Talvez não devesse ter falado tão duramente, mas quem semeia ventos colhe tempestades
Num gesto raro para um líder que raramente recua, Alexander Lukashenko pediu desculpas publicamente a Volodymyr Zelensky numa entrevista ao canal Al Arabiya, admitindo ter sido duro demais nas críticas ao presidente ucraniano. O líder bielorrusso reafirmou que Minsk não entrará na guerra ao lado de Moscou, invocando a vulnerabilidade militar do seu país como razão prática. Esta mudança de tom, por mais contida que seja, levanta questões sobre o equilíbrio de forças na Europa de Leste e sobre o que leva um aliado fiel da Rússia a estender, ainda que cautelosamente, a mão ao adversário.
- Lukashenko surpreendeu ao pedir desculpas a Zelensky numa entrevista internacional, quebrando o padrão de hostilidade que marcou os seus discursos desde o início da guerra.
- O gesto gerou imediata desconfiança: a oposição bielorrussa no exílio classificou o pedido de desculpas como encenação calculada, não como arrependimento genuíno.
- O líder bielorrusso tentou equilibrar a abertura com ressalvas, lembrando que Zelensky também teria falado de forma irresponsável sobre a Bielorrússia — 'quem semeia ventos colhe tempestades'.
- Lukashenko reafirmou que a Bielorrússia não participará militarmente no conflito, citando infraestruturas críticas vulneráveis e o risco de arrastar o país para uma guerra no seu próprio quintal.
- A narrativa de Lukashenko aponta para uma paz negociada exclusivamente entre os três povos eslavos, excluindo deliberadamente os Estados Unidos e a Europa do processo.
Alexander Lukashenko raramente recua. Mas numa entrevista ao canal saudita Al Arabiya, o presidente bielorrusso fez algo incomum: pediu desculpas a Volodymyr Zelensky, admitindo que talvez tenha sido duro demais nas críticas ao líder ucraniano. "Se Vladimir Alexandrovich ficou ofendido, peço desculpas pelas minhas palavras", disse, reconhecendo que Zelensky lidera um país em guerra. Ainda assim, não abdicou da sua posição: lembrou que o presidente ucraniano também deveria ter sido mais cuidadoso ao falar sobre a Bielorrússia, invocando o princípio de que quem semeia ventos colhe tempestades.
Sobre a participação bielorrussa no conflito, Lukashenko foi categórico: Minsk não entrará na guerra ao lado da Rússia. A razão é tanto prática quanto política — o país é militarmente vulnerável, com infraestruturas críticas ao alcance das forças ucranianas, e envolver-se seria "absolutamente inaceitável". Negou ainda que Putin desejasse a participação bielorrussa, e insistiu que a guerra acontece no quintal do seu país, expondo-o a riscos tão reais quanto os enfrentados por ucranianos e russos.
A sua visão para o futuro passa por um acordo de paz rápido, negociado apenas entre os três povos eslavos, afastando deliberadamente norte-americanos e europeus do processo. Mas a oposição bielorrussa no exílio rejeitou a narrativa. Sviatlana Tsikhanouskaya recordou que Lukashenko já havia pedido à Ucrânia para se render — e que este pedido de desculpas não reflete arrependimento, mas sim a força demonstrada pela resistência ucraniana. "Isso é o que a força fez. Expôs a fraqueza de uma ditadura construída em mentiras, medos e dependência de Putin", escreveu.
Alexander Lukashenko raramente recua. O presidente bielorrusso, um dos aliados mais firmes da Rússia na Europa, é conhecido por suas declarações cortantes e sua lealdade inabalável a Moscou. Mas numa entrevista ao canal saudita Al Arabiya, Lukashenko fez algo incomum: pediu desculpas a Volodymyr Zelensky e admitiu que exagerou nas críticas ao presidente ucraniano.
"Se Vladimir Alexandrovich ficou ofendido, peço desculpas pelas minhas palavras", disse Lukashenko. Reconheceu que talvez não devesse ter sido tão duro, especialmente considerando que Zelensky lidera um país em guerra. Mas o líder bielorrusso também se defendeu, sugerindo que o presidente ucraniano deveria ter sido mais cuidadoso ao falar sobre a Bielorrússia e sobre ele próprio desde o início da invasão. "Talvez não devesse ter falado tão duramente. Mas também ele deve entender que quem semeia ventos colhe tempestades", sublinhou.
