Aprendemos a ganhar e a saber que novo governo não pode ser só do PT
Lula enfatiza que governo não será exclusivamente do PT, incluindo membros de outros partidos e independentes na administração. Presidente eleito reafirma responsabilidade fiscal e critica mercado financeiro, destacando superávits primários em seus mandatos anteriores.
- Mais de 250 mil brasileiros migraram oficialmente para Portugal nos últimos anos
- Lula reafirmou que em todos seus mandatos anteriores o país registrou superávit primário
- Discurso ocorreu no Instituto Universitário de Lisboa durante primeira visita a Portugal como presidente eleito
Lula afirma que novo governo terá participação de múltiplos partidos e sociedade civil, reafirmando compromisso com responsabilidade fiscal e investimentos em educação durante discurso em Portugal.
Luiz Inácio Lula da Silva estava em Lisboa quando decidiu falar diretamente sobre como seria seu governo. Sentado em um auditório do Instituto Universitário de Lisboa, cercado por apoiadores, o presidente eleito deixou claro que a administração que começaria em breve não seria um projeto exclusivo de seu partido. "Aprendemos a ganhar e a saber que novo governo não pode ser só do Partido dos Trabalhadores", disse, prometendo espaço para membros de outras legendas e para pessoas sem filiação partidária. A mensagem era deliberada: após uma eleição polarizada, ele buscava sinalizar abertura.
Mas havia outro tema que Lula sabia que precisava endereçar naquela semana de novembro de 2022. Os mercados financeiros estavam tensos. Havia preocupação real de que um governo Lula significasse gastos descontrolados, e essa ansiedade havia criado turbulência nos ativos brasileiros. O presidente eleito não deixou a questão de lado. Falou sobre responsabilidade fiscal com a segurança de quem havia governado antes. "Nós sabemos que temos que ter responsabilidade fiscal. Sabemos que não podemos gastar tudo o que a gente ganha", afirmou. Mas acrescentou um detalhe importante: "sabemos também que nós podemos gastar para fazer alguma coisa que tenha rentabilidade para fazer o País crescer". Era uma tentativa de equilibrar duas coisas que pareciam em conflito — austeridade e investimento.
No dia anterior, em seu primeiro dia em Portugal, Lula havia sido ainda mais direto sobre o tema. "Ninguém tem autoridade para falar de política fiscal comigo", disse, com uma mistura de confiança e irritação. Ele apontou para seu histórico: em todos os seus anos anteriores no governo, o país havia registrado superávit primário. Agora prometia que o Brasil voltaria a ser responsável do ponto de vista fiscal, mas com uma ressalva que revelava sua frustração: "sem precisar atender tudo que o sistema financeiro quer". Era um recado claro de que não seria um governo capturado pelos interesses financeiros, mas também não seria irresponsável.
Há outro público que Lula tinha em mente naquele discurso em Lisboa: os brasileiros que viviam em Portugal. Mais de 250 mil pessoas haviam se mudado oficialmente para o país europeu nos últimos anos, deixando o Brasil em busca de oportunidades. Lula prometeu "trabalhar 24 horas por dia" para criar condições econômicas que permitissem a esses migrantes retornar "com orgulho". "Às vezes eu fico triste quando vejo brasileiros e brasileiras morando em outros países porque não conseguiram encontrar uma oportunidade de emprego", disse, revelando uma preocupação que ia além da retórica política.
A educação era outra prioridade que Lula reafirmou naquele dia. Ao lado de Fernando Haddad, seu ex-ministro da Educação que voltaria ao cargo, Lula fez uma distinção que considerava importante: "Dizem que o Lula vai gastar na educação; não vou gastar, vou investir. Porque esse é o melhor investimento que um governante pode fazer". Ele criticou o governo anterior por ter tido um ministro que acreditava que a universidade deveria ser para poucos, e prometeu que seu terceiro mandato incluiria a digitalização do país como ferramenta para recuperar o aprendizado das crianças mais pobres, prejudicadas pelos dois anos de pandemia.
No final do discurso, Lula fez um apelo que revelava sua preocupação com o clima político do país. Pediu aos brasileiros que parassem de brigar em família por causa de política, e pediu a seus apoiadores que não aceitassem provocações de "bolsonaristas fanáticos e sem argumentos". Lamentou que as redes sociais se tornassem, em sua visão, um território "do mal". Antes de encerrar, chamou sua mulher, Rosângela da Silva, a Janja, à tribuna, que falou brevemente sobre o compromisso do futuro governo com as mulheres, especialmente as mais desfavorecidas. O discurso em Lisboa, portanto, não era apenas sobre política econômica ou composição ministerial. Era sobre como Lula imaginava reconstruir o país após anos de polarização.
Citações Notáveis
Ninguém tem autoridade para falar de política fiscal comigo— Lula, em resposta às preocupações do mercado financeiro
Não vou gastar na educação, vou investir. Porque esse é o melhor investimento que um governante pode fazer— Lula, sobre prioridades de seu governo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Lula escolheu falar sobre responsabilidade fiscal justamente em Portugal, e não em Brasília?
Porque Portugal era um lugar seguro para essa conversa. Ele estava longe do mercado financeiro brasileiro, que estava nervoso, e podia falar para uma plateia que o apoiava. Mas também porque havia muitos brasileiros lá, e ele queria que ouvissem que ele levava a economia a sério.
Quando ele diz "ninguém tem autoridade para falar de política fiscal comigo", está realmente confiante ou está defensivo?
Provavelmente os dois. Ele tem histórico real de superávits primários. Mas também está irritado porque sente que está sendo julgado injustamente. Há uma tensão entre a confiança no passado e a frustração com o presente.
A promessa de trazer brasileiros de volta de Portugal — isso é realista ou é apenas retórica?
É ambição genuína, mas também reconhecimento de um problema real. Mais de 250 mil pessoas saíram. Lula quer que voltem porque acredita que pode criar oportunidades. Mas sabe que é difícil.
Por que ele insiste tanto em educação?
Porque educação é a coisa que ele acredita que muda tudo. Não é apenas política pública para ele — é investimento no futuro. E há um contraste claro com o governo anterior, que ele vê como tendo fechado portas.
O apelo para que as famílias parem de brigar por política — isso funciona?
Provavelmente não muda muita coisa no curto prazo. Mas mostra que ele está ciente de que o país está fraturado e que quer tentar consertar isso. É um reconhecimento do problema, mesmo que a solução seja mais complicada.