A obra nunca saiu das mãos do pai, dizem os credores
Uma das obras mais importantes do modernismo brasileiro, 'A Caipirinha' de Tarsila do Amaral, encontra-se suspensa entre a história da arte e os labirintos da justiça. Avaliada em R$ 47 milhões e marcada para leilão em dezembro de 2020, a pintura de 1923 tornou-se palco de uma disputa entre o filho de um empresário envolvido na Lava-Jato e doze bancos credores — cada lado reivindicando a legítima posse da tela. O que deveria ser um momento de celebração cultural revela, em vez disso, como o valor da arte pode ser capturado pelas engrenagens da dívida e do litígio.
- Uma pintura avaliada em quase dez vezes o recorde anterior de arte brasileira em leilão está prestes a ser bloqueada judicialmente antes mesmo de o martelo cair.
- Carlos Eduardo Schahin afirma ter comprado a obra do próprio pai por R$ 240 mil em 2012 — um valor que especialistas consideram suspeito para uma tela desse porte histórico.
- Doze bancos credores, a quem Salim Schahin devia mais de R$ 2 bilhões, enxergam no leilão uma rara chance de recuperar parte da dívida e contestam a legitimidade da venda.
- O advogado do filho planeja entrar com medida cautelar para suspender o leilão, enquanto o escritório dos credores aponta duas decisões anteriores do TJ-SP que autorizam o evento a prosseguir.
- A obra já teve um leilão suspenso em agosto por questionamentos técnicos na avaliação — sinalizando que este impasse jurídico tem raízes mais profundas do que a disputa atual.
Uma pintura de Tarsila do Amaral estava prestes a reescrever a história do mercado de arte brasileiro. Marcado para 17 de dezembro de 2020, o leilão de 'A Caipirinha' tinha lance inicial de R$ 47 milhões — valor que pulverizaria o recorde anterior, o 'Vaso de Flores' de Guignard, vendido por R$ 5,7 milhões em 2015. Pintada em 1923, quando Tarsila vivia com Oswald de Andrade em Paris, a obra é considerada por especialistas a primeira verdadeiramente moderna do país.
Mas a tela estava presa no centro de uma batalha judicial. Carlos Eduardo Schahin, filho do empresário Salim Taufic Schahin — envolvido no escândalo da Lava-Jato —, afirmava ter comprado a pintura do pai em 2012 por R$ 240 mil. Do outro lado, doze bancos credores, a quem Salim devia mais de R$ 2 bilhões, contestavam a legitimidade dessa transação. Um galerista ouvido pela reportagem estimou que uma obra daquele calibre valeria cerca de R$ 7 milhões na época — tornando o preço declarado da venda altamente suspeito.
O advogado de Carlos Eduardo, Márcio Casado, anunciou que entraria com medida cautelar para suspender o leilão, afirmando que um recurso sobre a propriedade da obra havia sido admitido para o Superior Tribunal de Justiça. O escritório dos credores rebateu, citando pelo menos duas decisões do TJ-SP que autorizavam o leilão a prosseguir. Não era a primeira vez: em agosto, Casado já havia conseguido suspender o evento alegando erros técnicos na avaliação, recurso que foi negado no mês seguinte.
O valor de R$ 47 milhões, apesar de histórico, era considerado conservador para a artista. No ano anterior, 'A Lua', também de Tarsila, havia sido vendida ao MoMA por cerca de US$ 20 milhões. Enquanto advogados se preparavam para a disputa nos tribunais, 'A Caipirinha' permanecia em suspenso — uma obra-prima do modernismo brasileiro presa entre a lei, a dívida e a propriedade contestada.
Uma pintura de Tarsila do Amaral estava prestes a fazer história no mercado de arte brasileiro. Marcado para 17 de dezembro de 2020, o leilão de "A Caipirinha" prometia estabelecer um novo recorde: a obra mais cara jamais vendida em leilão público por um artista brasileiro, com lance inicial de R$ 47 milhões. Até então, esse título pertencia a Alberto da Veiga Guignard, cujo "Vaso de Flores" alcançou R$ 5,7 milhões em 2015, seguido pela "Superfície Modulada Nº 4" de Lygia Clark, que chegou a R$ 5,3 milhões em 2013.
Mas havia um problema. A tela estava no centro de uma batalha judicial que ameaçava cancelar tudo. De um lado, Carlos Eduardo Schahin, filho do empresário Salim Taufic Schahin — figura envolvida no escândalo da Lava-Jato — afirmava ser o legítimo proprietário da obra. Do outro, doze bancos credores que Salim devia mais de R$ 2 bilhões, vendo no leilão uma oportunidade de recuperar parte da dívida. A disputa girava em torno de uma questão fundamental: quem realmente possuía "A Caipirinha"?
