O corpo morto fala. Olhar para os padrões ensina sobre a vida.
Legista com 160 mil seguidores no Instagram explica processos de morte e trabalho forense, respondendo dúvidas sobre óbito e finitude humana. Cristine observa que corpos revelam hábitos de vida (tabagismo, consumo de drogas, sedentarismo), conectando necropsia a educação preventiva em saúde.
- Cristine Scattolin acumula 160 mil seguidores no Instagram desde 2025
- Trabalha no IML em cidade do litoral de São Paulo, analisando mortes não naturais
- Brasil registra média de 4 mil mortes por dia, segundo IBGE
- Recebe pelo menos um caso de feminicídio em cada plantão semanal
Médica legista Cristine Scattolin acumula 160 mil seguidores ao desmistificar a morte e processos de necropsia em redes sociais, normalizando um tabu social através de educação baseada em sua experiência no IML.
Cristine Scattolin começou de forma simples: publicava vídeos para organizar seus próprios estudos. Depois as pessoas começaram a chegar. Hoje, mais de 160 mil seguidores acompanham seu perfil no Instagram, Café com Perícia Médica, onde ela responde perguntas sobre morte, necropsia e o trabalho que realiza no Instituto Médico Legal. Uma seguidora perguntou recentemente sobre a morte natural em idosos, aquela que acontece sem sofrimento, às vezes durante o sono. Cristine respondeu.
A médica legista de 39 anos trabalha em uma cidade do litoral de São Paulo, analisando casos de morte não natural — acidentes de moto, afogamentos, quedas, intoxicações. Ela também é professora de epidemiologia na pós-graduação em medicina do trabalho da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Quando começou a compartilhar conteúdo sobre morte nas redes sociais em 2025, não imaginava que se tornaria o que agora reluta em chamar de influenciadora. "Há muita curiosidade sobre morte e cadáver. Ainda é um tabu na nossa sociedade", explica. O Brasil registra uma média de 4 mil mortes por dia, segundo dados do IBGE. Quando essas mortes são violentas ou suspeitas, os corpos chegam a uma das 381 unidades do IML espalhadas pelo país.
O trabalho de Cristine a coloca em contato direto com a realidade física da morte. Ela convive com o cheiro específico de um corpo em putrefação — um odor que, por razões biológicas e evolutivas, é mais repugnante que o de qualquer outro animal. Confirma aos seguidores: o cheiro fica na roupa. Mas para além dessa dimensão sensória, ela aprendeu algo mais profundo: o corpo morto fala. Através dos padrões que observa nas necropsias, Cristine consegue ler a história de uma vida. Sabe se a pessoa fumava, bebia, usava cocaína, tinha pressão alta, era sedentária. "Se o corpo já traz esse nível de informação de uma pessoa que não está mais viva, imagina o que o nosso corpo diz enquanto ainda estamos sentindo", reflete.
Essa compreensão a levou a falar sobre hábitos de saúde em suas publicações. Não como pregação, mas como educação baseada em evidência. "Falo que precisamos nos escutar mais. No sentido de saber se precisa dormir melhor, comer melhor, se exercitar mais", diz. Os vídeos sobre os efeitos do álcool, cocaína, vape e anabolizantes geraram comentários negativos. "Achei que era óbvio que cocaína faz mal. Descobri que não", conta com certa surpresa. As perguntas mais frequentes que recebe dos seguidores são sobre interpretação de certidões de óbito — pessoas tentando entender o que aconteceu com seus falecidos.
Entre os casos que atende, alguns deixam marcas mais profundas. Os feminicídios chegam marcados por uma violência que vai além do esperado. Cristine recebe pelo menos um caso em cada um de seus plantões semanais. Apesar dessa realidade pesada, ela continua publicando. "Entender os processos de morte facilita a elaboração do luto e tirar um pouco do tabu desse assunto facilita que a gente entenda a naturalidade da morte", afirma. Seu objetivo declarado é normalizar o que tem de mais normal no mundo: morrer. Ninguém escapa disso.
O trabalho de Cristine mudou sua forma de enxergar a vida. Observar padrões de morte lhe deu pistas sobre como funciona a sociedade, sobre vulnerabilidades, sobre escolhas. "A gente vê pessoas que saíram para trabalhar e caíram de moto, que estavam em uma festa e foram atacadas ou uma pessoa que teve um acidente bobo e morreu. Traz a perspectiva de que, do nada, a gente pode não estar mais aqui, então tem coisa que não vale a pena ficar se preocupando", diz. Nas redes sociais, ela traz essa perspectiva para quem quer ouvir. "Falar sobre isso torna a existência um pouco mais leve", conclui.
Citações Notáveis
Um dos meus objetivos na rede social é normalizar o que tem de mais normal no mundo: morrer. Ninguém escapa disso.— Cristine Scattolin
Entender os processos de morte facilita a elaboração do luto e tirar um pouco do tabu desse assunto facilita que a gente entenda a naturalidade da morte.— Cristine Scattolin
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que você acha que as pessoas têm tanta dificuldade em falar sobre morte?
Porque a morte é o único assunto que a gente sabe que vai acontecer com a gente, mas ninguém quer pensar. A gente fala de saúde, de vida, mas quando chega a hora, ninguém sabe o que fazer.
E você vê isso nos corpos que examina?
Vejo. O corpo conta histórias que a pessoa nunca contou em vida. Vejo marcas de uma vida inteira de escolhas.
Qual foi a reação mais surpreendente que você teve nas redes sociais?
Quando falei que cocaína faz mal, recebi muitos comentários negativos. Pensei que era óbvio, mas descobri que não era para muita gente.
Como você consegue lidar com casos de feminicídio regularmente?
Não é fácil. Mas acho que justamente por ser difícil, preciso falar sobre isso. Essas mortes têm uma violência que vai além. Recebo pelo menos um caso em cada plantão.
Você acha que desmistificar a morte muda algo na forma como as pessoas vivem?
Muda. Quando você entende que pode não estar aqui amanhã, você repensa o que vale a pena. A morte ensina sobre a vida.