Novo livro relê clássicos do pensamento brasileiro pela perspectiva espacial

O Brasil é pensado como terra, mas é também mar
Feldman argumenta que o pensamento brasileiro historicamente negligencia a dimensão marítima na interpretação da formação nacional.

Um diplomata acostumado a cruzar fronteiras propõe que o Brasil seja relido não pelo eixo do conservadorismo e do progresso, mas pelo do mar e do sertão. Luiz Feldman lança em Brasília um ensaio que reposiciona pensadores canônicos como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda sob uma lente geográfica, sugerindo que o pensamento nacional sempre privilegiou o interior continental em detrimento da dinâmica oceânica. A mudança de critério parece pequena, mas ao deslocar a pergunta — de 'qual é a ideologia desta obra?' para 'qual é o seu horizonte espacial?' — abre um novo mapa para compreender quem somos.

  • A leitura ideológica dos clássicos brasileiros, dividida entre conservadores e progressistas, começa a ser contestada por uma chave interpretativa radicalmente diferente: a geografia.
  • Feldman identifica uma ausência perturbadora — o mar quase não aparece nas grandes explicações do Brasil, como se o país fosse apenas terra, sertão e interior.
  • A proposta organiza os mesmos autores de sempre em duas linhagens inéditas: pensadores do mar e pensadores do sertão, embaralhando certezas acadêmicas consolidadas.
  • O livro, resultado de anos de artigos publicados em revistas científicas, chega ao debate público com potencial de reposicionar autores canônicos e reacender discussões sobre identidade e território.
  • O lançamento na Livraria Circulares, em Brasília, reuniu leitores dispostos a encarar o Brasil não apenas como país de terra, mas também como nação de costas e oceanos.

Um diplomata que vive entre países e fronteiras percebeu algo que os leitores habituais dos clássicos brasileiros talvez tivessem deixado escapar: que a forma como interpretamos o Brasil tem menos a ver com ideologia do que com geografia. Com o mar e o sertão. É essa intuição que move o livro Mar e sertão — Ensaio sobre o espaço no pensamento brasileiro, lançado por Luiz Feldman nesta quinta-feira em Brasília.

A obra reúne ensaios que propõem reler Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Manoel de Oliveira Lima não pelo filtro político tradicional, mas pelo da geografia. Em vez de uma linhagem conservadora e outra progressista, Feldman sugere que temos pensadores do mar e pensadores do sertão — os mesmos autores, as mesmas obras, mas lidos através de uma pergunta diferente: para qual horizonte espacial cada um deles apontava?

Para Feldman, a mudança revela algo que o pensamento brasileiro tende a obscurecer: uma predominância quase absoluta das explicações de base continental. O Brasil, quando pensado, é pensado como terra, como interior. Euclides da Cunha e Os sertões são o exemplo mais evidente dessa tradição. O que falta, argumenta o autor, é o contrabalanceamento — a costa, o oceano, a dinâmica marítima que também moldou a formação nacional.

Publicado pela Topbooks com 312 páginas, o livro reúne artigos que Feldman desenvolveu ao longo de anos em revistas científicas brasileiras e internacionais. O lançamento aconteceu na Livraria Circulares, em Brasília, onde leitores puderam conversar com o autor sobre essa outra forma de ver o país. Ao mudar o critério, a proposta muda tudo.

Um diplomata decide reler os clássicos. Não para encontrar neles o que já se esperava encontrar — conservadorismo aqui, progressismo ali — mas para escutá-los de outra forma. Luiz Feldman, que passa a vida entre países e fronteiras, percebeu algo que os leitores habituais desses textos talvez tivessem deixado passar: que a forma como interpretamos o Brasil, a forma como nossos grandes pensadores o interpretaram, tem menos a ver com ideologia política do que com geografia. Com o espaço. Com o mar e o sertão.