Segundo Carlos Eduardo, seu pai havia vendido a pintura para ele em 2012 por R$ 240 mil. Os bancos credores, porém, contestavam essa versão. Argumentavam que a transação nunca foi legítima, que a obra nunca saiu das mãos de Salim. Um galerista que preferiu não se identificar sugeriu que uma pintura daquele calibre custaria aproximadamente R$ 7 milhões naquela época — uma cifra que tornava a venda alegada de R$ 240 mil suspeita aos olhos dos credores.
O advogado de Carlos Eduardo, Márcio Casado, planejava agir rápido. Ele anunciou que entraria com uma medida cautelar na quarta-feira, 9 de dezembro, para impedir o leilão. Casado afirmava que um recurso argumentando que a propriedade pertencia a seu cliente havia sido admitido para ser enviado ao Supremo Tribunal de Justiça na semana anterior. "Meu recurso nunca esteve tão vivo quanto agora", declarou. O escritório que representava os bancos credores, Gustavo Tepedino Advogados, respondeu com uma nota afirmando que pelo menos duas decisões anteriores do Tribunal de Justiça de São Paulo autorizavam o leilão a prosseguir.
Essa não seria a primeira vez que o evento enfrentava obstáculos. Em agosto, Casado havia impetrado um recurso alegando que o perito cometeu erros técnicos na avaliação da obra, conseguindo suspender o leilão naquela ocasião. Esse recurso foi negado no mês seguinte, mas agora uma nova batalha se desenrolava.
O que tornava "A Caipirinha" tão valiosa ia além dos números. Pintada em 1923, quando Tarsila vivia com Oswald de Andrade em Paris, a obra era considerada por especialistas como a primeira verdadeiramente moderna do país. Jones Bergamin, diretor da Bolsa de Arte, a descrevia como "a cereja no bolo de uma coleção". Obras de Tarsila raramente apareciam no mercado, e quando isso acontecia, os preços refletiam sua importância histórica.
O valor inicial de R$ 47 milhões, apesar de ser um recorde em si, era considerado conservador para a artista. No ano anterior, "A Lua", também de sua autoria, havia sido vendida para o MoMA por aproximadamente US$ 20 milhões — quase R$ 75 milhões em conversão direta. Mais recentemente, uma tela menos conhecida do mesmo período havia sido oferecida por US$ 7 milhões, cerca de R$ 36 milhões, em uma feira online.
Enquanto advogados se preparavam para a batalha nos tribunais, a pintura permanecia em suspenso — uma obra-prima do modernismo brasileiro presa entre a lei, a dívida e a propriedade disputada.
Citas Notables
Meu recurso nunca esteve tão vivo quanto agora— Márcio Casado, advogado de Carlos Eduardo Schahin
Seria a cereja no bolo de uma coleção— Jones Bergamin, diretor da Bolsa de Arte
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que um quadro pintado há quase cem anos se torna subitamente o centro de uma disputa envolvendo bilhões de reais?
Porque arte de qualidade é um ativo. Quando alguém deve R$ 2 bilhões a doze bancos, tudo que possui — incluindo uma Tarsila — vira moeda de troca. O filho diz que comprou antes da falência; os credores dizem que nunca saiu das mãos do pai. É uma questão de timing e legitimidade.
E como se vende uma obra por R$ 240 mil quando especialistas dizem que custaria R$ 7 milhões na época?
Exatamente. Essa discrepância é o coração da disputa. Ou foi uma transação genuína entre pai e filho com preço abaixo do mercado, ou foi um artifício para tirar o bem das mãos dos credores. Os bancos veem fraude; o filho vê uma compra legítima.
O leilão já tinha sido suspenso antes. Por que dessa vez parecia diferente?
Porque o recurso estava subindo na hierarquia judicial. Não era mais uma questão técnica sobre avaliação — era uma questão de propriedade sendo levada ao Supremo. O advogado sentia que tinha momentum.
Se a obra é tão rara e importante, por que o preço inicial é considerado baixo?
Porque o mercado sabe o que Tarsila vale. Outras obras dela foram vendidas por muito mais. R$ 47 milhões é um recorde, mas não reflete o verdadeiro valor de uma pintura dessa importância histórica. É como colocar um preço artificial em algo que deveria custar o dobro.
O que acontece se o leilão for barrado?
A pintura fica congelada. Continua disputada, continua sem dono claro. Os credores não recebem nada. O filho não consegue vender. E uma obra fundamental do modernismo brasileiro fica fora do mercado, possivelmente por anos.