Lenacapavir: a injeção semestral que previne HIV sem ser vacina

O HIV matou 9.157 pessoas no Brasil em 2024, segundo o Ministério da Saúde, afetando especialmente grupos vulneráveis como pessoas em situação de rua e profissionais do sexo.
Reduzir 365 comprimidos para duas injeções anuais elimina o erro humano
Infectologista explica por que o lenacapavir resolve o principal problema da PrEP oral: o esquecimento.

No Brasil, onde o HIV ainda ceifou mais de nove mil vidas em 2024, a Anvisa aprovou o lenacapavir — um antirretroviral injetável capaz de oferecer proteção semestral contra o vírus com eficácia próxima à totalidade. A aprovação representa um avanço simbólico e científico significativo, mas a distância entre a autorização regulatória e o acesso universal pelo SUS revela, uma vez mais, que a medicina avança mais rapidamente do que as estruturas que deveriam democratizá-la. O destino do medicamento no sistema público dependerá de negociações de preço, pressão diplomática e, talvez, da disposição do Estado de exercer soberania sobre patentes em nome da saúde coletiva.

  • Com 9.157 mortes por HIV registradas em 2024, o Brasil recebe a aprovação do lenacapavir como uma resposta urgente a um problema que nunca deixou de ser grave.
  • O medicamento exige apenas duas injeções por ano, eliminando o esquecimento diário que sabota a PrEP oral e abrindo caminho para grupos historicamente excluídos da prevenção eficaz.
  • Mulheres cis, adolescentes, pessoas em situação de rua e profissionais do sexo — justamente os mais vulneráveis — são os que mais ganhariam com a simplicidade e discrição do tratamento semestral.
  • O preço de US$ 28 mil por pessoa nos Estados Unidos ergue uma muralha entre a aprovação e o acesso: o Brasil não foi incluído no acordo de genéricos firmado pela fabricante Gilead.
  • O governo brasileiro avalia três caminhos — negociação diplomática, licenciamento compulsório ou barganha por volume — enquanto o processo formal de incorporação ao SUS sequer foi iniciado.

O Brasil registrou 9.157 mortes por HIV em 2024, e o vírus continua circulando apesar das políticas reconhecidas internacionalmente. Nesta semana, a Anvisa aprovou o lenacapavir, comercializado como Sunlenca — um antirretroviral injetável que oferece proteção contra o HIV por até seis meses com apenas duas aplicações anuais.

O medicamento não é uma vacina. Enquanto vacinas ensinam o sistema imunológico a produzir anticorpos, o lenacapavir bloqueia diretamente a replicação do vírus ao inibir seu capsídeo — a cápsula protetora que o envolve. Sua eficácia depende da presença contínua do remédio no organismo. Quando cessa a circulação, cessa o efeito.

O Brasil já oferece PrEP oral pelo SUS — comprimidos diários ou sob demanda. O lenacapavir transforma essa equação: de 365 comprimidos para duas injeções anuais. Para o infectologista Unaí Tupinambás, eliminar o esquecimento humano é uma vantagem decisiva. Mas ele alerta que novos desafios surgirão: será preciso garantir pontos de aplicação acessíveis quando o medicamento chegar ao sistema público.

Certos grupos se beneficiariam de forma especial. Para mulheres cis, a PrEP oral leva 21 dias para proteger adequadamente a mucosa vaginal — o lenacapavir demonstrou proteção de 100% nos testes. Pessoas em situação de rua, adolescentes, quem vive sob estigma e profissionais do sexo também ganhariam com a discrição e simplicidade de uma injeção semestral.

A aprovação pela Anvisa, porém, é apenas o primeiro passo. O medicamento ainda precisa ter seu preço regulado e passar pela avaliação de custo-efetividade antes de qualquer incorporação ao SUS — processo que sequer foi formalmente iniciado. A barreira mais concreta é financeira: nos Estados Unidos, o lenacapavir custa cerca de US$ 28 mil por pessoa. O Brasil não foi incluído no acordo da fabricante Gilead com produtores de genéricos em países de baixa renda.

Três caminhos estão sobre a mesa: pressão diplomática para entrar no acordo de genéricos, licenciamento compulsório com indenização à Gilead, ou negociação por volume — estratégia em que o governo brasileiro tem histórico de sucesso. Qual deles será percorrido depende das negociações que ainda estão por vir.

O Brasil registrou 9.157 mortes por HIV em 2024, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Apesar de o país ser reconhecido internacionalmente por suas políticas de prevenção e tratamento, o vírus continua circulando. Agora, uma nova ferramenta chegou ao arsenal preventivo: o lenacapavir, comercializado como Sunlenca, aprovado esta semana pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

O medicamento funciona de forma simples. Injetado sob a pele como a insulina, oferece proteção contra o HIV por até seis meses. Mesmo em caso de relação sexual desprotegida com uma pessoa infectada que não esteja em tratamento, a chance de infecção é praticamente nula. Mas há um ponto importante de esclarecimento: apesar de ser injetável, não se trata de uma vacina. O infectologista Guilherme Varino explica a diferença fundamental. As vacinas apresentam um fragmento do vírus ao corpo, que então produz anticorpos defensivos. O lenacapavir, por sua vez, é um medicamento antirretroviral que bloqueia a replicação viral no organismo, especificamente inibindo o capsídeo, uma espécie de cápsula que envolve o vírus. Sua ação depende da circulação contínua do remédio no corpo — quando essa circulação cessa, o efeito desaparece. Por isso, é mais preciso chamá-lo de medicamento de longa duração.

