Lula critica crescimento de 2,9% do PIB; Haddad culpa medidas eleitorais de Bolsonaro

Se não houver investimento privado, que haja o investimento público
Lula explica sua estratégia para reverter a desaceleração econômica usando o Estado como indutor de crescimento.

Ao receber os dados do IBGE que registraram crescimento de 2,9% do PIB em 2022 — com contração de 0,2% no último trimestre —, o presidente Lula declarou que a economia não havia crescido 'nada', inaugurando uma disputa de narrativas sobre heranças e responsabilidades. O ministro Haddad apontou as medidas eleitorais de Bolsonaro como gatilho para a alta dos juros, enquanto Lula prometeu investimentos públicos de R$ 23 bilhões em 2023 como antídoto para a inércia econômica. O novo governo assume o leme reconhecendo ventos contrários — juros elevados, crédito restrito e economia global em desaceleração — mas aposta que o Estado, como indutor, pode mover o que o mercado sozinho não move.

  • O PIB cresceu apenas 2,9% em 2022 e contraiu 0,2% no quarto trimestre, acendendo um sinal de alerta logo no início do governo Lula.
  • Lula foi categórico ao dizer que a economia não cresceu 'nada, nada', transformando um dado estatístico em declaração política de ruptura com o governo anterior.
  • Haddad responsabiliza o pacote eleitoral de Bolsonaro — até R$ 50 bilhões em benefícios e cortes de impostos — por ter forçado o Banco Central a elevar a Selic para 13,75% ao ano.
  • O governo responde com uma estratégia de investimento público: R$ 23 bilhões em 2023 e bancos como Caixa, BNDES e Banco do Brasil reposicionados como motores de crescimento.
  • Apesar de descartar recessão, Haddad admite que os juros altos, o crédito deteriorado e a fraqueza da economia global representam riscos reais para a trajetória do PIB em 2023.

Na quinta-feira, o IBGE divulgou que o PIB brasileiro cresceu 2,9% em 2022 — número que o presidente Lula recebeu com crítica contundente, afirmando que a economia não havia crescido 'nada'. Por trás da taxa anual, havia um dado mais inquietante: no quarto trimestre, a economia contraiu 0,2% em relação ao trimestre anterior.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, localizou a origem do problema no governo Bolsonaro. O pacote de até R$ 50 bilhões em benefícios ampliados e cortes de impostos anunciado em junho de 2022 teria obrigado o Banco Central a reagir com juros mais altos, encerrando o ano com a Selic em 13,75%. Para Haddad, aquelas medidas eleitorais plantaram a semente da desaceleração que o novo governo agora enfrenta.

Lula, por sua vez, apontou o baixo investimento do governo anterior como o nó central. Enquanto Bolsonaro investiu cerca de R$ 20 bilhões em quatro anos, Lula prometeu destinar R$ 23 bilhões só em 2023. A aposta é no investimento público como catalisador — não para substituir o setor privado, mas para movimentar a economia quando ele permanece estático. Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, BNB, Basa e BNDES foram citados como instrumentos dessa estratégia.

Haddad reconheceu que a economia está em 'curva descendente' e que reverter esse quadro é o desafio central do Ministério da Fazenda, que em janeiro já havia anunciado medidas com impacto fiscal de R$ 242,7 bilhões. Ainda assim, o ministro não descartou riscos: juros elevados, crédito restrito e a desaceleração da economia global permanecem como obstáculos concretos para o crescimento ao longo de 2023.

Na quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desceu duro sobre os números que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística havia acabado de divulgar: um crescimento do PIB de 2,9% em 2022. Não era apenas uma crítica de tom moderado. Lula foi enfático, dizendo que a economia brasileira não havia crescido "nada, nada" no ano anterior. Os dados mostravam algo ainda mais preocupante por trás daquele número anual — no quarto trimestre, a economia havia contraído 0,2% em relação aos três meses que a precederam.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ofereceu uma explicação para essa desaceleração que apontava para trás, para o governo anterior. As medidas adotadas por Jair Bolsonaro durante o período eleitoral, segundo Haddad, haviam forçado o Banco Central a reagir elevando os juros. A taxa básica de juros, a Selic, havia encerrado 2022 em 13,75% ao ano. Em junho de 2022, Bolsonaro havia anunciado um pacote de até 50 bilhões de reais em benefícios sociais ampliados e cortes de impostos, uma tentativa de conter a inflação e proteger o poder de compra dos consumidores. Haddad via naquelas ações a raiz do problema econômico que agora enfrentava.

