Nunca houve no país um momento de tanta combinação entre política e inclusão social
Em Brasília, o presidente Lula apresentou à imprensa iniciativas voltadas a trabalhadores invisibilizados pela economia de plataformas e pelas longas estradas do país — entregadores sem moto própria, caminhoneiros sem onde descansar. O anúncio se insere num esforço mais amplo de narrar o Brasil como um país em colheita: PIB acima de 3%, isenção de IR para rendas até R$ 5 mil, e obras como a transposição do São Francisco, que tirou 13 milhões de pessoas da sede mas permanece desconhecida por muitos. O momento revela uma tensão recorrente na política brasileira: a distância entre o que é feito e o que é comunicado.
- Entregadores de aplicativos enfrentam a contradição de sustentar uma economia digital sem ter acesso a crédito para comprar a própria motocicleta de trabalho.
- Caminhoneiros percorrem milhares de quilômetros em rodovias federais sem áreas de descanso adequadas — uma lacuna que o governo agora pretende tornar obrigatória nas novas concessões.
- O preço do gás de cozinha expõe uma cadeia de distribuição que transforma R$ 37 na saída da Petrobras em até R$ 140 na casa do consumidor, e Lula classifica essa diferença como injustiça.
- O presidente reivindica os melhores indicadores econômicos em mais de uma década, mas admite que projetos transformadores como a transposição do São Francisco chegam mal contados à população.
- A articulação na véspera com Haddad, os presidentes do Congresso e líderes governistas sugere que a agenda econômica e social busca sustentação política para avançar.
Na tarde de terça-feira, o presidente Lula recebeu a imprensa no Palácio do Planalto para apresentar um conjunto de iniciativas direcionadas a trabalhadores autônomos e do setor de transporte. O governo estuda uma linha de crédito para que entregadores de aplicativos possam adquirir motocicletas — reconhecendo as dificuldades de quem vive da economia de plataformas sem capital próprio. Além disso, Lula anunciou que futuras concessões de estradas federais deverão incluir obrigatoriamente áreas de descanso para caminhoneiros, suprindo uma ausência histórica nas rodovias brasileiras.
O presidente também mencionou esforços para reduzir o preço do gás de cozinha e criar crédito para reforma de moradias. No caso do gás, Lula criticou a disparidade entre o valor praticado pela Petrobras — cerca de R$ 37 por botijão — e os até R$ 140 cobrados ao consumidor final em alguns estados, descrevendo a diferença como injusta para quem depende do produto no dia a dia.
No campo econômico, Lula destacou o crescimento do PIB acima de 3% no primeiro trimestre de 2025, superando projeções do mercado e repetindo um patamar não visto desde 2010, quando a economia cresceu 7,5%. Citou ainda a isenção de IR para rendas até R$ 5 mil, a medida provisória do setor elétrico e o programa Pé-de-Meia como pilares de uma política que, segundo ele, alia crescimento econômico e inclusão social de forma inédita.
Lula também revisitou a transposição do Rio São Francisco, obra iniciada em seu primeiro mandato, descrevendo-a como possivelmente o maior projeto hídrico do século — responsável por levar água a 13 milhões de pessoas em quatro estados. Ainda assim, reconheceu que a população em grande parte desconhece a dimensão do projeto, atribuindo isso a falhas na comunicação institucional acumuladas ao longo dos anos. A entrevista ocorreu um dia após reunião com o ministro Fernando Haddad, os presidentes da Câmara e do Senado e líderes do Congresso, sinalizando articulação política em torno da agenda do governo.
Sentado no Palácio do Planalto na terça-feira, o presidente Lula apresentou à imprensa um conjunto de iniciativas voltadas para trabalhadores autônomos e de transporte, enquanto reafirmava números que, segundo ele, demonstram o desempenho econômico do país. O governo estuda uma linha de crédito que permitiria entregadores de aplicativos adquirir motocicletas, uma resposta às dificuldades enfrentadas por quem trabalha na economia de plataformas. Ao mesmo tempo, Lula anunciou que todas as futuras concessões de estradas federais incluirão a obrigatoriedade de criar áreas de descanso para caminhoneiros — espaços que hoje faltam nas rodovias brasileiras.