O livro que Feldman lançou nesta quinta-feira, intitulado Mar e sertão — Ensaio sobre o espaço no pensamento brasileiro, reúne ensaios que propõem exatamente isso: uma releitura de Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Manoel de Oliveira Lima não pelo filtro tradicional da política, mas pelo da geografia. "Os estudos sobre as interpretações do Brasil costumam se pautar por um critério de ideologia política para classificar essas obras", observa Feldman. Algumas são tidas como conservadoras, outras como progressivas, outras ainda como intermediárias. É o jeito comum de organizar essas leituras. Mas e se houvesse outro jeito?

A proposta é simples e radical ao mesmo tempo. Em vez de uma linhagem progressista e uma conservadora, Feldman sugere que temos uma linhagem de pensadores do mar e outra do sertão. Os mesmos autores, as mesmas obras, mas lidas através de uma pergunta diferente: como cada um deles enxergava o espaço brasileiro? Para qual horizonte apontavam? O que priorizavam na explicação da formação nacional — a dinâmica terrestre ou a marítima?

Para Feldman, essa mudança de perspectiva não é apenas uma curiosidade acadêmica. Ela revela algo que o pensamento político e social brasileiro tende a obscurecer: uma predominância quase absoluta das explicações de base continental. O Brasil, quando pensado, é pensado como terra. Como interior. Como sertão. Euclides da Cunha, com Os sertões, é o exemplo mais evidente — obra canônica, amplamente lida, profundamente terrestre. Mas há um peso muito grande nessa dinâmica, uma ausência de contrabalanceamento. "Quando a gente adota o critério de espaço, podemos repensar essas obras sobre a formação do Brasil em função de uma discussão sobre qual foi a natureza espacial da formação do Brasil", diz Feldman.

O livro, publicado pela Topbooks com 312 páginas, reúne artigos que Feldman publicou em revistas científicas brasileiras e internacionais ao longo de seus estudos. Não é um trabalho apressado ou superficial. É uma proposta construída, testada, refinada. E o lançamento aconteceu na Livraria Circulares, em Brasília, onde leitores interessados em repensar como lemos nossos clássicos puderam encontrar o autor e conversar sobre essa outra forma de ver o Brasil — não mais apenas como um país de terra, mas como um país que é também mar, que é também costa, que é também dinâmica oceânica. Uma releitura que, ao mudar o critério, muda tudo.

Os estudos sobre as interpretações do Brasil costumam se pautar por um critério de ideologia política para classificar essas obras
— Luiz Feldman
Se o critério de organização do pensamento brasileiro se torna o espaço, nós classificamos os autores de forma diferente. Em vez de ter uma linhagem progressista ou conservadora, passamos a ter uma linhagem de pensadores de mar e uma do sertão
— Luiz Feldman
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que você acha que a gente sempre leu esses autores pela política e não pelo espaço?

Model

Porque a política é mais óbvia. Você abre um livro e vê logo se o autor é conservador ou progressista. Mas o espaço está ali o tempo todo, estruturando o pensamento, e a gente não vê.

Inventor

E o que muda quando você começa a ver?

Model

Tudo. De repente Nabuco e Freyre não estão em lados opostos de uma linha política. Eles estão em lados opostos de uma linha geográfica. Um olha para o mar, o outro para o sertão. São perguntas diferentes.

Inventor

Mas por que o sertão ganhou tanto?

Model

Porque é mais fácil explicar o Brasil como terra. O interior, a profundidade, o povo do sertão — isso virou a narrativa. O mar ficou de fora. Euclides da Cunha é o exemplo perfeito: todo mundo lê Os sertões, ninguém lê sobre a costa.

Inventor

Isso muda como a gente entende a formação do Brasil?

Model

Completamente. Se você só pensa em dinâmicas terrestres, você perde metade da história. O Brasil é também um país de litoral, de comércio marítimo, de conexões oceânicas. Ignorar isso é ignorar uma dimensão inteira.

Inventor

Você acha que outros países têm esse mesmo problema?

Model

Provavelmente. Mas cada país tem sua própria cegueira geográfica. A nossa é continental. Outros podem ser o oposto.

Fale Conosco FAQ