Lula critica Campos Neto e diz que taxa Selic de 11,25% não tem explicação

Lula menciona brasileiros em situação de pobreza extrema, fome e pessoas em situação de rua como contexto do impacto social dos juros altos.
Não existe nenhuma explicação econômica para isso
Lula sobre a manutenção da taxa Selic em 11,25% ao ano pelo Banco Central.

Em um Brasil onde milhões ainda convivem com a fome e a exclusão, o presidente Lula voltou a confrontar publicamente a política monetária do Banco Central, atribuindo à 'teimosia' de Roberto Campos Neto a persistência de juros que, em sua visão, sufocam o crescimento sem qualquer amparo econômico ou inflacionário. A tensão entre o poder executivo eleito e a autonomia da autoridade monetária revela uma disputa mais profunda sobre quem carrega o ônus do ajuste — e quem, ao fim, paga a conta.

  • Lula intensifica o confronto com Campos Neto ao responsabilizá-lo diretamente pelo atraso econômico do país, usando linguagem deliberadamente despersonalizada ao chamá-lo de 'esse cidadão'.
  • A Selic em 11,25% ao ano é tratada pelo presidente como um obstáculo sem justificativa racional, bloqueando crédito para pequenas empresas e comprimindo salários de trabalhadores.
  • O mercado financeiro é retratado como 'um dinossauro voraz', enquanto Lula evoca imagens de fome, moradores de rua e crianças em situação de vulnerabilidade para dar peso humano à crítica técnica.
  • O presidente pede paciência à sociedade e ao ministro Haddad até o fim do mandato de Campos Neto, apostando que a saída do banqueiro abrirá espaço para uma política de juros mais favorável ao crescimento.

Na noite de segunda-feira, em entrevista ao SBT, o presidente Lula dedicou parte significativa de sua fala a atacar a condução da política monetária pelo Banco Central. Sem pronunciar o nome de Roberto Campos Neto, referiu-se a ele como 'esse cidadão' e o apontou como principal responsável pelo que chamou de freio ao crescimento econômico brasileiro. Para Lula, a manutenção da Selic em 11,25% ao ano carece de qualquer explicação econômica ou inflacionária — sendo fruto, em sua leitura, de pura teimosia institucional.

O presidente reconheceu manter diálogo com Campos Neto, mas expressou decepção com a lentidão nos cortes de juros. Advertiu que o banqueiro terá de responder historicamente pelo que fez ao país quando deixar o cargo, previsto para ainda este ano. Enquanto isso, afirmou que ministros, empresários e a população em geral 'sofrem' com o custo do dinheiro elevado — e pediu paciência até que a mudança de comando no BC permita avançar com políticas de crédito para pequenas e médias empresas.

A crítica à taxa de juros foi emoldurada por uma visão mais ampla sobre desigualdade. Lula questionou se o mercado financeiro, que descreveu como um 'rinoceronte voraz', tinha empatia com os milhões que passam fome no mundo, com os moradores de rua nas grandes cidades brasileiras ou com crianças em situação de extrema vulnerabilidade. Para ele, instituições como a Petrobras não podem existir apenas para satisfazer acionistas — devem cumprir uma missão social.

Sobre outros temas, o presidente minimizou pesquisas que apontam queda em sua aprovação, tratando-as como fotografias passageiras úteis apenas para ajustar estratégias. Negou a existência de um programa 'vale carne', atribuindo a repercussão a uma carta de um pecuarista que circulou internamente sem virar política pública. E sobre a polarização política, disse não se preocupar com ela, lembrando que o Brasil já viveu décadas de disputas acirradas entre PT e PSDB.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poupou críticas ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em entrevista concedida ao SBT na noite de segunda-feira. Sem mencionar o nome do banqueiro, Lula voltou a se referir a ele como "esse cidadão" e o responsabilizou diretamente pelo que chamou de atraso no crescimento econômico brasileiro. O tom foi direto: a taxa Selic em 11,25% ao ano, segundo o presidente, não encontra qualquer justificativa racional.

"Não tem nenhuma explicação os juros da taxa Selic estarem a 11,25%. Não existe nenhuma explicação econômica, nenhuma explicação inflacionária, não existe nada", declarou Lula. Para o presidente, a única razão pela qual a taxa permanece em patamares tão elevados é o que ele chamou de "teimosia" do presidente do Banco Central em manter o aperto monetário. Ainda assim, Lula reconheceu manter "conversas civilizadas" com Campos Neto, embora tenha expressado decepção com o que considerou falta de prudência e rapidez nas decisões de corte de juros.