O presidente também mencionou outras duas frentes de trabalho que, segundo ele, recebem atenção especial: uma proposta para reduzir o preço do gás de cozinha e uma linha de crédito destinada à reforma de casas. Sobre o gás, Lula criticou a disparidade entre o preço de venda da Petrobras — cerca de R$ 37 por botijão — e o valor final que chega ao consumidor em alguns estados, onde pode custar até R$ 140. A diferença, em sua avaliação, é injusta com quem depende do produto para cozinhar.
No discurso econômico mais amplo, Lula enfatizou que os indicadores do país estão entre os melhores dos últimos anos. Citou o crescimento do Produto Interno Bruto acima de 3%, superando as projeções do mercado no primeiro trimestre de 2025. Para contextualizar, o presidente lembrou que a última vez que o Brasil havia crescido acima de 3% foi em 2010, durante sua primeira gestão, quando a economia expandiu 7,5%. Ele apontou como evidências dessa trajetória a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, a medida provisória do setor elétrico e o programa Pé-de-Meia.
Segundo Lula, esse crescimento econômico vem acompanhado de aumento de renda e maior inclusão social. Ele afirmou que nunca houve no país um momento em que política econômica e inclusão social estivessem tão alinhadas, gerando simultaneamente mais emprego, mais trabalho e maior distribuição de programas sociais. O presidente descreveu o cenário como uma "colheita muito promissora" resultante do programa implementado por seu governo.
Durante a entrevista, Lula também abordou a transposição do Rio São Francisco, projeto iniciado em sua primeira gestão entre 2003 e 2006. Ele o descreveu como possivelmente o maior projeto hídrico do mundo neste século, beneficiando quatro estados e retirando 13 milhões de pessoas da escassez de água. No entanto, o presidente reconheceu que grande parte da população desconhece a magnitude do projeto, atribuindo isso a falhas na comunicação institucional do Palácio do Planalto ao longo dos anos.
A entrevista ocorreu após uma reunião na noite anterior com o ministro da Fazenda Fernando Haddad, os presidentes da Câmara e do Senado Hugo Motta e Davi Alcolumbre, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais Gleisi Hoffmann e líderes governistas no Congresso. O encontro sinalizava articulação entre os poderes em torno da agenda econômica e social do governo.
Citações Notáveis
Não é justo a Petrobras vender um botijão de gás por R$ 37 e muitas vezes ele chegar em alguns estados por R$ 140— Presidente Lula
A última vez que o Brasil tinha crescido acima de 3% foi em 2010, quando a economia cresceu 7,5%— Presidente Lula
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o governo escolheu focar em crédito para entregadores de aplicativos especificamente?
Porque esses trabalhadores não têm acesso fácil a financiamento tradicional. Uma motocicleta é essencial para o trabalho, mas muitos não conseguem comprar à vista. É uma forma de formalizar e apoiar um segmento que cresceu muito mas permanece vulnerável.
E as áreas de descanso para caminhoneiros — isso é realmente uma novidade?
Não é novidade que faltam. Caminhoneiros dormem em postos de gasolina, em acostamentos. O anúncio é que isso agora será exigência legal em todas as concessões futuras. Muda a obrigação, não a realidade imediata.
Lula mencionou o gás de cozinha. Qual é o problema real ali?
A Petrobras vende por um preço, mas entre a refinaria e a casa do consumidor há intermediários, transportadores, distribuidoras. O preço quadruplica em alguns lugares. É um problema de logística e margem, não apenas de produção.
Ele falou muito de crescimento econômico. Isso é relevante para entregadores e caminhoneiros?
É o argumento dele de que quando a economia cresce, há mais trabalho, mais renda. Mas crescimento macro não garante que chegue até quem trabalha por aplicativo ou dirige caminhão. Por isso os programas específicos.
E a transposição do São Francisco — por que ele trouxe isso à tona agora?
Porque é um projeto que beneficiou 13 milhões de pessoas e poucos sabem disso. Ele reconheceu que o governo não comunicou bem. É também uma forma de dizer: olhem o que já fizemos, não é só promessa.
Qual é o tom geral dessa entrevista?
Otimismo com autocrítica. Números bons, mas admissão de que a comunicação falhou. E promessas de mais programas para trabalhadores específicos. É um presidente em campanha permanente.