Lukashenko tentou enquadrar sua mudança de tom como compreensão. Descreveu Zelensky como um homem jovem, inexperiente e sob pressão extrema — não um militar, alguém cuja cabeça talvez não estivesse funcionando bem durante o conflito. Ainda assim, insistiu que foi forçado a responder quando começaram a ameaçar a Bielorrússia. O recado era claro: ele estava disposto a estender uma mão, mas apenas até certo ponto.
Sobre a guerra em si, Lukashenko descreveu uma campanha ucraniana que se estende muito além da linha da frente. Segundo ele, os ucranianos estão atacando civis, monumentos históricos e culturais, refinarias de petróleo e fábricas em toda a Rússia, chegando até aos Urais com drones. Mas quando o assunto virou para a Bielorrússia, sua mensagem foi firme: o país não entrará no conflito ao lado de Moscou. "Não se deve esperar qualquer tipo de ação militar da Bielorrússia", afirmou.
A razão que ofereceu foi tanto prática quanto política. A Bielorrússia é militarmente vulnerável, explicou, com infraestruturas críticas ao alcance das forças armadas ucranianas. Arrastar o país para a guerra seria "absolutamente inaceitável". Negou também que Vladimir Putin quisesse que Minsk participasse no conflito. Lukashenko insistiu que a guerra está acontecendo no "quintal" da Bielorrússia e que o país corre riscos tão grandes quanto os ucranianos e os russos.
Sua visão para o futuro era a de um acordo de paz rápido, negociado apenas entre os três povos eslavos — Rússia, Ucrânia e Bielorrússia. Tentou afastar os norte-americanos e europeus do processo, argumentando que a Europa de Leste não lhes é familiar. E procurou tranquilizar: a Ucrânia "não deve temer" a Bielorrússia.
Mas a oposição bielorrussa no exílio não comprou a narrativa. Sviatlana Tsikhanouskaya, líder da oposição em fuga, lembrou que Lukashenko já havia pedido à Ucrânia para se render. Agora, criticou, ele estava a pedir desculpas — uma mudança que ela atribuiu não a arrependimento genuíno, mas à força demonstrada pela resistência ucraniana. "Isso é o que a força fez. Expôs a fraqueza de uma ditadura construída em mentiras, medos e dependência de Putin", escreveu no X. Para Tsikhanouskaya, nenhum pedido de desculpas encenado poderia apagar a cumplicidade de Lukashenko na agressão russa.
Notable Quotes
Se Vladimir Alexandrovich ficou ofendido, peço desculpas pelas minhas palavras— Alexander Lukashenko
Nenhum pedido de desculpas encenado pode eliminar a cumplicidade na agressão— Sviatlana Tsikhanouskaya, líder da oposição bielorrussa no exílio
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Lukashenko mudaria de tom agora, depois de meses de críticas a Zelensky?
Porque a situação no terreno mudou. A Ucrânia está mais forte do que ele esperava, e a Bielorrússia está cada vez mais exposta. Um pedido de desculpas é uma forma de criar distância entre Minsk e Moscou sem romper abertamente com Putin.
Mas ele continua a criticar as ações militares ucranianas. Isso não contradiz o pedido de desculpas?
Não, porque o pedido é sobre o tom, não sobre a substância. Ele está a dizer: "Fui duro demais contigo pessoalmente, mas as minhas preocupações sobre a guerra continuam válidas." É uma distinção importante.
A oposição diz que isto é apenas encenação. Têm razão?
Provavelmente. Mas a encenação em si é significativa. Lukashenko não se vê obrigado a fazer isto. O facto de estar a tentar melhorar a sua imagem perante Zelensky sugere que sente pressão — da Ucrânia, talvez também de outras partes.
E quanto à promessa de que a Bielorrússia não entrará na guerra?
É credível porque é do interesse dele. Entrar significaria destruição certa para o seu país. Mas também é uma forma de dizer a Putin: "Não posso fazer mais do que isto." É um equilíbrio muito frágil.
O que muda se Lukashenko conseguir melhorar as relações com Zelensky?
Muito pouco no curto prazo. Mas no longo prazo, se a guerra terminar, a Bielorrússia precisará de reconstruir relações com o Ocidente. Este pedido de desculpas é o primeiro passo nessa direção.