Longevidade, clima, IA e regulação redesenham futuro dos seguros em Portugal

Os seguros do futuro serão inevitavelmente diferentes dos do passado
Galamba de Oliveira argumenta que os riscos enfrentados por famílias e empresas estão em transformação contínua.

No limiar de uma era marcada por incertezas demográficas, climáticas e tecnológicas, o setor segurador português é convocado a repensar a sua própria essência. Em Lisboa, o presidente da Associação Portuguesa de Seguradores alertou que o envelhecimento silencioso da população, a violência crescente dos fenómenos naturais e a aceleração da inteligência artificial não são apenas desafios operacionais — são convites à reinvenção do contrato social entre seguradoras e cidadãos. O que está em causa não é apenas a sustentabilidade de um setor, mas a capacidade coletiva de uma sociedade absorver os riscos que o futuro já está a produzir.

  • Metade das habitações portuguesas permanece sem cobertura para riscos naturais, e apenas 18% estão protegidas contra sismos — numa das regiões europeias mais expostas a essa ameaça.
  • A tempestade Kristin causou 1,3 mil milhões de euros em perdas, sinalizando que os eventos climáticos extremos já ultrapassaram a capacidade de resposta dos modelos tradicionais de seguro.
  • Portugueses com 40 anos hoje poderão enfrentar uma queda superior a 50% entre o último salário e a primeira pensão, tornando urgente a criação de produtos de poupança complementar adaptados ao ciclo de vida.
  • O excesso de regulação europeia pesa sobre a competitividade do setor, tendo já levado grandes operadoras como a Liberty a abandonar o mercado português e outros mercados europeus.
  • Insurtechs, seguros embedded e inteligência artificial emergem não como ameaças, mas como instrumentos de transformação que as seguradoras tradicionais precisam de abraçar para sobreviver e crescer.

No Marketeer Seguros Summit 2026, realizado na Católica Lisbon School of Business & Economics, José Galamba de Oliveira, presidente da APS, identificou três forças que estão a redesenhar o setor segurador português: o envelhecimento da população, as alterações climáticas e a revolução tecnológica. Em 2025, as seguradoras pagaram 9,3 mil milhões de euros em indemnizações, cobrindo desde veículos a exportações — mas os números revelam também as lacunas: metade das habitações portuguesas continua desprotegida.

O envelhecimento demográfico é talvez o desafio mais silencioso. Com uma das mais baixas taxas de natalidade da Europa e uma esperança de vida crescente, muitos portugueses de 40 anos enfrentarão, na reforma, uma quebra superior a 50% face ao último salário. A APS defende incentivos fiscais mais robustos, mecanismos de adesão automática a planos de poupança e uma nova geração de produtos híbridos que combinem vida, saúde, dependência e cuidados prolongados.

As alterações climáticas já produzem efeitos devastadores e imediatos. A tempestade Kristin causou 1,3 mil milhões de euros em perdas, e apenas 18% das habitações dispõe de proteção contra sismos. Galamba de Oliveira saudou o avanço de um sistema nacional de proteção contra riscos catastróficos e sublinhou que cada euro investido em prevenção pode gerar poupanças de cinco euros em perdas futuras.

A digitalização transforma também a relação com os consumidores: mais informados, equipados com comparadores e ferramentas de IA, os clientes reduzem a assimetria de informação que durante décadas favoreceu as seguradoras. A resposta do setor passa por ofertas mais personalizadas, modelos colaborativos com insurtechs e seguros embedded integrados no quotidiano — à semelhança do que a Tesla já faz com os seus veículos. O ambiente regulatório europeu, porém, pesa sobre a competitividade, tendo levado operadoras como a Liberty a abandonar o mercado. Perante tudo isto, reinventar produtos e modelos de distribuição deixou de ser uma opção — tornou-se uma condição de sobrevivência.

Na abertura do Marketeer Seguros Summit 2026, realizado na Católica Lisbon School of Business & Economics em Lisboa, José Galamba de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Seguradores, traçou um retrato do setor segurador português em transformação. Três forças estão a redesenhar o mercado nos próximos anos: o envelhecimento da população, a intensificação dos fenómenos climáticos extremos e a revolução tecnológica impulsionada pela inteligência artificial. Cada uma delas exige que as seguradoras repensem radicalmente os produtos que oferecem e a forma como os distribuem.

