Se os franceses não quiserem, eles não apitam mais nada
Presidente quer crescimento do agronegócio e deseja assinar acordo Mercosul-UE este ano, independentemente da posição francesa. Comissão Europeia tem autoridade para firmar acordo; França não tem poder de veto, segundo Lula.
- Presidente Lula promete assinar acordo Mercosul-UE ainda em 2024
- Diretor do Carrefour, Alexandre Bompard, criticou compra de carnes brasileiras e depois se retratou
- Frigoríficos brasileiros boicotaram Carrefour em resposta às críticas
- Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, tem autoridade final sobre o acordo
Lula declara que acordo Mercosul-UE não depende da França e promete assinatura ainda em 2024, após críticas do Carrefour aos produtos brasileiros.
Na quarta-feira de novembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco do 14º Encontro Nacional da Indústria em Brasília com uma mensagem clara: o Brasil não precisa da aprovação francesa para fechar seu acordo comercial com a União Europeia. A declaração vinha carregada de uma irritação contida, dirigida especialmente ao diretor-executivo do Carrefour, Alexandre Bompard, que dias antes havia criticado publicamente a compra de carnes dos países do Mercosul.
Lula foi direto ao ponto. O agronegócio, disse ele, não é inimigo — é força. E ele quer que continue crescendo, justamente porque isso causa incômodo na França. "Eu quero que o agronegócio continue crescendo e causando raiva num deputado francês", afirmou, referindo-se às críticas de Bompard contra os produtos brasileiros. O tom era de quem já carrega essa negociação há 22 anos e não pretende deixá-la cair agora por pressão de interesses franceses.
O ponto central da fala presidencial era estrutural: a França, segundo Lula, simplesmente não tem poder de veto sobre o acordo. Quem manda, explicou, é a Comissão Europeia. E Ursula von der Leyen, presidente da Comissão, tem a autoridade necessária para assinar o tratado. "Se os franceses não quiserem o acordo, eles não apitam mais nada", disse Lula, usando uma expressão que deixava claro seu desprezo pela tentativa francesa de bloquear a negociação. Ele prometeu assinar o acordo ainda em 2024, tirando o assunto de sua pauta de pendências.
O contexto dessa declaração era a pressão que a indústria francesa vinha exercendo contra o fechamento do acordo. Bompard havia se posicionado contra a compra de carnes do Mercosul, incluindo as brasileiras, em um momento em que setores franceses buscavam impedir a ratificação do texto. A reação foi imediata: frigoríficos brasileiros se mobilizaram para deixar de vender ao Carrefour, inclusive no mercado interno brasileiro. A pressão funcionou. Na terça-feira anterior à fala de Lula, Bompard se retratou publicamente.
O Ministério da Agricultura recebeu o pedido de desculpas e respondeu de forma institucional, reiterando seu compromisso em "esclarecer os fatos" e defendendo a qualidade da produção brasileira. A pasta também ressaltou que o Brasil opera sob "uma das legislações ambientais mais rigorosas do planeta", uma resposta velada às críticas que frequentemente questionam os padrões ambientais da produção agrícola brasileira.
O que Lula deixou claro naquele dia era que o Brasil não vê o agronegócio como um setor a ser contido ou apologizado. Ao contrário: é um setor de força, de crescimento, e que merecia ser celebrado. A irritação francesa, nessa lógica, era um sinal de que o Brasil estava no caminho certo. O acordo com a União Europeia, para Lula, não era uma questão de dinheiro — era uma questão de vontade política e de tempo. E ele tinha ambos.
Notable Quotes
Eu quero que o agronegócio continue crescendo e causando raiva num deputado francês— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Se os franceses não quiserem o acordo, eles não apitam mais nada, quem apita é a Comissão Europeia— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Lula insistiu tanto em dizer que a França não tem poder de veto? Não era óbvio?
Não era óbvio para quem acompanhava a pressão francesa. A indústria francesa estava tentando bloquear o acordo há meses. Lula precisava deixar claro que essa pressão não funcionaria — que havia uma estrutura europeia acima das reclamações nacionais.
E o Carrefour? Por que um varejista francês tinha tanto peso nessa conversa?
Porque o Carrefour é gigante. Ele compra em volume. Quando Bompard disse que não compraria mais carnes do Mercosul, estava sinalizando que a indústria francesa inteira poderia fazer o mesmo. Era uma ameaça comercial real.
Os frigoríficos brasileiros conseguiram forçar um recuo dele?
Conseguiram. Quando começaram a boicotar o Carrefour no Brasil, a empresa percebeu que o custo político e comercial era alto demais. Bompard se retratou em menos de 24 horas.
Mas Lula mencionou que quer o agronegócio crescendo para "irritar" os franceses. Isso não soa como se ele estivesse usando o setor como arma?
Soa, mas é mais nuançado. Lula estava dizendo que o crescimento do agronegócio é legítimo e que não vai freá-lo para agradar a França. A "irritação" é consequência, não objetivo. É uma forma de dizer: vocês não vão nos ditar o que fazer.
E quanto ao compromisso ambiental que o Ministério mencionou?
Era uma resposta defensiva. A crítica francesa sempre toca em questões ambientais. O Brasil respondeu dizendo: nossa legislação é rigorosa, nossa produção é de qualidade. Mas a verdade é que essa é uma batalha que continua.