tirar a relação do banho-maria em que está desde 2020
Após anos de distância diplomática, o presidente Lula parte para Washington com a intenção de reacender um vínculo que esfriou quando o mundo mudou de direção. O encontro com Biden no Salão Oval não é apenas protocolar — é o primeiro gesto presencial de uma relação que precisa ser reinventada, não apenas retomada. O Brasil chega com agenda própria e expectativas concretas, sinalizando que a era do alinhamento automático ficou para trás.
- As relações Brasil-EUA permaneceram em 'banho-maria' desde 2020, criando um vácuo diplomático que nenhum telefonema foi capaz de preencher.
- Lula viaja a Washington carregando demandas estratégicas — adesão americana ao Fundo Amazônia e inclusão do Brasil na cadeia de semicondutores — que transformariam a visita de simbólica em substantiva.
- A agenda é vasta e politicamente sensível: democracia, direitos humanos, redes sociais, guerra na Ucrânia e os embargos a Cuba e Venezuela entram na mesma conversa.
- Os canais diplomáticos já dão sinais de reabertura — nova embaixadora americana em Brasília, nova representante brasileira aprovada em Washington — mas o encontro presencial é o verdadeiro teste.
- O Brasil sinaliza uma diplomacia mais independente e transacional, distante do alinhamento irrestrito da era Bolsonaro, buscando ganhos concretos em vez de gestos de lealdade.
Luiz Inácio Lula da Silva embarcou para Washington com uma missão precisa: descongelar uma relação bilateral que havia entrado em dormência. O encontro com Joe Biden estava marcado para a tarde de sexta-feira no Salão Oval da Casa Branca — o primeiro cara a cara entre os dois presidentes desde a eleição de Lula em outubro de 2022.
O embaixador Michel Arslanian, secretário de América Latina e Caribe do Itamaraty, usou a expressão 'banho-maria' para descrever o estado das relações desde que Biden venceu as eleições americanas em 2020. Antes disso, sob Bolsonaro, o Brasil mantinha um alinhamento automático com Washington. Com a mudança de administração, aquela proximidade simplesmente evaporou. Os dois presidentes já haviam falado por telefone duas vezes — após a eleição de Lula e após os ataques de 8 de janeiro —, mas o encontro presencial representava algo de outra natureza: uma recalibração deliberada.
O Brasil chegava a Washington com expectativas concretas. A mais aguardada era a possível adesão dos Estados Unidos ao Fundo Amazônia. Igualmente relevante era a perspectiva de inclusão do Brasil na cadeia de suprimentos de semicondutores americana. A pauta oficial era ampla: comércio, meio ambiente, direitos humanos, defesa da democracia, papel das redes sociais, guerra na Ucrânia e os embargos a Cuba e Venezuela. O episódio dos balões chineses, notavelmente, ficou de fora.
Nos bastidores, os canais diplomáticos já sinalizavam reabertura: o Brasil recebera a nova embaixadora americana Elizabeth Bagley, e os EUA aprovaram Maria Luiza Viotti como representante brasileira em Washington. A viagem de Lula seria o teste de uma nova postura — mais independente, mais transacional, focada em resultados para o Brasil em vez de gestos de lealdade irrestrita.
Luiz Inácio Lula da Silva estava prestes a embarcar para Washington com uma missão clara: descongelar uma relação bilateral que havia entrado em dormência. O presidente brasileiro viajaria na quinta-feira para um encontro marcado com Joe Biden na tarde de sexta-feira, 10 de fevereiro, no Salão Oval da Casa Branca — o primeiro encontro presencial entre os dois líderes desde a eleição de Lula em outubro de 2022.
A caracterização da viagem como uma tentativa de "reacomodação" das relações diplomáticas veio do embaixador Michel Arslanian, secretário de América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores, em declaração na terça-feira. Ele usou a expressão "banho-maria" para descrever o estado das relações entre Brasil e Estados Unidos desde que Biden venceu a disputa presidencial americana em 2020. Antes disso, durante o governo Jair Bolsonaro, a relação com a Casa Branca havia sido particularmente próxima, caracterizada por um alinhamento automático aos interesses norte-americanos. Com a mudança de administração em Washington, aquela proximidade desapareceu.