O peso do setor na economia portuguesa é já considerável. Em 2025, as seguradoras pagaram 9,3 mil milhões de euros em indemnizações e reembolsos, entre coberturas de vida e não vida. Existem atualmente 9,3 milhões de veículos segurados no país, com cerca de 1,2 milhões de sinistros automóveis processados anualmente. No segmento habitacional, 3,4 milhões de casas têm cobertura, o que significa que aproximadamente metade das habitações portuguesas permanece desprotegida. Nas exportações, mais de 57,4 mil milhões de euros em vendas estão cobertos por seguros de crédito, um instrumento particularmente crítico para as empresas que vendem para o exterior. Estes números revelam não apenas a dimensão do setor, mas também o seu papel social: ajudar famílias e empresas a recuperarem a normalidade após acontecimentos inesperados.

O envelhecimento demográfico representa talvez o desafio mais silencioso, mas também mais profundo. Portugal combina uma das mais baixas taxas de natalidade da Europa com uma esperança média de vida em contínuo aumento. Galamba de Oliveira alertou que muitos portugueses que hoje têm 40 anos enfrentarão, quando chegarem à reforma, uma queda superior a 50% entre o último salário e a primeira pensão. A resposta, segundo a APS, passa por fortalecer a poupança complementar através de produtos de reforma adaptados ao ciclo de vida dos clientes, permitindo maior exposição ao risco em fases mais jovens e evoluindo para modelos conservadores com a idade. A associação defende também incentivos fiscais mais robustos e mecanismos de "auto enrolment", já utilizados noutros mercados europeus, que integram automaticamente os trabalhadores em planos de poupança para a reforma, deixando-lhes a opção de sair. Paralelamente, será necessário desenvolver uma nova geração de produtos híbridos que combinem coberturas de vida, saúde, dependência e cuidados prolongados, respondendo às necessidades de uma população cada vez mais envelhecida.

Se a longevidade é um desafio gradual, as alterações climáticas já produzem efeitos visíveis e devastadores. A tempestade Kristin exemplifica esta realidade: causou perdas económicas de 1,3 mil milhões de euros, um valor que supera o total das indemnizações pagas pelo setor por catástrofes naturais em muitos períodos anteriores. Mas o problema não se resume apenas à magnitude dos danos. Metade das habitações portuguesas não possui qualquer cobertura para fenómenos naturais, e apenas cerca de 18% dispõe de proteção contra risco sísmico, apesar de o país apresentar elevada exposição a estes fenómenos, especialmente na região de Lisboa e Vale do Tejo. Portugal enfrenta assim um "protection gap" significativo, a diferença entre os riscos existentes e aqueles que estão efetivamente segurados. Galamba de Oliveira saudou o avanço do projeto de criação de um sistema nacional de proteção contra riscos catastróficos, uma solução defendida há vários anos pelo setor que poderia envolver cidadãos, empresas, autarquias, Estado e seguradoras numa lógica de partilha de responsabilidades. Além da resposta financeira aos sinistros, o presidente da APS destacou o papel crescente da prevenção: estudos internacionais mostram que cada euro investido em prevenção pode gerar poupanças de cinco euros em perdas futuras.

A terceira transformação está ligada à digitalização e à inteligência artificial. Durante décadas, a informação esteve concentrada nas seguradoras e nos mediadores. Hoje, os consumidores apresentam-se cada vez mais preparados, com fácil acesso a ferramentas de IA, comparadores online e canais digitais que reduziram significativamente a assimetria de informação no mercado. Esta evolução obriga as seguradoras a reinventar a forma como comunicam, distribuem produtos e interagem com os clientes. Simultaneamente, a capacidade de recolher e analisar dados permite desenvolver ofertas cada vez mais segmentadas e personalizadas, ajustadas a perfis específicos de consumidores, estilos de vida e padrões de utilização.

Outra realidade que não pode ser ignorada é o ambiente regulatório europeu. Portugal está inserido numa Europa de "muita regulação", como sublinhou Galamba de Oliveira, mostrando a diversa regulação que o setor é obrigado a cumprir. Isto tem um peso brutal em termos de compliance, controlos internos, custos, procedimentos e processos. Embora não seja um tema exclusivamente português, coloca um peso operacional significativo e alguma desvantagem competitiva quando comparado com o setor segurador americano ou asiático. Isto explica, inclusive, por que algumas grandes empresas americanas estão a abandonar o mercado europeu, como foi o caso recente da Liberty, que saiu de Portugal e de outras geografias europeias porque, segundo o responsável, não queriam trabalhar com este ambiente regulatório.

