Sinto que já estou na Lua, mesmo antes de partir
Parmitano será piloto da cápsula Orion na Artemis III, lançada em 2027, representando a ESA numa missão de magnitude sem precedentes. O astronauta tem 366 dias de experiência na ISS, foi comandante de expedição e sobreviveu a um incidente crítico de enchimento de capacete em 2013.
- Luca Parmitano será piloto da cápsula Orion na Artemis III, lançada em 2027
- Único europeu a bordo da missão que levará a humanidade de volta à Lua em 2028
- Tem 366 dias de experiência na Estação Espacial Internacional e foi comandante de expedição
- Em 2013, sobreviveu a um incidente crítico quando água encheu o seu capacete durante uma caminhada espacial
O astronauta italiano Luca Parmitano foi selecionado como piloto da missão Artemis III, tornando-se o único europeu a bordo do programa que levará a humanidade de volta à Lua em 2028.
Luca Parmitano recebeu o telefonema há dez dias. Não estava no seu horizonte. A voz do outro lado da linha disse simplesmente: «Luca, gostaríamos de te ter na missão Artemis III como piloto». Dois dias sem dormir. Depois, uma reunião com título falso — «reorganização do gabinete» — onde entrou numa sala e viu três outros astronautas. O chefe do gabinete de astronautas da NASA sorriu e disse: «Olhem à vossa volta. Esta é a tripulação da Artemis III». Simples. Muitos sorrisos. Parmitano descreve o sentimento como «avassalador», impossível de traduzir em palavras. Sente que já está na Lua.
O astronauta italiano da Agência Espacial Europeia será o piloto da cápsula Orion, o único europeu a bordo de um programa que representa o regresso da humanidade ao satélite natural após mais de meio século. O lançamento está marcado para 2027. Ao seu lado estarão o comandante Randy Bresnik e os astronautas da NASA Frank Rubio e Andre Douglas. A missão durará cerca de duas semanas. Não será uma alunagem — esse privilégio fica reservado para a Artemis IV, em 2028 — mas será, segundo o administrador da NASA Jared Isaacman, uma «operação de magnitude sem precedentes». Parmitano pilotará a nave que testará as capacidades da Orion e coordenará os primeiros exercícios com os módulos lunares desenhados pela SpaceX e pela Blue Origin. Sem esta missão, disse ao Observador, não é possível avançar.
A história de Parmitano é contada há mais de uma década nos corredores da ESA como uma lenda. Em 2013, durante a sua segunda caminhada espacial, água começou a entrar no seu capacete. Começou como gotas no pescoço. Depois encheu-se. Num assunto de minutos, perdeu completamente a visão. Não conseguia ver para onde se movia. Não sabia se a próxima respiração lhe encheria os pulmões de ar ou de líquido. Descreveu-o depois como «uma eternidade». O seu primeiro pensamento foi que tinha partido algo, que era culpado. Contactou a base. A equipa em terra, sem saber qual era o problema, tomou a decisão certa: ordenou-lhe que regressasse. Segundos depois, o capacete encheu-se completamente. Parmitano conseguiu voltar à entrada da Estação Espacial Internacional em segurança. Os companheiros limparam a água à volta da sua cabeça. O diretor-geral da ESA, Josef Aschbacher, recordou este episódio quando anunciou a seleção: «É um relato que diz mais sobre o que é ser astronauta do que qualquer currículo alguma vez seria capaz».
Mas Parmitano não quer ser visto como o homem que quase se afogou no espaço. Quer ser visto como um operador treinado que dispunha das ferramentas necessárias para sair de um ambiente complexo. Veio da área operacional. Antes de ser astronauta, era piloto de testes. Uma vez, durante um exercício, o seu avião ficou parcialmente destruído. Fez uma aterragem de emergência. No dia seguinte, já estava a voar num avião diferente. Em 2013, queria voltar a sair para o espaço logo no dia seguinte. Infelizmente, isso não aconteceu. Mas seis anos depois, quando lhe deram a oportunidade de reparar o Espectrómetro Magnético Alfa, ficou genuinamente feliz. Fez mais quatro caminhadas espaciais. Passou 366 dias na Estação Espacial Internacional. Foi comandante de expedição. Trabalhou ao lado de Christina Koch, uma das astronautas mais experientes da NASA, que se tornou na primeira mulher a abandonar a órbita terrestre durante a Artemis II.
Antes de ser chamado para a Artemis III, Parmitano era o enviado da ESA para o Johnson Space Center em Houston, onde treinava os restantes astronautas europeus para caminhadas espaciais. Agora, o treino começou imediatamente após conhecer o seu novo papel. Assim que terminou a conversa com o Observador, foi direto para o simulador da cápsula Orion. O calendário está muito dinâmico. Começaram há dois dias. Nesta primeira fase, a tripulação tem de se familiarizar extremamente com o sistema da Orion. A nave tem de ser uma extensão do seu corpo. Depois, numa segunda fase, farão simulações conjuntas com a SpaceX e a Blue Origin para aperfeiçoar as manobras de acoplagem. Tudo isto antes do lançamento em 2027.
