Vou à Índia no final do ano para provar que ela estava errada
Em junho de 2023, o presidente Lula desafiou publicamente o Fundo Monetário Internacional ao projetar um crescimento do PIB brasileiro entre 2% e 2,5%, mais que o dobro da estimativa oficial da instituição. A declaração, feita em rádios do interior de Goiás, não era apenas uma divergência técnica: era um marcador político colocado diante do mundo, com o próprio prestígio presidencial como garantia. Por trás dos números, uma visão de economia que enxerga políticas sociais não como despesa, mas como motor de desenvolvimento.
- Lula confrontou diretamente o FMI ao rejeitar a projeção de 0,9% de crescimento e prometer crescimento acima de 2,5% — uma aposta pública de credibilidade.
- Os dados do IBGE do primeiro trimestre de 2023 — crescimento de 1,9% ante o trimestre anterior e 4% ante o mesmo período de 2022 — ofereciam base concreta para o otimismo presidencial.
- O próprio FMI já havia revisado silenciosamente sua estimativa de 0,9% para 1,2% em maio, sinalizando que o cenário brasileiro era mais dinâmico do que previsto.
- O governo apostou na retomada do Bolsa Família como alavanca econômica, argumentando que transferências de renda irrigam a base produtiva do país.
- Lula marcou um encontro simbólico com a diretora do FMI no G20 da Índia para, ao final do ano, apresentar os números como prova de que a instituição havia errado.
Na quinta-feira, 15 de junho de 2023, Lula estava em Goiás quando decidiu desafiar publicamente o Fundo Monetário Internacional. Em entrevistas a quatro rádios locais, o presidente afirmou que a economia brasileira cresceria entre 2% e 2,5% naquele ano — mais que o dobro da projeção oficial do FMI, fixada em 0,9%. "Nós vamos crescer acima de 2%, 2,5% e se acontecer o que eu estou pensando a gente pode até crescer um pouco mais", disse.
A declaração não era casual. Semanas antes, durante o G7 no Japão, Lula havia conversado com Kristalina Georgieva, diretora do FMI, e prometido reencontrá-la no G20 da Índia para demonstrar que a instituição havia se enganado. Era uma aposta simultânea — política e econômica — feita no interior do Brasil, mas com repercussões globais.
Os números do IBGE davam algum respaldo ao otimismo presidencial: o PIB havia crescido 1,9% no primeiro trimestre de 2023 em relação ao trimestre anterior, e 4% comparado ao mesmo período de 2022. O próprio FMI, em visita ao Brasil em maio, já havia revisado sua estimativa para 1,2%, embora sem atualizar oficialmente suas projeções públicas.
Para Lula, o desempenho econômico tinha uma explicação clara: a retomada das políticas sociais. O Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil na gestão anterior, foi reestabelecido e expandido. Na visão presidencial, essas transferências funcionavam como irrigação econômica — recursos que chegavam a pequenos produtores, empreendedores e beneficiários, movimentando a base da economia. No dia seguinte, Lula inauguraria um trecho da ferrovia Norte-Sul em Rio Verde, reforçando a narrativa de investimento em infraestrutura e desenvolvimento regional.
Lula estava em Goiás na quinta-feira, 15 de junho de 2023, quando decidiu desafiar publicamente uma das instituições mais influentes do mundo. Em entrevistas a quatro rádios locais — Líder FM, Morada do Sol, Goiânia Sucesso e Rádio Interativa — o presidente afirmou que a economia brasileira cresceria entre 2% e 2,5% naquele ano, rejeitando de forma direta a projeção do Fundo Monetário Internacional, que havia estimado um crescimento de apenas 0,9%.
"Nós vamos crescer acima de 2%, 2,5% e se acontecer o que eu estou pensando a gente pode até crescer um pouco mais", disse Lula. A declaração não era casual. Semanas antes, em maio, durante a reunião do G7 no Japão, o presidente havia conversado com Kristalina Georgieva, diretora do FMI, e deixado claro que pretendia encontrá-la novamente no final do ano, durante a reunião do G20 na Índia, para demonstrar que a instituição havia se enganado em suas estimativas.
