Se todos os estados fizessem o que Minas está fazendo, o Novo acaba
Em meio a uma viagem à Ásia, o presidente Lula retém o anúncio de sua próxima indicação ao Supremo Tribunal Federal, aguardando o momento certo para uma conversa que vai além da Corte: trata-se de recompor forças políticas em Minas Gerais, estado onde o equilíbrio eleitoral de 2026 já começa a ser disputado nos bastidores. A escolha de Jorge Messias para o STF está condicionada à disposição de Rodrigo Pacheco em concorrer ao governo mineiro, revelando como, no Brasil, as instituições e as estratégias eleitorais raramente caminham em trilhos separados.
- Lula segura deliberadamente o anúncio do novo ministro do STF para não perder alavancagem numa negociação política que considera mais urgente do que a própria vaga na Corte.
- Alcolumbre entra no jogo como negociador, afirmando que 80% do Senado e a maioria dos ministros do Supremo apoiam Pacheco — uma pressão velada sobre Lula para que mude sua escolha.
- O governador Mateus Simões abandona o Novo pelo PSD, gerando revolta interna no partido e expondo a tensão entre pureza ideológica e pragmatismo eleitoral na direita brasileira.
- Pacheco nunca declarou publicamente sua candidatura ao governo de Minas, mas seu silêncio já funciona como moeda de troca numa composição que Lula precisa fechar antes de 2026.
- A privatização da Copasa emerge como novo front de conflito em Minas, com relatório do Citi projetando valorização de 67% nas ações e alertas de que o consumidor pagará a conta nas tarifas.
O presidente Lula decidiu adiar o anúncio de seu próximo indicado ao Supremo Tribunal Federal até retornar da Ásia. O motivo é estratégico: antes de confirmar Jorge Messias, advogado-geral da União, para a vaga na Corte, Lula quer negociar pessoalmente com o senador Rodrigo Pacheco a possibilidade de ele disputar o governo de Minas Gerais. Para Lula, Pacheco como candidato ao governo estadual seria peça fundamental para recompor seu campo político num estado decisivo para 2026.
Davi Alcolumbre, presidente do Congresso, já se posicionou publicamente em favor de Pacheco para o STF, citando apoio de 80% do Senado e da maioria dos ministros da Corte. Alcolumbre tem histórico de negociador duro — em 2021 adiou por quase cinco meses a sabatina de André Mendonça — mas desta vez o tom com Lula não foi de ruptura. Pacheco, por sua vez, nunca declarou publicamente intenção de concorrer ao governo, mas tem consciência do peso de seu nome para uma composição que una direita, centro e esquerda em Minas.
Esse cenário se complica com a migração do governador em exercício Mateus Simões do Novo para o PSD, prevista para o dia 27. A mudança gerou desconforto interno no partido. O deputado Marcel van Hattem criticou a decisão em carta aos parlamentares, argumentando que, se todos os estados fizessem o mesmo, o Novo simplesmente deixaria de existir. Para van Hattem, é inexplicável que em Minas — onde o Novo é governo — não se consiga fazer a engenharia de aliança que funciona em outros estados.
No campo econômico, a deputada estadual Lohanna França alerta que a privatização da Copasa terá como consequência imediata o aumento das tarifas de água e esgoto, citando relatório do banco Citi que projeta valorização de 67% nas ações da companhia e aponta revisão tarifária com elevação do custo regulatório de capital acima de concorrentes como Sabesp e Sanepar.
O presidente Lula está segurando o anúncio de seu próximo indicado para o Supremo Tribunal Federal. Não fará o comunicado enquanto estiver na Ásia. Quando voltar, quer conversar primeiro com o senador Rodrigo Pacheco, do PSD mineiro, porque há um cálculo político maior em jogo: Lula pretende indicar Jorge Messias, advogado-geral da União, para a vaga na Corte, mas só o fará se conseguir convencer Pacheco a disputar o governo de Minas Gerais.
A lógica é clara. Pacheco como candidato ao governo estadual fortaleceria o palanque de Lula em Minas, um estado onde a recomposição das forças políticas se tornou urgente. Davi Alcolumbre, presidente do Congresso Nacional, já entrou na conversa defendendo Pacheco para o STF. Alcolumbre afirma que 80% do Senado Federal apoia o senador mineiro para a Corte. Lembrou também que a maioria dos ministros do Supremo igualmente o sustenta. A indicação, de qualquer forma, precisaria passar pela Comissão de Constituição e Justiça e pelo plenário do Senado.
Alcolumbre tem reputação de negociador inflexível. Em 2021, quando era presidente da CCJ no governo Bolsonaro, adiou por quase cinco meses a sabatina de André Mendonça porque discordava da escolha. Desta vez, porém, a conversa entre Lula e Alcolumbre não foi áspera nem marcada por tom de ruptura. Isso porque Lula considera Pacheco fundamental para convergir as forças políticas em Minas em torno de seu campo. O senador nunca declarou publicamente que será candidato ao governo estadual, mas tem plena consciência do peso de seu nome para uma composição que una setores da direita, do centro e da esquerda.
