Mercado imobiliário se adapta para atender população que envelhece com autonomia

Permitir que a pessoa precise de menos cuidados durante mais tempo
Engenheiro especialista em longevidade resume a filosofia por trás dos novos projetos imobiliários.

54 milhões de brasileiros com mais de 50 anos movimentam R$ 1,8 trilhão anualmente, criando oportunidade de mercado em expansão. Novos projetos priorizam autonomia com sensores inteligentes, pisos antiderrapantes e proximidade de serviços, não apenas barras de apoio.

  • 54 milhões de brasileiros com mais de 50 anos movimentam R$ 1,8 trilhão anualmente
  • Déficit estimado entre 600 mil e 1,2 milhão de unidades de moradia adaptada no país
  • Apenas 1% a 4% dos brasileiros têm condições financeiras de acessar esses imóveis
  • Preço do metro quadrado é 20% a 40% mais alto que imóveis similares convencionais

Incorporadoras brasileiras investem em moradias adaptadas para pessoas 50+, com tecnologia de monitoramento e áreas de convivência. Demanda é impulsionada por envelhecimento acelerado e maior expectativa de vida.

O mercado imobiliário brasileiro está vivendo uma transformação silenciosa, mas inexorável. Depois de décadas construindo apartamentos e casas para famílias com crianças pequenas, incorporadoras agora reorientam seus projetos para pessoas de 50, 60 e 70 anos — uma população que não quer apenas envelhecer, mas envelhecer em casa, com independência e segurança.

A mudança é impulsionada por números que não mentem. Cerca de 54 milhões de brasileiros têm mais de 50 anos e movimentam aproximadamente R$ 1,8 trilhão por ano. Famílias menores, mais divórcios e uma expectativa de vida crescente criaram uma nova classe de moradores: pessoas que trocam casarões por apartamentos menores, que buscam bairros onde seja possível caminhar até o mercado, a padaria, a farmácia. Milton Torrez Moran, 56 anos, e sua esposa Mercês Celia Barbosa, também 56, viveram décadas em uma casa construída sobre a laje do sogro. Quando decidiram se mudar para um condomínio em Santo André, no ABC paulista, buscavam exatamente isso: praticidade, menos estresse, a possibilidade de resolver a rotina a pé.

O que surpreende até empresas especializadas é a velocidade dessa mudança. Luciano Zuffo, empresário no Rio Grande do Sul que desenvolve projetos imobiliários para idosos, viu suas premissas serem completamente revistas em poucos anos. Quando começou, estudos indicavam que cerca de 80% dos moradores seriam acamados. Hoje, 75% de seus residentes são totalmente independentes, ativos e autônomos. A indústria estava preparada para cuidar de pessoas frágeis. O mercado real exige algo diferente.

Os novos projetos refletem essa compreensão. Escadas dão lugar a ambientes integrados. Sensores de monitoramento, tecnologia para detecção de quedas e áreas de convivência começam a substituir os equipamentos tradicionais de lazer. O engenheiro civil Norton Mello, especialista em longevidade, resume o equívoco mais comum: acreditar que uma moradia preparada para o envelhecimento se resume a barras de apoio e corredores mais largos. O verdadeiro sucesso, ele afirma, está em permitir que a pessoa precise de menos cuidados durante mais tempo. Os detalhes importam. O piso vinílico, por exemplo, é escolhido porque oferece aderência suficiente para a marcha sem ser escorregadio. Os armários ficam mais baixos. As portas, mais largas. A iluminação, reforçada. Tudo pensado para reduzir quedas, que são a principal preocupação de metade dos entrevistados em uma pesquisa da Brain Inteligência Estratégica.

Mas a segurança física é apenas parte da história. Os projetos mais recentes incorporam espaços para estimulação cognitiva e convivência social — dois fatores cada vez mais associados ao envelhecimento saudável. Milton Bigucci Junior, diretor técnico da MBigucci, observa que os espaços mais procurados são hortas elevadas, spas, academias, quadras de beach tênis, minimercados e áreas de descanso integradas ao paisagismo. Os clientes dessa faixa etária querem independência sem abrir mão do convívio social e da segurança. Segundo a pesquisa, 37% dos entrevistados têm interesse em morar ou investir em empreendimentos voltados ao público maduro. Apenas 12% cogitam viver em instituições especializadas.

