Acreditávamos firmemente que tudo estava absolutamente correto
Três dos homens mais ricos do Brasil — Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira — emitiram uma nota pública negando qualquer conhecimento do rombo contábil de R$ 20 bilhões que levou a Americanas à recuperação judicial. Construídos ao longo de décadas como símbolos do capitalismo meritocrático brasileiro, esses bilionários agora enfrentam o paradoxo de quem supervisiona sem, segundo afirmam, enxergar. A crise revela que reputações erguidas por gerações podem ser abaladas em dias — e que a distância entre o controle acionário e a responsabilidade moral raramente é tão simples quanto uma nota de imprensa sugere.
- Um buraco de R$ 20 bilhões nas contas da Americanas derrubou as ações em quase 95% em questão de dias, destruindo bilhões em valor e arrastando investidores e credores para perdas severas.
- O trio que detém mais de 30% das ações e ocupa assentos no conselho nega ter tido qualquer sinal de alerta — uma afirmação que credores, juízes e o mercado recebem com ceticismo crescente.
- O BTG Pactual acusou publicamente os três de tentar bloquear cobranças judiciais para proteger seu patrimônio, enquanto a CVM abriu investigação formal por suspeita de fraude contábil.
- Este não é o primeiro tropeço do grupo: escândalos anteriores na Kraft Heinz, na ALL e no próprio banco Garantia compõem um histórico que agora pesa sobre a narrativa de integridade que o trio sempre cultivou.
- Para evitar a falência da Americanas, o trio pode precisar injetar bilhões adicionais — tornando o custo da crise não apenas reputacional, mas potencialmente o maior desembolso de suas carreiras.
No domingo de 22 de janeiro, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira quebraram o silêncio com uma nota conjunta: negaram qualquer conhecimento do rombo de R$ 20 bilhões que forçou a Americanas a pedir recuperação judicial e afirmaram que sua atuação sempre foi pautada por rigor ético. Disseram confiar nos executivos que nomearam, nos bancos parceiros e na auditoria da PwC — nenhum dos quais, segundo eles, apontou irregularidades. Reconheceram as perdas de investidores e credores, e admitiram que eles próprios sofreram prejuízos da ordem de R$ 3 bilhões com a queda das ações de R$ 12 para R$ 0,80 em poucos dias.
O trio construiu seu império a partir do banco Garantia, fundado por Lemann em 1971 e onde Telles e Sicupira se juntaram nos anos seguintes. Dali vieram o controle das Lojas Americanas nos anos 1980, a fusão que criou a AmBev e depois a AB InBev, e a 3G Capital, gestora responsável por aquisições globais como Kraft Heinz e Burger King. Por quatro décadas, mantiveram controle efetivo da Americanas até a fusão com a B2W em 2021. Com patrimônio conjunto estimado em US$ 37,7 bilhões, tornaram-se referência mundial de gestão orientada por resultados e meritocracia.
Mas o histórico do grupo carrega sombras. O Garantia quase faliu após as crises asiática e russa de 1997. A ALL, empresa de logística controlada via GP Investimentos, apresentou indícios de irregularidades contábeis descobertos pela Cosan em 2014. Em 2021, a 3G Capital pagou US$ 62 milhões à SEC para encerrar investigação por má-conduta contábil na Kraft Heinz. Agora, a Comissão de Valores Mobiliários investiga formalmente o trio por suspeita de fraude na Americanas, e o BTG Pactual os acusou publicamente de tentar obstruir cobranças judiciais. Sem comprovação de má-fé até o momento, Lemann, Telles e Sicupira enfrentam o desafio mais difícil de suas trajetórias: reconstruir uma reputação que levou décadas para ser erguida e dias para ser colocada em dúvida.
No domingo de 22 de janeiro, três dos homens mais ricos do Brasil fizeram sua primeira declaração pública desde que um buraco de R$ 20 bilhões nas contas da Americanas a forçou para a recuperação judicial. Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira divulgaram uma nota conjunta negando qualquer conhecimento do problema contábil e afirmando que jamais permitiriam uma manobra ou fraude para distorcer os resultados da companhia. "Nossa atuação sempre foi pautada, ao longo de décadas, por rigor ético e legal", declararam.
O trio, com patrimônio conjunto estimado em US$ 37,7 bilhões segundo a revista Forbes, construiu impérios corporativos que incluem a AB InBev, Kraft Heinz e Burger King. Como acionistas de referência da Americanas, detêm pouco mais de 30% das ações e possuem direito a assentos no conselho de administração. Lemann e Telles participam pessoalmente; Sicupira atua por representante. Essa posição de controle é precisamente o que os coloca no centro do escândalo — questionamentos sobre como três executivos de reputação internacional não teriam conhecimento de uma inconsistência contábil dessa magnitude.
Na nota, os três afirmaram que a empresa foi administrada por executivos "considerados qualificados e de reputação ilibada" e que nem os bancos parceiros nem a PwC, responsável por auditar os balanços recentes, apontaram irregularidades. "Acreditávamos firmemente que tudo estava absolutamente correto", disseram. Também expressaram lamento pelas perdas de investidores e credores, reconhecendo que eles próprios sofreram prejuízos.