Para responder a esta conjuntura, a inovação passará cada vez mais por modelos colaborativos. As insurtechs deixam de ser vistas como concorrentes e tornam-se parceiras capazes de acelerar a transformação digital das seguradoras tradicionais. Os seguros embedded deverão ganhar relevância crescente, com coberturas integradas diretamente na compra de produtos e serviços. A Tesla oferece um exemplo: associa automaticamente soluções de seguro aos seus veículos. Esta tendência deverá estender-se a viagens, equipamentos tecnológicos, mobilidade e outros serviços do quotidiano. Apesar da evolução tecnológica, Galamba de Oliveira considera que as seguradoras continuarão a desempenhar um papel relevante, contribuindo para uma sociedade sustentável, mais segura, mais resiliente e capaz de absorver os riscos que ocorrem no dia-a-dia. Os seguros não são apenas um mecanismo de compensação financeira após um sinistro, mas uma ferramenta de resiliência económica e social. Perante um cenário marcado pelo envelhecimento populacional, pela crescente frequência de fenómenos extremos e pela aceleração tecnológica, o setor segurador terá de reinventar produtos, modelos de distribuição e estratégias de prevenção. Se os riscos do futuro serão diferentes dos de hoje, os seguros também terão de ser.

Estes dados mostram a relevância e a importância do setor segurador e o papel social que desempenham em ajudar quem tem um infortúnio a recuperar mais rapidamente a normalidade nas suas vidas
— José Galamba de Oliveira, presidente da APS
Isto tem um peso brutal em termos de compliance, em termos de controlos internos, custos, procedimentos, processos
— José Galamba de Oliveira, sobre o ambiente regulatório europeu
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Quando Galamba de Oliveira fala em "protection gap", está a descrever um problema de mercado ou um problema de sociedade?

Model

É ambos, mas começa como um problema de sociedade. Metade das casas portuguesas não têm seguro para fenómenos naturais. Isto significa que quando chove muito ou há um sismo, as pessoas perdem tudo e o Estado tem de intervir. Para as seguradoras, é um mercado inexplorado. Para as famílias, é vulnerabilidade pura.

Inventor

E a longevidade? Parece-me que é um problema que as seguradoras criaram para si mesmas — vivemos mais tempo, portanto precisamos de mais proteção.

Model

Não é bem assim. O problema é que os sistemas de pensões foram desenhados para uma vida mais curta. Agora um português de 40 anos pode perder metade do seu rendimento quando se reforma. As seguradoras têm de oferecer produtos que permitam às pessoas poupar mais cedo e de forma mais inteligente. Mas isto exige uma mudança cultural — as pessoas têm de querer poupar para a reforma.

Inventor

A regulação europeia parece ser um fardo. Por que não Portugal sai da Europa?

Model

Porque a regulação também protege. O problema é que é muito pesada e coloca as seguradoras europeias em desvantagem face aos americanos e asiáticos. Mas não é sobre sair — é sobre encontrar um equilíbrio. A Liberty saiu porque o custo de compliance era maior que o lucro. Isso é um aviso.

Inventor

As insurtechs são realmente parceiras ou é apenas uma forma de as seguradoras tradicionais não desaparecerem?

Model

São parceiras porque têm capacidades que as seguradoras tradicionais não têm — velocidade, tecnologia, flexibilidade. Mas as seguradoras têm escala, confiança, capital. Juntas, conseguem fazer coisas que sozinhas não conseguem. A Tesla não precisa de uma seguradora tradicional para vender seguros — precisa de alguém que saiba gerir risco em larga escala.

Inventor

O que é que muda realmente para o consumidor?

Model

Tudo. Os seguros deixam de ser algo que compras quando precisas e passam a estar integrados no teu dia-a-dia. Compras um carro e o seguro vem com ele. Viajas e o seguro está lá. E porque as seguradoras têm mais dados sobre ti, conseguem oferecer preços e coberturas mais justos. Mas isto também significa menos privacidade.

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