O Brasil já oferece outras opções de prevenção pelo Sistema Único de Saúde, conhecidas como Profilaxia Pré-Exposição, ou PrEP. Existem versões em comprimido — uma para tomar diariamente, outra sob demanda, tomada alguns dias antes e depois do contato sexual. O lenacapavir muda essa equação ao exigir apenas duas injeções por ano. Segundo o infectologista Unaí Tupinambás, essa redução de 365 comprimidos para duas aplicações anuais resolve um dos maiores problemas da PrEP oral: o esquecimento. A adesão é extremamente alta quando o medicamento é eficaz, mas falha frequentemente porque as pessoas simplesmente esquecem de tomar a dose diária. Eliminar esse erro humano e as barreiras logísticas de manter um regime medicamentoso diário é uma vantagem significativa. Tupinambás ressalva, porém, que novos desafios surgem: quando o medicamento chegar ao SUS, será preciso garantir acesso a locais onde as injeções possam ser aplicadas.

Para mulheres cis, o lenacapavir representa uma vantagem particular. A PrEP oral demora mais tempo para penetrar a mucosa vaginal — enquanto oferece proteção rápida para o sexo anal, leva 21 dias para proteger adequadamente contra infecção vaginal. O lenacapavir demonstrou proteção de 100% para mulheres cis nos testes. Varino aponta outros grupos que se beneficiariam especialmente: pessoas em situação de rua ou com rotinas instáveis, para quem armazenar e tomar comprimidos diários é impraticável; adolescentes e jovens, que estatisticamente têm maior dificuldade de aderir a tratamentos crônicos e apresentam incidência mais alta de infecção; pessoas sob estigma que temem manter frascos de remédios em casa por receio de que familiares descubram seu status; e profissionais do sexo e mulheres em contextos de vulnerabilidade, para quem a discrição e a simplicidade de uma injeção semestral oferecem maior autonomia.

Mas a aprovação pela Anvisa é apenas o primeiro passo. O medicamento ainda precisa passar pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, que estabelecerá o preço máximo no Brasil. Depois, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde avaliará eficácia, segurança e custo-efetividade. O Ministério da Saúde informou que, até o momento, nenhum pedido formal de análise para incorporação foi apresentado.

O custo é a barreira mais imediata. Nos Estados Unidos, o lenacapavir custa aproximadamente 28 mil dólares por pessoa — cerca de 151 mil reais na cotação atual. A fabricante, a empresa americana Gilead, anunciou um acordo com produtores de genéricos em países de baixa renda para reduzir custos, mas o Brasil não foi incluído. Para Tupinambás, pressão diplomática é uma estratégia viável para mudar essa situação.

Existem outras caminhos possíveis. A lei brasileira prevê o licenciamento compulsório — a quebra de patente — em casos de interesse público e emergência de saúde. Nesse cenário, o governo pagaria uma indenização à Gilead e permitiria que empresas nacionais fabricassem o medicamento. Há ainda uma terceira via: negociação por volume. O Ministério da Saúde tem histórico de poder de barganha significativo. Ao garantir a compra para todo o país, o governo pode pressionar a empresa a reduzir drasticamente o preço para viabilizar a incorporação no SUS. Qual caminho será seguido dependerá das próximas negociações.

O lenacapavir é um medicamento antirretroviral que impede a replicação do vírus, não uma vacina que treina o sistema imunológico
— Guilherme Varino, infectologista
Ao reduzir a necessidade de 365 comprimidos para apenas duas injeções anuais, o lenacapavir elimina o erro humano e as barreiras logísticas
— Unaí Tupinambás, infectologista
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o lenacapavir não é considerado uma vacina, se protege contra o HIV?

Model

Porque funciona de forma completamente diferente. Uma vacina treina o sistema imunológico a reconhecer e combater o vírus. O lenacapavir é um medicamento que bloqueia a replicação viral diretamente — ele impede que o vírus se multiplique no corpo. Quando o medicamento sai da circulação, a proteção acaba.

Inventor

Então, se alguém tomar a injeção e depois esquecer a segunda dose semestral, fica desprotegido?

Model

Exatamente. A proteção dura até seis meses. Se a pessoa não retornar para a segunda injeção, a defesa desaparece. Por isso, a adesão continua sendo importante, mas é muito mais fácil lembrar de duas injeções por ano do que de 365 comprimidos.

Inventor

Por que mulheres cis se beneficiam mais do que outros grupos?

Model

Porque a PrEP oral, que já existe, leva 21 dias para oferecer proteção adequada contra infecção vaginal. Mulheres cis precisam planejar com antecedência ou correr risco. O lenacapavir oferece proteção imediata e completa, sem essa espera.

Inventor

E quanto ao preço? 28 mil dólares parece impossível para o SUS.

Model

É realmente alto. Mas o Brasil tem opções. Pode pressionar diplomaticamente para entrar no acordo de genéricos que a Gilead fez com outros países. Pode invocar o licenciamento compulsório. Ou pode usar seu poder de compra — ao prometer adquirir para todo o país, o governo pode negociar um preço muito menor.

Inventor

Qual é mais provável?

Model

Provavelmente uma combinação. O Brasil tem histórico de negociações agressivas por medicamentos. Mas também há pressão internacional crescente para tornar tratamentos de HIV mais acessíveis. Nenhuma decisão foi tomada ainda.

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