Os dois presidentes já haviam conversado por telefone duas vezes desde a eleição de Lula — uma logo após o resultado das urnas e outra após os ataques golpistas de 8 de janeiro em Brasília. Mas o encontro presencial representava algo diferente: uma tentativa deliberada de recalibrar a dinâmica bilateral. A agenda da manhã de sexta incluiria entrevistas de Lula com a imprensa americana e encontros com parlamentares, embora Arslanian tenha ressalvado que os detalhes ainda estavam sujeitos a ajustes.
O embaixador foi claro ao afirmar que, apesar do caráter político da visita, o Brasil esperava colher resultados concretos. O mais aguardado era a possível adesão dos Estados Unidos como contribuinte do Fundo Amazônia, mecanismo financeiro destinado a ações de proteção da floresta. Igualmente importante era a perspectiva de o Brasil ser incluído na cadeia de suprimentos de semicondutores que abastece o mercado americano — uma questão de relevância estratégica para ambas as economias.
A pauta oficial do encontro era ampla. Além de comércio bilateral e questões ambientais, os presidentes discutiriam direitos humanos, defesa da democracia e o papel das redes sociais na disseminação de discursos de ódio. A guerra entre Rússia e Ucrânia também entraria na conversa, assim como os embargos americanos a Cuba e Venezuela. Notavelmente, Arslanian informou que o episódio dos balões chineses suspeitos de espionagem não constaria da agenda.
No que diz respeito a Jair Bolsonaro, que havia solicitado um visto de turista para permanecer mais tempo nos Estados Unidos, o Itamaraty se recusou a comentar, afirmando que se tratava de uma questão migratória sob jurisdição exclusiva do governo americano. Paralelamente, o Brasil havia recebido a nova embaixadora americana em Brasília, Elizabeth Bagley, e os Estados Unidos haviam aprovado a nomeação de Maria Luiza Viotti como representante brasileira em Washington — sinais de que os canais diplomáticos estavam sendo reativados em ambas as direções.
O encontro marcava uma inflexão clara na postura brasileira em relação aos Estados Unidos. Onde havia alinhamento automático, havia agora espaço para uma diplomacia mais independente e transacional, focada em ganhos concretos para o Brasil. A viagem de Lula a Washington seria o teste dessa nova calibragem.
Citações Notáveis
O encontro visa um 'resettling' na relação, que estava em banho-maria desde a eleição do presidente Biden— Embaixador Michel Arslanian, secretário de América Latina e Caribe do Itamaraty
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que exatamente as relações esfriaram tanto entre 2020 e agora? Não era só uma questão de mudança de governo?
Era mais que isso. Bolsonaro tinha uma afinidade ideológica com Trump — ambos populistas, ambos céticos em relação a instituições multilaterais. Biden representa algo diferente: mais multilateralista, mais preocupado com democracia e direitos humanos. O Brasil sob Bolsonaro não se encaixava bem nessa visão.
E agora Lula chega e tudo muda de repente?
Não de repente, mas há uma abertura real. Lula tem histórico de diplomacia multilateral, de trabalhar com instituições internacionais. Isso ressoa melhor com Biden. Mas Lula também não quer voltar ao alinhamento automático — quer resultados concretos.
Como o Fundo Amazônia e os semicondutores?
Exatamente. Lula está dizendo: queremos parceria, mas em termos que beneficiem o Brasil. A Amazônia é uma prioridade ambiental global, mas também é um ativo brasileiro. Os semicondutores são estratégia de segurança americana, mas também oportunidade econômica para o Brasil.
Isso soa como negociação, não como diplomacia.
É ambos. A diplomacia moderna é isso — encontrar onde os interesses se sobrepõem e extrair valor. Lula está sendo mais pragmático que Bolsonaro, mas menos submisso que se esperaria.
E se o encontro não render esses resultados concretos?
Então pelo menos o gelo terá sido quebrado. Às vezes a reacomodação é o resultado em si — restabelecer canais, mostrar que há vontade política de trabalhar junto. O resto vem depois.