Manacapuru sedia encontro que conecta ciência acadêmica e saberes amazônicos

Construir pontes entre saberes, não substituir um pelo outro
A proposta central do encontro, segundo a coordenadora Joristela Queiroz, é articular conhecimentos tradicionais e acadêmicos para respostas mais potentes.

A 69 quilômetros de Manaus, a cidade de Manacapuru torna-se, nos dias 18 e 19 de junho, palco de uma pergunta antiga e urgente: quem tem o direito de produzir conhecimento? O I Encontro Nacional de Educação Científica no Interior do Amazonas reúne pesquisadores, educadores, intelectuais indígenas e jovens para afirmar que os saberes enraizados no território amazônico — na floresta, na memória coletiva, nas práticas cotidianas — são ciência tão legítima quanto aquela produzida nos grandes centros. É um gesto de reparação epistêmica que aponta para um futuro em que a Amazônia não apenas é estudada, mas fala por si mesma.

  • O conhecimento científico brasileiro segue concentrado nos grandes centros urbanos, deixando comunidades amazônicas à margem dos espaços onde se decide o que conta como saber válido.
  • O encontro irrompe nesse cenário propondo uma ruptura: trazer para Manacapuru pesquisadores, pensadores indígenas e educadores que tratam o território como fonte legítima de produção científica.
  • Oficinas sobre gênero, juventude e agendas globais colocam mulheres e jovens do interior do Amazonas no centro do debate, desafiando o isolamento intelectual que historicamente os afasta da ciência.
  • A presença da escritora e pensadora indígena Dra. Márcia Kambeba sinaliza que vozes historicamente silenciadas estão sendo convocadas — não como objeto de estudo, mas como protagonistas do conhecimento.
  • O evento caminha para consolidar uma rede entre escolas, universidades, institutos federais e gestão pública, criando condições para que os saberes amazônicos influenciem políticas públicas concretas.

Manacapuru vai receber, nos dias 18 e 19 de junho, o I Encontro Nacional de Educação Científica no Interior do Amazonas, sediado na Faculdade de Medicina Afya. A iniciativa parte de uma premissa ao mesmo tempo simples e radical: os saberes do território amazônico — aqueles nascidos da relação com a floresta, das práticas comunitárias e da memória coletiva — são formas legítimas de fazer ciência. O evento foi idealizado pela professora doutora Joristela de Souza Queiroz, da Escola Estadual Nossa Senhora de Nazaré, com financiamento da Fapeam.

Joristela defende que o encontro não pretende substituir um saber pelo outro, mas construir pontes. Na Amazônia, o conhecimento está profundamente ligado ao território e à natureza, e quando esse saber se aproxima da produção acadêmica, o próprio conceito de ciência se amplia — tornando-se mais plural e mais capaz de responder a desafios ambientais, sociais e culturais da região.

A programação inclui oficinas que colocam em evidência atores frequentemente invisibilizados. A professora Edzélia Moreira, da Universidade Federal do Amazonas, conduzirá a oficina 'Gênero, Ciência e Protagonismo', voltada a fortalecer a visibilidade de mulheres e combater seu isolamento intelectual. Já a doutoranda Maria Géssica Costa, da Universidade Federal da Paraíba, facilitará 'Juventude, Participação e Agendas Globais: Vozes do Sul Global', direcionada a estudantes do Ensino Médio e centrada no papel da Amazônia nos debates climáticos e na importância de atores locais na criação de políticas públicas.

O encontro conta com parcerias da UEA, Ifam, Coordenadoria Regional de Ensino e Secretaria Municipal de Educação, articulando educação básica, ensino superior e gestão pública. Entre os destaques está a participação da escritora e pensadora indígena Dra. Márcia Kambeba, cuja presença reforça o compromisso do evento com vozes historicamente excluídas dos espaços científicos. O encontro se insere nas discussões sobre descolonização do conhecimento e ciência cidadã, ampliando a pergunta fundamental: quem pode produzir ciência — e de onde.

Manacapuru, a cidade a 69 quilômetros de Manaus, vai receber nos dias 18 e 19 de junho um encontro que promete reconfigurar como se pensa a produção de conhecimento na Amazônia. O I Encontro Nacional de Educação Científica no Interior do Amazonas, sediado na Faculdade de Medicina Afya, traz consigo uma proposta simples mas radical: que os saberes do território — aqueles enraizados nas práticas cotidianas, na relação com a floresta, na memória coletiva das comunidades — são formas legítimas de fazer ciência, não menos válidas que as produzidas nos laboratórios das grandes universidades.

O evento nasce de um projeto apresentado pela professora doutora Joristela de Souza Queiroz, educadora da Escola Estadual Nossa Senhora de Nazaré, que conseguiu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) através do Programa de Apoio à Realização de Eventos Científicos e Tecnológicos. Joristela defende que quando se reúnem escolas, universidades, gestores públicos, pesquisadores e movimentos sociais, criam-se condições reais de transformação. Ela aponta que Manacapuru já possui excelentes pesquisas e pessoas nas comunidades produzindo e compartilhando saberes a partir de suas realidades — o que o encontro pretende é amplificar e democratizar esses espaços, permitindo que esses conhecimentos circulem, sejam reconhecidos e se conectem com políticas públicas.

