Lula alerta para risco de dominação digital na Cúpula de IA na Índia

Quando poucos controlam os algoritmos, não é inovação, é dominação
Lula alertou que a concentração de infraestrutura digital em poucas empresas e países aprofunda desigualdades e ameaça democracias.

Presidente brasileiro critica concentração de algoritmos e infraestrutura digital como forma de dominação que aprofunda desigualdades históricas e ameaça democracia. Lula destaca que 2,6 bilhões de pessoas estão desconectadas digitalmente e que dados de cidadãos são apropriados por conglomerados sem retorno equivalente em renda.

  • Discurso de Lula em Nova Délhi, 19 de fevereiro de 2026, na Cúpula de Impacto de Inteligência Artificial
  • 2,6 bilhões de pessoas desconectadas digitalmente; 660 milhões sem eletricidade em 2030
  • Brasil lançou Plano Brasileiro de Inteligência Artificial em 2025
  • Criação do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial como primeiro órgão científico global sobre o tema

Lula discursa em Nova Délhi alertando sobre riscos da concentração de poder em IA nas mãos de poucos países e empresas, defendendo governança global multilateral e inclusiva para a tecnologia.

Em Nova Délhi, na quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco da Cúpula de Impacto de Inteligência Artificial organizada pelo governo indiano para fazer um alerta que ecoaria além das fronteiras: o mundo está em uma encruzilhada perigosa, onde a quarta revolução industrial avança rapidamente enquanto o multilateralismo recua. E nessa lacuna, disse, cresce o risco de que poucos países e empresas dominem completamente o futuro digital da humanidade.

O discurso de Lula não foi uma celebração da tecnologia, mas um diagnóstico de seus perigos. Ele reconheceu os ganhos reais: a inteligência artificial já melhora a produtividade industrial, os serviços públicos, a medicina, a segurança alimentar e energética. Conecta pessoas de formas antes inimagináveis. Mas as mesmas ferramentas, alertou, podem ser usadas para armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio e violência contra mulheres. Conteúdos falsos gerados ou manipulados por IA distorcem eleições e ameaçam a democracia. O presidente foi direto: os algoritmos não são apenas códigos matemáticos neutros. São estruturas de poder que, sem ação coletiva, tendem a reforçar desigualdades históricas e exploração econômica.

O cerne da preocupação de Lula era a concentração. As capacidades computacionais, a infraestrutura digital e o capital permanecem excessivamente concentrados em poucos países e empresas. Os dados gerados por cidadãos, empresas e governos estão sendo apropriados por um punhado de conglomerados sem que haja retorno equivalente em geração de valor e renda nos territórios de origem. Citando dados da União Internacional de Telecomunicações, Lula lembrou que 2,6 bilhões de pessoas ainda estão desconectadas do universo digital. As projeções mostram que em 2030, ainda haverá 660 milhões de pessoas sem acesso à eletricidade. Nesse contexto, ele fez uma das declarações mais contundentes do discurso: "Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação."

O presidente brasileiro conectou a regulamentação das grandes empresas de tecnologia à proteção de direitos humanos, à integridade da informação e à defesa das indústrias criativas. O modelo de negócios dessas corporações, disse, depende da exploração de dados pessoais, da renúncia ao direito à privacidade e da monetização de conteúdos sensacionalistas que amplificam a radicalização política. Quem participa desse processo, quem é explorado e quem fica à margem será definido pelas regras que forem estabelecidas agora. Colocar o ser humano no centro das decisões é uma tarefa urgente.

No plano doméstico, Lula mencionou que o Congresso Nacional discute políticas de atração de investimentos em centros de dados e um marco regulatório para inteligência artificial. O Brasil lançou em 2025 o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, apresentado como estratégia para modernizar serviços públicos e estimular emprego e renda. Internacionalmente, o presidente citou iniciativas em diferentes blocos: a declaração sobre IA aprovada na Cúpula dos BRICS no Rio de Janeiro, a participação na proposta chinesa de uma Organização Internacional para Cooperação em IA focada em países em desenvolvimento, e o diálogo com a Parceria Global em Inteligência Artificial nascida no G7. Mas deixou claro que nenhum desses espaços substitui o papel universal das Nações Unidas na construção de uma governança global efetivamente multilateral.

Lula destacou dois mecanismos internacionais como avanços relevantes: o Pacto Digital Global aprovado em Nova York em setembro de 2024, e a criação do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial, descrito como o primeiro órgão científico global sobre o tema, reunindo especialistas, fatos e evidências. O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a inteligência artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países.

Ao encerrar, Lula elogiou a tradição intelectual e filosófica da Índia, afirmando que o país oferece referências importantes para enfrentar os dilemas éticos e sociais colocados pela inteligência artificial. Foram matemáticos indianos, lembrou, que legaram ao mundo há mais de dois mil anos o sistema binário que estruturaria a computação moderna. Agora, naquele mesmo solo, o mundo digital retornava para debater um de seus maiores dilemas contemporâneos.

Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação
— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Os algoritmos não são apenas aplicações de códigos matemáticos. São parte de uma complexa estrutura de poder que, sem ação coletiva, aprofundará desigualdades históricas
— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

O presidente falou em "dominação" quando poucos controlam os algoritmos. Mas por que isso é diferente de qualquer outra concentração de poder econômico que já vimos?

Model

Porque os algoritmos não apenas extraem valor — eles moldam como as pessoas pensam, o que veem, em quem confiam. Uma mina de ouro concentrada em poucas mãos é um problema. Mas um sistema que controla a informação que bilhões de pessoas recebem todos os dias é algo diferente. É poder sobre a realidade.

Inventor

Lula mencionou 2,6 bilhões de pessoas desconectadas. Isso não significa que elas estão seguras dessa dominação?

Model

Não. Significa que estão sendo deixadas para trás. Quando a infraestrutura digital se torna essencial para participar da economia, da política, da vida social, estar desconectado é estar excluído. E quem controla essa infraestrutura controla quem entra e quem fica de fora.

Inventor

Ele criticou o modelo de negócios das big techs — exploração de dados, renúncia à privacidade. Mas as pessoas escolhem usar essas plataformas, não escolhem?

Model

Escolhem, sim. Mas a escolha é feita sob pressão. Quando todos seus amigos estão lá, quando seu trabalho exige estar lá, quando a alternativa é isolamento, a escolha deixa de ser livre. E as pessoas muitas vezes não entendem o que estão cedendo.

Inventor

O Brasil lançou um plano de IA em 2025. Isso é suficiente para enfrentar essa concentração global?

Model

Um plano nacional é necessário, mas não é suficiente. O problema é global. Um país pode regular suas empresas, pode investir em infraestrutura, mas se o resto do mundo está sob o controle de três ou quatro corporações americanas e chinesas, o efeito é limitado. Por isso Lula insistiu tanto na governança multilateral.

Inventor

Ele rejeitou a ideia de que fóruns regionais como BRICS ou G7 possam substituir a ONU. Por quê?

Model

Porque fóruns regionais refletem os interesses de seus membros. A ONU, em teoria, representa todos os países, inclusive os pequenos e pobres que não têm poder de barganha em nenhum outro lugar. Se a governança de IA fica restrita a blocos, os países deixados de fora não têm voz.

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