Leilão de PPP no Ceará atrai apenas um bloco e revela seletividade do mercado

O pessoal não está mais rasgando dinheiro
Especialista em concessões resume a mudança de comportamento do mercado de saneamento após o leilão do Ceará.

No coração do desafio brasileiro de universalização do saneamento, um leilão realizado na B3 revelou ontem uma fratura silenciosa: o Ceará esperava atrair sete bilhões de reais em cinco lotes para 128 municípios, mas apenas um consórcio de empresas menores se apresentou, cobrindo 23 cidades com desconto quase simbólico. As grandes empresas do setor — Aegea, Sabesp, BRK e Iguá — ficaram ausentes, sinalizando que o mercado doméstico, sobrecarregado e seletivo, pode não ser capaz, sozinho, de financiar o futuro hídrico do país.

  • O leilão terminou com quatro dos cinco lotes completamente desertos, expondo a fragilidade de um modelo que depende de poucos grandes players para cumprir metas constitucionais de saneamento.
  • Empresas líderes do setor ignoraram o certame por razões combinadas: endividamento, compromissos anteriores não digeridos e a percepção de que os lotes tinham excesso de municípios de baixo retorno — muito 'osso', pouco 'filé'.
  • O formato de PPP, menos rentável que concessões puras e mais sujeito a riscos políticos, agravou o desinteresse em um momento em que os prazos de universalização apertam e a tolerância ao risco diminui.
  • Empresas espanholas como Acciona e Águas de Valência emergem como alternativa real, tendo vencido múltiplos leilões recentes, enquanto o Brasil tenta se tornar 'a grande bola da vez' para investidores internacionais.
  • A questão central que fica é se o interesse externo será suficiente — e rápido o suficiente — para preencher o vácuo deixado pela cautela crescente dos grupos brasileiros.

O leilão realizado ontem na B3 para uma PPP de esgotamento sanitário no Ceará terminou de forma desalentadora: de cinco lotes que deveriam atrair sete bilhões de reais em investimentos para 128 municípios, apenas um recebeu proposta — cobrindo 23 cidades, com desconto de apenas 1,15% sobre o teto permitido. O vencedor foi um consórcio formado por empresas de menor porte, como Terracom e CGD Concessões, que aceitou uma contraprestação de 3,74 bilhões de reais ao longo de 28 anos.

Os grandes nomes do setor — Aegea, Sabesp, BRK e Iguá — ficaram de fora, assim como fundos de infraestrutura que vinham estudando o mercado. Especialistas apontam razões estruturais: o formato de PPP é menos rentável que concessões puras, carrega mais riscos políticos e os lotes foram montados com excesso de municípios pequenos e de baixo retorno. O mercado resumiu o problema com uma expressão direta: sobrou osso, faltou filé.

Há também um fator de saturação. As empresas tradicionais ainda digerem compromissos assumidos em leilões anteriores, que se mostraram mais complexos do que o esperado. Como observou Luiz Gronau, da A&M Infra, os grandes players e fundos olharam para o Ceará, mas concluíram que já têm projetos desafiadores suficientes para absorver.

O resultado expõe um dilema estrutural para o Brasil: a universalização do saneamento exigirá centenas de bilhões de reais nos próximos anos, mas o país depende de um punhado de grandes empresas para viabilizá-la. A saída pode vir de fora. Grupos espanhóis como Acciona e Águas de Valência já venceram múltiplos leilões recentes, e o Brasil é visto na Espanha como 'a grande bola da vez'. A pergunta que fica é se esse interesse internacional chegará em volume e velocidade suficientes para compensar a crescente seletividade dos players domésticos.

O leilão realizado ontem na B3 para uma parceria público-privada de esgotamento sanitário no Ceará pode marcar um ponto de inflexão no setor de saneamento brasileiro. Mas o resultado foi, em muitos aspectos, desalentador. O estado esperava atrair sete bilhões de reais em investimentos distribuídos entre cinco lotes que cobririam 128 municípios. No final, apenas um lote recebeu proposta — contemplando 23 cidades — e com um desconto praticamente inexistente de 1,15% sobre o valor máximo permitido.

Os grandes nomes da indústria ficaram de fora. Aegea, Sabesp, BRK e Iguá, empresas que dominam o mercado de saneamento no país, não apresentaram ofertas. Fundos de investimento que vêm estudando o setor também não compareceram. O único vencedor foi um consórcio formado por Terracom, CGD Concessões, Cosampa Construções, Gimma Engenharia, Ellenco e Vale do Rio Novo, que aceitou uma contraprestação de 3,74 bilhões de reais ao longo de 28 anos.

