O Bloco beneficiará de ter pessoas com melhores condições
Após dois anos e meio à frente do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua anuncia que não se recandidatará à coordenação do partido, reconhecendo que não foi possível travar o declínio eleitoral que reduziu a representação parlamentar bloquista a uma única deputada. A decisão, comunicada em carta aos militantes, inscreve-se numa crise mais ampla da esquerda portuguesa, pressionada pelo avanço da direita e da extrema-direita. Mortágua parte sem dramatismo, confiante de que outros poderão abrir novos caminhos para uma organização que, diz ela, conserva história, ideias e militância para enfrentar tempos adversos.
- O Bloco de Esquerda vive o pior momento da sua história eleitoral: de cinco deputados passou a um, e perdeu 77 autarcas nas eleições de outubro.
- Mortágua assume publicamente que a sua liderança não conseguiu inverter a centralização interna nem gerar um novo impulso político para o partido.
- A sucessão está em aberto, com Fabian Figueiredo e Andreia Galvão como os nomes mais visíveis para disputar a coordenação.
- Cinco moções concorrentes já foram apresentadas para a Convenção de 29 e 30 de novembro, sinalizando uma disputa interna intensa pelo rumo do partido.
- Apesar do afastamento da liderança, Mortágua garante que continuará militante ativa, recusando que a sua saída seja lida como abandono.
Mariana Mortágua comunicou aos militantes do Bloco de Esquerda, através de uma carta, que não concorrerá a um novo mandato como coordenadora do partido. A decisão chega ao fim de dois anos e meio de liderança marcados por uma erosão eleitoral sem precedentes na história da organização.
Quando assumiu o cargo em maio de 2023, Mortágua acreditava ser possível encontrar novos caminhos para o Bloco num cenário político adverso. Não foi o que aconteceu. Nas legislativas de maio deste ano, o partido caiu de cinco para um único deputado — a própria Mortágua. Nas autárquicas de outubro, a queda foi igualmente severa: de cinco vereadores e 94 deputados municipais para uma vereadora em Lisboa, eleita em coligação, e apenas 17 deputados em câmaras e freguesias.
Na carta, Mortágua é direta sobre as limitações do seu mandato. A sucessão de campanhas eleitorais impediu uma reflexão interna mais profunda, e a direção que liderou não conseguiu descentralizar a estrutura do partido nem gerar um novo impulso político. Ainda assim, não escreve em tom de derrota: afirma tomar a decisão com tranquilidade e defende que o Bloco beneficiará de líderes com melhores condições do que as suas.
A sucessão está já em movimento. Fabian Figueiredo, antigo líder parlamentar, e Andreia Galvão, que substituiu Mortágua no parlamento durante uma missão humanitária a Gaza, surgem como os candidatos mais prováveis. A Convenção, marcada para 29 e 30 de novembro, contará com cinco moções concorrentes. Mortágua promete manter-se envolvida no partido onde milita há quase vinte anos, encerrando a carta com uma mensagem de esperança nos recursos humanos e políticos que o Bloco ainda possui.
Mariana Mortágua comunicou aos militantes do Bloco de Esquerda, através de uma carta, que não irá concorrer a um novo mandato como coordenadora do partido. A decisão chega após dois anos e meio à frente da organização, um período marcado por sucessivos reveses eleitorais que deixaram a esquerda portuguesa numa posição mais frágil do que quando ela assumiu o cargo.
Quando foi eleita coordenadora em maio de 2023, Mortágua sabia que enfrentaria um cenário político difícil. O Partido Socialista havia perdido a maioria absoluta, a direita ganhava terreno e a extrema-direita crescia. Ela acreditava que era possível encontrar novos caminhos para o Bloco. Mas, olhando para trás, reconhece que esse objetivo não se concretizou. O espaço eleitoral do partido continuou a encolher, e a renovação que tentou implementar não foi suficiente para relançar a intervenção social da organização.