A programação defende uma educação científica mais plural, conectada às realidades amazônicas. O diálogo entre saberes tradicionais e experiências comunitárias com a produção científica acadêmica é central na proposta. Joristela ressalta que não se trata de substituir um saber pelo outro, mas de construir pontes. Na Amazônia, explica, o conhecimento está profundamente ligado ao território, às práticas cotidianas e à relação com a natureza. Quando esses saberes se aproximam da produção científica, amplia-se o próprio conceito de ciência, tornando-o mais plural, mais sensível e mais conectado à realidade. É nessa articulação que surgem respostas mais potentes para desafios contemporâneos — questões ambientais, sociais e culturais que atravessam a região.

A professora mestra Edzélia Moreira, da Universidade Federal do Amazonas, coordenará uma oficina intitulada "Gênero, Ciência e Protagonismo". Ela considera de suma importância levar a discussão sobre gênero a um encontro científico em Manacapuru, especialmente para fortalecer o debate sobre visibilidade e pertencimento, além de combater o isolamento intelectual de mulheres. O evento, segundo Edzélia, não apenas inclui mulheres na ciência, mas adapta a própria ciência para responder às realidades amazônicas, potencializando a luta por equidade de gênero em um dos territórios mais negligenciados do país.

Outra oficina, "Juventude, Participação e Agendas Globais: Vozes do Sul Global", será facilitada pela doutoranda Maria Géssica Costa, da Universidade Federal da Paraíba, com público-alvo em alunos do Ensino Médio. Durante a programação, serão discutidas formas de superar barreiras sociais e institucionais para que populações tradicionais ocupem espaços de decisão. Maria Géssica defende a necessidade de comunidades locais e do Sul Global assumirem protagonismo na criação de políticas públicas eficazes. A oficina abordará por que a Amazônia é central nos debates sobre mudança climática e preservação ambiental, quem se interessa por ela e por quê — e, crucialmente, por que é importante que atores locais, amazônidas e do Sul Global tenham voz na criação de agendas e políticas públicas.

O encontro conta com parcerias da Faculdade de Medicina Afya, Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Instituto Federal do Amazonas (Ifam), Coordenadoria Regional de Ensino de Manacapuru e Secretaria Municipal de Educação, fortalecendo a articulação entre educação básica, ensino superior e gestão pública. A equipe de coordenação é composta por pesquisadores que vêm atuando de forma articulada em outros eventos de divulgação científica, um coletivo comprometido com a popularização da ciência e reconhecido em suas áreas de atuação. O encontro se insere nas discussões sobre descolonização do conhecimento, justiça cognitiva e ciência cidadã, ampliando a compreensão sobre o que é ciência e quem pode produzi-la. Entre os grandes nomes presentes estará a escritora e pensadora indígena Dra. Márcia Kambeba, cuja participação reforça o compromisso do evento com vozes historicamente silenciadas nos espaços científicos.

Quando reunimos escolas, universidades, gestores públicos, pesquisadores e movimentos sociais, criamos condições reais de transformação
— Professora doutora Joristela Queiroz, coordenadora do evento
Os saberes tradicionais e as experiências das comunidades locais não estão à margem da ciência. Eles são, na verdade, outras formas legítimas de produzir conhecimento
— Professora doutora Joristela Queiroz
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que um encontro científico em Manacapuru, especificamente? Não seria mais natural em Manaus?

Model

Porque a ciência não deveria estar concentrada nos grandes centros. Manacapuru já produz conhecimento legítimo — nas comunidades, nas escolas, nas práticas cotidianas. O encontro reconhece isso e cria espaço para que circule.

Inventor

Mas qual é a diferença real entre "saber tradicional" e "ciência acadêmica"? Não é só uma questão de nomenclatura?

Model

Não. É uma questão de poder. A academia historicamente desvalorizou conhecimentos que não seguem seu método, seus critérios. O encontro propõe que ambos são formas legítimas de conhecer — e que juntos, dialogando, produzem respostas melhores.

Inventor

Como você convence um pesquisador de universidade a levar a sério o saber de uma comunidade indígena?

Model

Mostrando que não é sobre convencer ninguém a abrir mão de rigor. É sobre reconhecer que há rigor em outras formas de conhecimento. Uma comunidade que maneja a floresta há séculos tem conhecimento profundo sobre ela. Isso é ciência.

Inventor

E as mulheres? Por que gênero é tão central neste encontro?

Model

Porque mulheres foram historicamente excluídas da ciência, e isso é ainda mais grave na Amazônia, longe dos grandes centros. Trazer gênero para o debate é dizer: vocês têm lugar aqui, suas perspectivas importam, e a ciência fica melhor quando vocês estão dentro.

Inventor

O que muda concretamente depois deste encontro?

Model

Esperamos que mude como as políticas públicas são pensadas — mais contextualizadas, alinhadas com as realidades locais. E que professores, pesquisadores e gestores saiam daqui com uma compreensão diferente do que é ciência e quem pode produzi-la.

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