O que explica essa frieza? Segundo especialistas ouvidos, o mercado entrou em um modo mais seletivo. Clayton Souza, sócio da L.E.K Consulting, aponta que as grandes empresas estão presas por compromissos já assumidos em outros leilões, além de questões de balanço e endividamento. Mas há razões estruturais mais profundas. O formato de PPP — parceria público-privada — é menos rentável que uma concessão pura e carrega mais riscos na relação com o poder concedente. Além disso, a forma como os lotes foram montados afastou investidores. É prática comum agrupar cidades grandes e lucrativas com outras pequenas e de baixo retorno — o que o mercado chama de "filé com osso". No Ceará, o diagnóstico foi de que sobrou muito osso, sem filé.

Luiz Gronau, sócio da A&M Infra, adiciona outro fator: o tempo passa e os prazos para cumprir metas de universalização estão apertando. As empresas tradicionais aprenderam com leilões anteriores que trouxeram operações mais complexas do que o esperado. "Os grandes players praticamente todos olharam, os grandes fundos de infraestrutura olharam. Mas é uma visão de: eu tenho bastante coisa para ser digerida, e agora já não vou ser tão ousado para ir para outros projetos que são realmente mais desafiadores", disse Gronau.

O resultado expõe um dilema para o Brasil. Diante de um desafio gigantesco de universalização que demandará centenas de bilhões de reais, o país depende de um número muito pequeno de grandes empresas. Souza argumenta que seria saudável atrair novos grupos para o mercado. "É complexo só termos três ou quatro grandes empresas. Faz sentido no médio prazo você ter novos entrantes."

Por enquanto, a esperança de sangue novo vem de fora. Nos últimos meses, licitações no setor foram vencidas por empresas espanholas. A Acciona venceu quatro concorrências públicas de saneamento nos últimos dois anos. O grupo Águas de Valência conquistou sua primeira concessão em 2025, em Santa Catarina, e depois venceu o leilão do município mineiro de Andradas em junho. Gronau relata que durante uma visita à Espanha há pouco tempo, o Brasil aparecia como "a grande bola da vez". Alguns grupos internacionais estudam o mercado brasileiro há cinco anos, aguardando a oportunidade certa. A questão agora é se esse interesse externo será suficiente para preencher o vazio deixado pela cautela dos grandes players domésticos.

Os players estão em um momento mais seletivo, por razões diversas. Por compromissos já assumidos de outros leilões, ou questões de balanço, de endividamento.
— Clayton Souza, sócio da L.E.K Consulting
É complexo só termos três ou quatro grandes empresas. Faz sentido no médio prazo você ter novos entrantes.
— Clayton Souza, L.E.K Consulting
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que exatamente um leilão de PPP atrai menos interesse que uma concessão pura?

Model

Porque numa PPP você divide o risco e o retorno com o governo. Numa concessão, você tem mais controle sobre a operação e pode extrair mais valor. Além disso, a relação com o poder concedente é mais complexa — há mais pontos de atrito, mais possibilidade de desentendimento.

Inventor

Mas então por que o governo escolhe o formato de PPP?

Model

Porque teoricamente reduz o risco fiscal para o estado. O governo compartilha o investimento inicial e os riscos operacionais. Na teoria é bom. Na prática, quando o mercado está seletivo, ninguém quer dividir.

Inventor

Esse "filé com osso" — é realmente tão importante assim?

Model

Absolutamente. Se você pega uma cidade grande e rentável e a coloca no mesmo contrato com cinco cidades pequenas e deficitárias, o retorno geral cai. Os investidores fazem as contas. Se não há filé suficiente para compensar o osso, eles simplesmente não entram.

Inventor

As grandes empresas estão realmente tão ocupadas assim?

Model

Estão. Mas não é só isso. Elas também aprenderam que alguns leilões anteriores trouxeram operações muito mais complicadas do que prometido. Então agora elas olham, calculam, e dizem: não, obrigado.

Inventor

E os espanhóis? Por que eles estão dispostos a entrar?

Model

Porque para eles o Brasil ainda é novo, ainda é oportunidade. Eles não têm a carteira pesada que as empresas brasileiras têm. E a Espanha tem expertise em saneamento. Eles veem um mercado que precisa de investimento massivo e estão apostando que conseguem operar melhor que os concorrentes.

Inventor

Isso é bom ou ruim para o Brasil?

Model

É necessário. O país precisa de centenas de bilhões de reais em investimento. Se só três ou quatro empresas brasileiras estão dispostas a entrar, não vai dar conta. Novos players, sejam internacionais ou domésticos, são essenciais.

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