Os números disponíveis na época ofereciam algum respaldo para o otimismo presidencial. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística havia divulgado, no primeiro de junho, que o PIB havia crescido 1,9% no primeiro trimestre de 2023 em relação ao trimestre anterior, atingindo R$ 2,6 trilhões em valores correntes. Comparado ao mesmo período do ano anterior, o crescimento havia sido ainda mais robusto: 4%. Esses dados sugeriam uma economia em movimento, ainda que modesto.
O FMI, por sua vez, não havia permanecido completamente imóvel em suas avaliações. A instituição havia divulgado sua previsão oficial de 0,9% em abril, mas em maio, quando seus representantes visitaram o Brasil, revisou a estimativa para 1,2%. Essa revisão, porém, ainda não havia sido incorporada às projeções públicas oficiais da instituição.
Para Lula, o crescimento econômico não era apenas uma questão de números abstratos. Ele atribuía o desempenho à retomada das políticas sociais que seu governo havia implementado logo no início do ano. O Bolsa Família, que havia sido renomeado para Auxílio Brasil durante a administração Jair Bolsonaro, foi reestabelecido com seu nome original e expandido. Segundo o presidente, essas transferências de renda funcionavam como irrigação econômica, canalizando recursos para pequenos produtores, pequenos empreendedores e beneficiários do programa que aguardavam na fila para se aposentar.
O discurso de Lula refletia uma visão específica sobre como a economia funciona: políticas sociais não eram gastos, mas investimentos que estimulavam a demanda e, por consequência, o crescimento. A visita a Goiás naquela sexta-feira, 16 de junho, para inaugurar um trecho da ferrovia Norte-Sul no município de Rio Verde, reforçava essa narrativa de investimento em infraestrutura e desenvolvimento regional.
O que Lula estava fazendo, em essência, era estabelecer um marcador público. Havia colocado sua credibilidade contra a do FMI, prometendo que os números do final do ano diriam quem estava certo. Era uma aposta política e econômica simultânea, feita em rádios do interior de Goiás, mas com implicações que se estendiam muito além daquele estado.
Notable Quotes
Nós vamos crescer acima de 2%, 2,5% e se acontecer o que eu estou pensando a gente pode até crescer um pouco mais— Presidente Lula, em entrevista a rádios de Goiás
Quero, no final do ano, provar que ela estava errada— Lula, referindo-se à diretora do FMI Kristalina Georgieva
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o presidente escolheu desafiar o FMI especificamente naquele momento, em junho?
Porque os dados do primeiro trimestre já mostravam movimento na economia. Lula tinha números reais em mãos — 1,9% de crescimento trimestral, 4% anual. Não era especulação. Ele estava dizendo: vejam, já está acontecendo.
Mas 0,9% versus 2,5% é uma diferença enorme. Como ele tinha tanta certeza?
Ele estava apostando em suas políticas sociais. O Bolsa Família havia sido restaurado, o dinheiro estava circulando novamente na base da economia. Para Lula, isso era tão previsível quanto causa e efeito.
E o FMI? Eles já tinham revisado para 1,2% em maio. Por que Lula não mencionou isso?
Porque 1,2% ainda era muito abaixo de 2%. Ele não estava interessado em pequenas revisões. Queria provar que a instituição estava fundamentalmente errada em sua leitura da economia brasileira.
Havia risco nessa aposta pública?
Claro. Se a economia não crescesse como prometido, ele teria feito uma promessa que não conseguiu cumprir. Mas Lula parecia confiante de que o efeito das políticas sociais seria visível até o final do ano.
Por que escolher rádios de Goiás para fazer esse anúncio?
Porque estava indo para lá de qualquer forma, para inaugurar uma ferrovia. Aproveitou para falar com o público local sobre economia, sobre crescimento, sobre o que seu governo estava fazendo. Era comunicação política integrada ao calendário de compromissos.