Os números revelam a dimensão do impacto. As ações da Americanas desabaram de R$ 12 para R$ 0,80 em questão de dias — uma queda de quase 95% do valor de mercado. Para o trio, isso representou uma perda de cerca de R$ 3 bilhões até aquele momento, com a possibilidade de desembolsos de vários bilhões adicionais para injetar capital e evitar a falência da empresa. Além do prejuízo financeiro, enfrentam um risco reputacional significativo, pois seus nomes estão intimamente ligados ao negócio.
A trajetória de Lemann, Telles e Sicupira começou no início dos anos 1970, quando se conheceram no banco Garantia. Lemann, economista carioca formado em Harvard, comprou a corretora aos 32 anos em 1971. Telles e Sicupira entraram nos dois anos seguintes. Sob gestão agressiva, orientada por resultados e baseada em meritocracia, o Garantia se tornou a principal empresa de investimentos do país. Foi por meio desse banco que assumiram o controle das Lojas Americanas no início dos anos 1980 e investiram em empresas como Brahma e Antárctica, que se fundiram para formar a AmBev, depois AB InBev.
O Garantia foi vendido ao Crédit Suisse First Boston em 1998 por mais de US$ 1 bilhão. Cinco anos antes, o trio havia criado a GP Investimentos para compra e venda de participações em empresas como Telemar, Gafisa e Artex. Em 2004, criaram a 3G Capital junto com Alex Behring e Roberto Thompson, gestora que orquestrou transações bilionárias incluindo a compra da Kraft Heinz e Burger King. Os três mantiveram investimentos na Americanas e estiveram envolvidos em sua transformação em uma das principais varejistas do país, comandando a gestão e sendo controladores por quatro décadas até a fusão com a B2W em 2021, que deu origem à Americanas S.A.
Este não é o primeiro escândalo financeiro envolvendo o trio. O Garantia perdeu mais de US$ 100 milhões em 1997 após as crises asiática e russa, ficando à beira da falência. Em 2014, a Cosan encontrou a malha ferroviária da ALL — empresa de logística cujos principais acionistas eram Lemann, Telles e Sicupira via GP Investimentos — em péssimo estado com indícios de irregularidades contábeis. Em 2021, a 3G Capital pagou multa de US$ 62 milhões à SEC para encerrar investigação por má-conduta contábil na Kraft Heinz entre 2015 e 2018. A Stone, empresa de pagamentos com o trio entre seus investidores, viu seu valor cair mais de 80% em 2022.
Agora, com a crise da Americanas, a credibilidade do trio foi novamente questionada. O banco BTG Pactual, em batalha judicial com a varejista, afirmou que os três bilionários, "ungidos como uma espécie de semideuses do capitalismo mundial 'do bem'", foram "pegos com a mão no caixa" e tentaram impedir judicialmente a cobrança antecipada de dívidas para proteger seu patrimônio. A Comissão de Valores Mobiliários investiga Lemann, Telles e Sicupira em processos que apuram suspeitas de fraude contábil. Não há comprovação de má-fé até o momento, mas o trio agora enfrenta o desafio de restaurar uma reputação construída ao longo de décadas.
Citações Notáveis
Nossa atuação sempre foi pautada, ao longo de décadas, por rigor ético e legal— Lemann, Telles e Sicupira, em nota conjunta
É o fraudador pedindo às barras da Justiça proteção 'contra' sua própria fraude— Banco BTG Pactual, em processo judicial contra a Americanas
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como três homens com essa experiência e reputação não detectam um rombo de R$ 20 bilhões?
Eles argumentam que se distanciaram da gestão cotidiana após a fusão com a B2W em 2021, deixando a operação para executivos que consideravam qualificados. Mas a posição de acionista de referência com 30% das ações e assentos no conselho complica essa narrativa.
A nota deles menciona que auditores e bancos não apontaram irregularidades. Isso os isenta de responsabilidade?
Tecnicamente pode ajudar em uma defesa legal, mas não resolve o problema reputacional. Se havia fraude, alguém a cometeu — e a pergunta que fica é por que o sistema de governança não funcionou.
Qual é o risco real para eles além das perdas financeiras?
O risco é que toda a narrativa de sucesso deles — de homens que construíram impérios através de rigor e meritocracia — fica manchada. Seus nomes estão ligados a AB InBev, Kraft Heinz, Burger King. Se a Americanas cair, questiona-se tudo.
Eles já enfrentaram crises assim antes?
Sim. O Garantia quase faliu em 1997. A ALL teve irregularidades contábeis. A Kraft Heinz teve má-conduta contábil. Há um padrão que preocupa — não é a primeira vez que empresas ligadas a eles enfrentam problemas financeiros graves.
O que acontece agora?
A CVM investiga possível fraude. Se comprovada, pode haver consequências criminais. Enquanto isso, eles precisam decidir se injetam bilhões para salvar a Americanas ou deixam a empresa falir. Qualquer escolha prejudica sua imagem.