Essa necessidade de unificação em Minas é real. O governador em exercício, Mateus Simões, é filiado ao Novo mas se filiará ao PSD no dia 27, às 9 da manhã, no Hotel Ouro Minas, com Gilberto Kassab assinando sua ficha. O PSD é uma legenda de centro-direita que abriga tanto forças bolsonaristas quanto lulistas, mas tem na presidência de Kassab um viés de negociação e moderação política. Isso contrasta com o governador Romeu Zema, também do Novo, que abraça o antipetismo radical como estratégia para alcançar 10% de intenção de voto no plano nacional. Para Zema, essa narrativa extrema é tração eleitoral. Para Simões, porém, ela é um risco: pode contaminar a imagem de moderação que ele pretende incorporar, especialmente se precisar conquistar o eleitorado de centro e esquerda em um eventual segundo turno.
A migração de Simões do Novo para o PSD gerou desconforto na legenda. O deputado federal Marcel van Hattem, do Novo pelo Rio Grande do Sul, manifestou surpresa e discordância em carta aos parlamentares do partido. Van Hattem disse que quando Simões veio a Brasília conversar com a bancada, mencionou muitos cenários, mas a ideia de sair do partido parecia distante. Poucos dias depois veio a confirmação, e van Hattem percebeu que todos já estavam "vendidos" na história. Em reunião com dirigentes do Novo de todo o país, todos manifestaram insatisfação com a situação em Minas. Van Hattem questionou a lógica: se todos os estados fizessem o que Minas está fazendo, colocando seu principal nome em outro partido para vencer eleição, o Novo acabaria. Se no Rio Grande do Sul, onde o partido não tem governo, conseguem fazer engenharia de aliança, por que em Minas, onde o Novo É governo, o mesmo não funciona? Para van Hattem, é simplesmente inexplicável.
Enquanto isso, a Fundação Ulysses Guimarães realiza nesta terça e quarta-feira em Brasília o encontro nacional O Brasil precisa pensar o Brasil, que consolidará um documento programático para orientar as diretrizes do MDB em 2026. O programa abordará reformas institucionais, governança, inovação, educação, tecnologia, sustentabilidade, desenvolvimento econômico e políticas sociais. Gabriel Azevedo, presidente municipal do MDB em Minas, será um dos painelistas do debate sobre reforma política e governança pública.
Em outro front, a deputada estadual Lohanna França, do PV, alerta que a privatização da Copasa terá como primeira consequência o aumento das tarifas de água e esgoto. Ela cita relatório do banco Citi que recomendou a compra de ações da companhia, elevando o preço-alvo de R$ 27 para R$ 45, uma valorização de 67%. Os analistas destacaram que entre os parâmetros está a próxima revisão tarifária, com aumento do custo médio ponderado de capital regulatório de 9,15% para 9,42%, válido até 2029. O valor ficou acima da Sabesp e dos 8,08% da Sanepar.
Citas Notables
Quando ele veio a Brasília conversar com a bancada, mencionou muitos cenários e a ideia da saída era algo claramente bastante distante. Na hora que veio a confirmação poucos dias depois de sua vinda, percebi que todos já estavam vendidos na história— Marcel van Hattem, deputado federal do Novo-RS
Se no Rio Grande do Sul, onde não temos governo, estamos conseguindo fazer essa engenharia de aliança, como pode em Minas, onde SOMOS GOVERNO, o mesmo não funcionar? É simplesmente inexplicável— Marcel van Hattem, deputado federal do Novo-RS
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Lula não anuncia logo a indicação para o STF se já tem um nome em mente?
Porque há um jogo maior. Pacheco é peça-chave em Minas, e Lula quer convencê-lo a disputar o governo estadual. Se Pacheco sair candidato, fortalece o palanque de Lula lá. A indicação para o Supremo é a moeda de troca.
Mas Pacheco nunca disse que quer ser governador.
Exato. Ele sabe do peso de seu nome, mas não se comprometeu publicamente. Lula está tentando negociar isso antes de anunciar Jorge Messias para a vaga.
E se Pacheco recusar?
Aí Lula teria que escolher entre indicar Messias mesmo assim ou recuar. Mas Alcolumbre já está na conversa, lembrando que 80% do Senado apoia Pacheco para o STF. É pressão indireta.
Por que Minas é tão importante para Lula?
Porque o estado está fragmentado. Mateus Simões sai do Novo para o PSD, Romeu Zema abraça o antipetismo radical. Lula precisa de alguém que una o centro e a esquerda. Pacheco, jurista respeitado, consegue fazer isso.
E o Novo, como fica?
Furioso. Van Hattem disse que se todos os estados fizessem o que Minas está fazendo, o partido acaba. É uma traição vista como estratégica, mas que enfraquece a legenda.
Isso é negociação ou chantagem?
É política. Lula oferece algo que Pacheco quer — ou que o Senado quer para Pacheco — em troca de algo que Lula precisa. Ninguém está sendo forçado, mas os incentivos estão muito claros.