A crítica de Lula vai além da questão técnica da política monetária. Ele alertou que Campos Neto terá de "medir o que fez para esse país" quando deixar o cargo, cuja gestão se encerra ainda neste ano. Na visão do presidente, o que o banqueiro está fazendo no presente é prolongar o sofrimento econômico dos brasileiros, impedindo que trabalhadores tenham acesso a melhores salários e oportunidades. O petista reconheceu que o ministro da Fazenda Fernando Haddad, empresários e a sociedade como um todo "sofrem" com os juros altos, mas pediu paciência até o fim do mandato de Campos Neto, esperando que a redução da taxa de juros abra caminho para políticas de crédito voltadas a pequenas e médias empresas.

Durante a mesma entrevista, Lula abordou outros temas que revelam suas prioridades e visão de governo. Questionado sobre pesquisas recentes que mostram queda na aprovação de seu governo, o presidente minimizou os resultados negativos. Ele argumentou que as pesquisas devem ser entendidas como "uma fotografia" do momento vivido, e que seu uso adequado é como "instrumento de ação e de mudança" da estratégia governamental, não como motivo para alegria ou tristeza. Reconheceu que o governo ainda está "muito aquém" do que prometeu, mas expressou confiança de que entregará resultados.

A questão social também ocupou lugar central na fala do presidente. Ao criticar a postura do mercado financeiro, que descreveu como "um rinoceronte, um dinossauro voraz que quer tudo para ele e nada para o povo", Lula questionou se o mercado tinha "pena" das pessoas que passam fome, dos 735 milhões de pessoas no mundo sem o que comer, das pessoas em situação de rua nas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro, e das meninas de 12 e 13 anos que vendem o corpo por um prato de comida. Para Lula, a Petrobras não pode pensar apenas nos acionistas, mas deve manter sua "missão" de servir aos brasileiros.

Sobre a polarização política brasileira, Lula a caracterizou como um fenômeno global que deve persistir por algum tempo. Ele não se disse preocupado com a divisão entre ele e o ex-presidente Jair Bolsonaro, lembrando que o Brasil já havia sido polarizado entre PSDB e PT durante muitos anos, em disputas que enfrentou contra Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin, este último agora seu vice-presidente.

O presidente também respondeu a questões sobre propostas menores que ganharam repercussão na mídia. Sobre a criação de um "vale carne" para famílias pobres, Lula negou categoricamente a existência de tal programa. Segundo ele, um pecuarista do Mato Grosso do Sul havia entregue uma carta ao ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, que a encaminhou à Casa Civil para estudo. Lula riu da repercussão que a notícia ganhou quando publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Não tem nenhuma explicação os juros da taxa Selic estarem a 11,25%. Não existe nenhuma explicação econômica, nenhuma explicação inflacionária
— Presidente Lula, em entrevista ao SBT
O que ele está contribuindo é para que o povo brasileiro fique mais tempo esperando a oportunidade de trabalhar, de ganhar um pouco a mais de salário
— Presidente Lula, sobre Campos Neto
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o presidente insiste em chamar Campos Neto de "esse cidadão" em vez de usar seu nome?

Model

É uma forma de distância, de desaprovação. Ao não nomear, Lula reduz a pessoa a um cargo que ele vê como problemático. É uma tática retórica que expressa desprezo sem ser diretamente ofensivo.

Inventor

Lula diz que não há explicação econômica para a Selic em 11,25%. Mas o Banco Central tem argumentos técnicos para isso, não tem?

Model

Tem, claro. Mas Lula não está discutindo técnica neste momento. Ele está dizendo que, na sua avaliação política, aqueles argumentos não justificam o custo social que vê nas ruas.

Inventor

O presidente menciona 735 milhões de pessoas sem comida. Isso é um número global ou brasileiro?

Model

É global. Mas ele o invoca para questionar a prioridade do mercado financeiro. A pergunta dele é: por que o mercado não se importa com essa realidade?

Inventor

Lula reconhece que seu governo está "muito aquém" do prometido. Isso é uma admissão de fracasso?

Model

Não exatamente. É uma forma de dizer que o trabalho continua, que há muito a fazer. Ele está pedindo paciência, não confessando derrota.

Inventor

Por que Lula traz à tona a história de polarização PSDB-PT?

Model

Para normalizar o que está acontecendo agora. Ele quer dizer: isso já aconteceu antes, o Brasil sobreviveu, e vai sobreviver novamente. É uma forma de acalmar.

Inventor

A crítica à Petrobras e aos acionistas parece desconectada da crítica a Campos Neto. Há uma conexão?

Model

Sim. Ambas falam sobre prioridades. Para Lula, o sistema financeiro e o mercado de capitais colocam lucro acima de pessoas. Campos Neto, na sua visão, faz o mesmo ao manter juros altos.

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