Parmitano sabe que muitos entusiastas do espaço esperavam que ele fosse pisar a Lua. Mas explica que as expectativas são perigosas. Se se entra neste trabalho com grandes expectativas, acaba-se sempre frustrado, porque a missão seguinte é sempre a mais importante. É tão simples quanto isto. Ele já foi um enorme privilegiado. Tem experiências que muitos astronautas nunca chegarão a ter. Esta é mais uma missão incrivelmente valiosa para ele, onde pode contribuir para construir algo que vai continuar. Não faz isto por fama ou fortuna. Está neste trabalho porque quer contribuir. Sente que tem algo para dar e que consegue fazê-lo bem. Não está preocupado em ver o seu nome nos jornais. Pensa antes no que pode fazer para garantir o melhor resultado possível, permitindo que o próximo astronauta possa ir mais longe. Sente que está numa posição privilegiada para abrir caminho para o futuro.
A ESA já tinha um papel destacado no programa Artemis com a contribuição do módulo de serviço europeu. Mas agora, com Parmitano como piloto, o sinal é claro: a NASA quer dizer aos europeus que estão nisto juntos e que são parceiros fortes e fiáveis. Parmitano sempre disse que compreende a liderança da NASA e que quer ser o copiloto. E agora está, literal e figurativamente, nesse papel. É um belo sinal de cooperação. Conversou com Christina Koch sobre os pequenos detalhes que nunca serão escritos em qualquer livro, mas que são muito importantes. Conversou com Victor Glover, o piloto da Artemis II, sobre como é estar num espaço apertado durante dias. A cápsula Orion é o ambiente, não apenas um meio de transporte. Requer um conjunto diferente de competências. Parmitano, que voou na Soyuz durante seis horas na ida e três no regresso, não tem experiência em espaços apertados. Mas tem 366 dias de experiência em trabalhar com pessoas num ambiente confinado. Foi comandante. Sabe como inspirar. Sabe como criar um ambiente em que todos consigam dar o melhor de si. E sabe que, sem a Artemis III, não conseguem avançar rumo ao regresso à Lua.
Citas Notables
Sem a Artemis III, não conseguimos avançar. É impossível imaginar um caminho rumo ao regresso à Lua sem os testes e o desenvolvimento que vamos aplicar nesta missão.— Luca Parmitano
Sempre dissemos que compreendemos a liderança da NASA e que queremos ser o copiloto. E lá estou eu, literal e figurativamente, nesse papel.— Luca Parmitano
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Quando recebeu o telefonema, qual foi o primeiro pensamento que lhe passou pela cabeça?
Honestamente, pensei que era uma brincadeira. Recebi um telefonema a dizer que queriam que eu fosse piloto da Artemis III, mas ainda assim não dormi durante dois dias. Não estava no meu horizonte. Era absolutamente inesperado.
E depois, quando entrou naquela sala e viu os outros três astronautas?
Nesse momento, tornou-se real. O chefe do gabinete disse: «Esta é a tripulação da Artemis III». Simples, mas com muitos sorrisos. Senti que já estava na Lua.
Muitas pessoas vão lembrar-se do incidente de 2013, quando quase se afogou no espaço. Isso pesa quando pensa nesta nova missão?
Não. O que queria era voltar lá para fora o mais rapidamente possível para terminar o trabalho. Venho da área operacional. Quando algo corre mal, regressas e continuas. É assim que funciona.
Mas desta vez vai estar confinado numa cápsula muito pequena durante duas semanas, não apenas algumas horas.
Exatamente. Por isso conversei com Christina Koch e com Victor Glover sobre como é estar num espaço apertado. A Orion é o teu ambiente, não apenas um meio de transporte. Requer competências diferentes. Mas tenho 366 dias de experiência em trabalhar com pessoas num espaço confinado.
Sente-se preparado para ser piloto e não comandante?
Sinto-me ao serviço da tripulação. O Randy Bresnik tem muita experiência e é meu papel enquanto segundo em comando inspirar-me neste currículo e criar um ambiente em que todos consigam dar o melhor de si. Sempre dissemos que compreendemos a liderança da NASA e que queremos ser o copiloto. E lá estou eu, literal e figurativamente, nesse papel.
Há alguma pressão por não estar a pisar a Lua?
As expectativas são perigosas. Se entramos neste trabalho com grandes expectativas, acabamos sempre frustrados. Sem a Artemis III, não conseguimos avançar rumo ao regresso à Lua. Esta missão é crítica. Sinto que tenho algo para dar e que consigo fazê-lo bem.