Mas Lula oferecia sua própria leitura dos números. O presidente argumentava que o baixo investimento do governo anterior era o culpado. Bolsonaro havia investido cerca de 20 bilhões de reais ao longo de seus quatro anos no cargo. Lula prometia destinar 23 bilhões de reais apenas em 2023. Para o presidente, a solução passava por investimento público como indutor do crescimento — não como substituto da iniciativa privada, mas como catalisador quando o setor privado não se movia. "Se não houver investimento privado, que haja o investimento público", disse Lula. "Se o governo federal não investir dinheiro como indutor do crescimento, nada vai acontecer."

O presidente anunciou um programa que colocaria os bancos públicos e instituições de desenvolvimento no centro dessa estratégia. Mencionou nominalmente a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, o BNB, o Basa e o BNDES como instrumentos que voltariam a investir para gerar emprego, desenvolvimento e distribuição de renda. Haddad, por sua vez, reconhecia que a economia estava em uma "curva descendente" e que o desafio do Ministério da Fazenda era reverter esse quadro. Em janeiro, ele havia anunciado um pacote amplo de medidas que prometia uma melhora fiscal de 242,7 bilhões de reais nas contas públicas para 2023.

Ainda assim, havia ressalvas importantes. Haddad afirmava que não trabalhava com a perspectiva de recessão em 2023, mas reconhecia que a manutenção das taxas de juros naquele patamar elevado causaria uma desaceleração da economia. A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda alertava que as condições de crédito deterioradas em um cenário de juros altos poderiam afetar o crescimento do PIB. Havia também o risco externo: a desaceleração da economia global poderia impactar negativamente a atividade econômica brasileira ao longo do ano. O governo tinha um diagnóstico claro do problema e uma estratégia de resposta, mas os obstáculos — juros elevados, crédito restrito, economia global fraca — permaneciam reais e potencialmente limitadores.

A economia brasileira não cresceu nada, nada, no ano passado
— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Houve uma reação do Banco Central às atitudes do governo anterior no período eleitoral, que ensejou aumento da taxa de juros
— Ministro da Fazenda Fernando Haddad
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que Lula foi tão enfático ao dizer que a economia não cresceu "nada, nada"? O número de 2,9% não é tecnicamente zero.

Model

Porque o contexto importa mais que o número bruto. A economia perdeu ritmo no quarto trimestre, contraindo 0,2%. Para um presidente que acabava de tomar posse, aquela trajetória descendente era o sinal que importava — não o acumulado do ano anterior, que ainda refletia a gestão anterior.

Inventor

Haddad culpa Bolsonaro pelos juros altos. Mas o Banco Central é independente, não é?

Model

Tecnicamente sim, mas Haddad está apontando para a causa que o Banco Central reagiu — o pacote de 50 bilhões em benefícios e cortes de impostos no período eleitoral. O BC elevou juros porque viu inflação sendo alimentada. Haddad está dizendo: aquelas escolhas políticas forçaram a mão do BC.

Inventor

Lula fala em investimento público como indutor. Mas não é arriscado o governo gastar mais quando os juros já estão tão altos?

Model

É uma aposta. Lula está dizendo que sem investimento público, nada acontece — que o setor privado não vai se mover sozinho com juros em 13,75%. O governo está tentando criar demanda e oportunidade mesmo em um ambiente caro. É uma estratégia contracíclica, mas em um contexto de juros muito elevados.

Inventor

Por que nomear especificamente aqueles bancos — Caixa, Banco do Brasil, BNDES?

Model

Porque são os instrumentos que o governo controla diretamente. Não pode ordenar ao setor privado a investir, mas pode usar seus próprios bancos como alavanca. É uma forma de dizer: temos ferramentas, vamos usá-las.

Inventor

Haddad diz que não trabalha com perspectiva de recessão, mas reconhece desaceleração. Qual é a diferença prática?

Model

Recessão é contração — dois trimestres seguidos de crescimento negativo. Desaceleração é crescimento mais lento. Haddad está tentando manter esperança de que a economia não entra em contração, mas admite que o crescimento será fraco. É uma linha tênue.

Contáctanos FAQ