O grande obstáculo, porém, é financeiro. Apenas entre 1% e 4% dos brasileiros têm condições de deixar sua moradia atual para se mudar para um empreendimento planejado especificamente para a longevidade. Os diferenciais de espaço privativo, área comum e serviços elevam entre 20% a 40% o valor do metro quadrado sobre imóveis similares nas mesmas regiões. Além disso, os bancos dificultam o financiamento para essa faixa etária. Os prazos são menores para compradores acima dos 50 anos porque o seguro habitacional obrigatório costuma limitar a soma entre idade e prazo do contrato a 80 anos e seis meses. Marcia Amyuni, 62 anos, psicóloga aposentada, conseguiu financiar seu imóvel em 22 anos pela Caixa Econômica Federal — algo que ela mesma achava improvável. Ela continua trabalhando porque o benefício seria insuficiente para manter seu padrão de vida. Seu plano é trabalhar menos, investir, viajar e aproveitar a vida. "É o hoje. Não dá para esperar ficar velhinha", afirma.

O déficit de moradias adaptadas é estimado entre 600 mil e 1,2 milhão de unidades no país. São Paulo e sua região metropolitana concentram demanda reprimida superior a 250 mil unidades. Embora o Brasil esteja distante do estágio observado em mercados como Estados Unidos, Canadá, Austrália e parte da Europa, a pressão demográfica é irreversível. Daline Moura Hällbom, CEO da Söderhem, empresa sueco-brasileira especializada em soluções habitacionais para o público maduro, observa que muitos projetos brasileiros ainda misturam conceitos diferentes. Países como Suécia, Dinamarca e Noruega desenvolveram modelos específicos para pessoas plenamente independentes, sem relação com instituições de saúde ou cuidados assistenciais. O Brasil tem uma população ativa, saudável, com sede de viver, e que está cansada de ser tratada como adolescente ou como idoso. Para Norton Mello, o mercado ainda está em fase de acomodação, mas o que virá primeiro é a percepção do incorporador de que o ciclo tradicional do mercado imobiliário está se esgotando. No segmento de senior living, não há esse tipo de obstáculo. É uma pressão demográfica que só vai crescer.

Quando montamos a operação, os estudos indicavam que cerca de 80% dos moradores seriam acamados. Hoje, 75% dos nossos moradores são totalmente independentes, ativos e autônomos
— Luciano Zuffo, empresário imobiliário no Rio Grande do Sul
O sucesso não está em oferecer mais cuidados, mas em permitir que a pessoa precise de menos cuidados durante mais tempo
— Norton Mello, engenheiro civil especialista em longevidade
É o hoje. Não dá para esperar ficar velhinha
— Marcia Amyuni, psicóloga aposentada
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que as incorporadoras demoraram tanto para perceber essa mudança?

Model

Porque durante décadas o mercado imobiliário foi construído em torno de uma narrativa específica: a família nuclear com filhos pequenos. Quando essa estrutura começou a mudar — famílias menores, mais divórcios, pessoas vivendo mais — a indústria continuou construindo o mesmo produto. Só agora percebem que estão perdendo um mercado imenso.

Inventor

E por que a maioria das pessoas ainda não consegue acessar essas moradias?

Model

Porque o custo é alto. Quando você adiciona sensores inteligentes, áreas de convivência, proximidade de serviços, o preço sobe entre 20% e 40%. Para uma população que já está aposentada ou próxima disso, isso é proibitivo. Apenas 1% a 4% dos brasileiros têm condições financeiras de fazer essa mudança.

Inventor

Então é um mercado só para ricos?

Model

Por enquanto, sim. Mas há algo importante acontecendo: pessoas como Marcia Amyuni, que é psicóloga aposentada, estão conseguindo financiamentos. Ela conseguiu 22 anos de prazo quando achava que não conseguiria nada. O sistema está começando a se adaptar, lentamente.

Inventor

O que mais surpreendeu os especialistas nessa transformação?

Model

Que as pessoas não querem ser cuidadas. Luciano Zuffo esperava que 80% de seus moradores fossem acamados. Descobriu que 75% são totalmente independentes e ativos. O mercado estava preparado para oferecer cuidados. O que as pessoas querem é autonomia.

Inventor

E como isso muda o design dos imóveis?

Model

Muda tudo. Não é mais sobre barras de apoio. É sobre pisos que não escorregam, armários mais baixos, hortas elevadas, salas de cinema, espaços para convivência. É sobre permitir que a pessoa precise de menos cuidados durante mais tempo, não mais cuidados.

Inventor

Isso vai se expandir?

Model

Tem que se expandir. Há um déficit estimado entre 600 mil e 1,2 milhão de unidades no país. A pressão demográfica é irreversível. O que está acontecendo agora é apenas o começo.

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