Os números falam por si. Nas eleições legislativas de maio deste ano, o BE registou o pior resultado da sua história em eleições deste tipo, caindo de cinco parlamentares para apenas um — Mortágua é agora a única deputada eleita pelo partido na Assembleia da República. Nas autárquicas de outubro, a queda foi igualmente dramática: de cinco vereadores e 94 deputados municipais para uma vereadora em Lisboa, eleita numa coligação com PS, Livre e PAN, e um total de 17 deputados em câmaras e freguesias.
Na carta, Mortágua é honesta sobre as limitações da sua liderança. Aponta a precipitação de campanhas eleitorais sucessivas como um factor que roubou tempo à reflexão interna do partido e prejudicou uma transformação real do seu funcionamento. A direção que encabeçou não conseguiu inverter a excessiva centralização da estrutura do Bloco nem gerar um novo impulso político e eleitoral. Reconhece também que, apesar das campanhas de ódio dos adversários, o partido não conseguiu neutralizá-las.
Mas Mortágua não se demite em tom de derrota. Diz tomar a decisão com tranquilidade, apoiada pelo constante apoio dos camaradas. Argumenta que o Bloco beneficiará de ter pessoas com melhores condições do que as suas para dar voz ao partido. Deixa em aberto a possibilidade de que outros líderes possam fazer melhor do que ela conseguiu.
A sucessão está já em movimento. Na lista do BE por Lisboa nas últimas legislativas, Fabian Figueiredo, antigo líder parlamentar bloquista, surge em segundo lugar. Em terceiro está Andreia Galvão, que recentemente substituiu Mortágua no parlamento quando participou numa flotilha de ajuda humanitária para Gaza. Mortágua defende que a pluralidade reforça o partido e que cada moção apresentada à próxima Convenção deverá apresentar as suas alternativas de direção.
A Convenção está marcada para 29 e 30 de novembro, e já foram apresentadas cinco moções concorrentes — a moção A, encabeçada por Mortágua, e mais quatro moções opositoras. Apesar de se afastar da liderança, Mortágua promete manter-se envolvida no partido, onde milita há quase vinte anos. Encerra a carta com uma mensagem de esperança, afirmando que o Bloco tem história, ideias, coerência e militância para enfrentar os tempos difíceis que se aproximam.
Citações Notáveis
A direção por mim encabeçada foi incapaz de inverter a excessiva centralização da estrutura do Bloco e gerar um novo impulso político e eleitoral— Mariana Mortágua, na carta aos militantes
Faço-o por acreditar que o Bloco beneficiará de ter, na coordenação e no parlamento, pessoas com melhores condições do que aquelas que hoje tenho para dar voz ao partido— Mariana Mortágua
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que Mortágua decide sair agora, quando o partido está tão fragilizado?
Porque reconhece que não conseguiu fazer o que se propôs. Quando chegou, havia esperança de encontrar novos caminhos para a esquerda. Mas o espaço eleitoral continuou a encolher, e ela sente que a renovação que tentou não foi suficiente.
Mas não é arriscado deixar o partido sem liderança num momento tão crítico?
Ela argumenta o contrário — que outras pessoas podem ter melhores condições para relançar o partido do que ela tem neste momento. É uma forma de reconhecer que, às vezes, o melhor serviço que um líder pode dar é sair.
Quem são os candidatos prováveis para a substituir?
Fabian Figueiredo e Andreia Galvão aparecem como nomes fortes. Mas há cinco moções diferentes na Convenção de novembro, portanto a disputa será aberta e plural.
Mortágua fica completamente fora do partido?
Não. Ela diz que continuará como militante e que será parte do caminho do Bloco, como tem sido há quase vinte anos. É um passo atrás na liderança, não uma saída.
O que é que realmente falhou durante o mandato dela?
Ela aponta a precipitação das campanhas eleitorais, que não deixaram tempo para reflexão interna. E a incapacidade de descentralizar a estrutura do partido. Mas também reconhece que as campanhas de ódio dos adversários foram difíceis de neutralizar.