. Não funciona para trigo, milho ou outras culturas básicas que alimentam populações locais. Para pequenos agricultores, a viabilidade dependerá de subsídios governamentais, da mistura de água dessalinizada com fontes mais baratas como águas residuais tratadas, ou de sistemas menores movidos a energia solar. É um cenário fragmentado: alguns ganham acesso a água abundante e cara; a maioria continua dependente das chuvas sazonais que cada vez menos chegam.

Marrocos não está sozinho nessa aposta. Em dezembro passado, o país sediou o Congresso Mundial da Água em Marrakech, onde apresentou sua experiência como prova de que segurança hídrica, energética e alimentar podem ser abordadas em conjunto. A mensagem foi clara: não há um modelo único para copiar, mas experiências e soluções práticas que cada país pode adaptar. Pela África, a dessalinização está ganhando terreno. A Argélia opera um dos maiores programas do Mediterrâneo. O Egito expande rapidamente sua capacidade. O Senegal assinou um contrato de 800 milhões de dólares para uma usina movida a energia renovável perto de Dakar. Namíbia e África do Sul dessalinizam água do mar há mais de uma década e desenvolvem usinas menores movidas a energia solar.

O potencial é continental. Com 95% das terras agrícolas africanas dependendo de chuva, irrigação poderia dobrar a produtividade em áreas com escassez hídrica. À medida que os custos da dessalinização caem — graças ao aprimoramento tecnológico e à integração com energias renováveis mais baratas — ela poderá abastecer cada vez mais fazendas. Mas o caminho entre a promessa e a realidade passa por regulamentações ambientais que ainda não existem, por subsídios que precisam ser direcionados com precisão, e por uma pergunta que ninguém consegue responder completamente: quem paga a conta quando a salmoura mata o oceano?

O objetivo é duplo: reduzir os custos operacionais a longo prazo e minimizar a pegada de carbono da produção de água
— Porta-voz do governo marroquino
A dessalinização salvou a agricultura em Chtouka
— Mohamed Boumarg, agricultor marroquino
Nosso objetivo não é apresentar um modelo único para ser copiado, mas compartilhar experiências, conhecimento e soluções práticas que possam ser adaptadas às necessidades específicas de cada país
— Representante do governo marroquino no Congresso Mundial da Água
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que Marrocos escolheu a dessalinização agora, depois de tanto tempo dependendo de chuva?

Model

Porque a chuva parou de vir. Sete anos de seca cortaram a produção de cereais pela metade. O país não tinha escolha — ou encontrava água ou perdia a agricultura e o emprego de milhões de pessoas.

Inventor

E por que acoplar as usinas a energia solar e eólica? Não seria mais simples apenas dessalinizar?

Model

Porque dessalinização é cara. Muito cara. Mas se você a alimenta com energia renovável barata, os custos operacionais caem drasticamente. É a única forma de tornar a água dessalinizada viável para qualquer coisa além de culturas de exportação premium.

Inventor

Funciona para todos os agricultores?

Model

Não. Funciona para quem exporta tomates para a Europa. Para o pequeno agricultor que planta trigo para alimentar a família, a água dessalinizada é ainda proibitivamente cara, mesmo com energia renovável. Ele continua dependendo de chuva ou de subsídios que o governo talvez não consiga oferecer.

Inventor

E a salmoura que sobra? Onde vai?

Model

De volta ao oceano. E aí está o problema real. Cada galão de água doce deixa 1 a 1,5 galão de salmoura — água com o dobro da concentração de sal. Mal gerenciada, ela cria zonas mortas onde o oxigênio é tão baixo que mata tudo. Marrocos não tem regulamentações nacionais para controlar isso.

Inventor

Então o país está resolvendo uma crise criando outra?

Model

Potencialmente. Mas há consciência disso. A nova usina de Casablanca tem um tubo de descarga de 2,4 quilômetros para diluir a salmoura. O problema é que não há lei obrigando isso — apenas financiadores exigindo. Se a regulamentação não vier rápido, sim, pode virar uma troca de crises.

Inventor

Outros países africanos estão fazendo o mesmo?

Model

Sim. Argélia, Egito, Senegal, Namíbia, África do Sul. É uma corrida continental. Porque o problema é continental — 95% das terras agrícolas africanas dependem de chuva. Se a dessalinização ficar barata o suficiente, pode transformar a produtividade. Mas só se for feita certo.

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