Vale a pena continuar lutando. Temos condições, inteligência, qualidade e liberdade.
Aos quase 80 anos e com quase cinco décadas de carreira, a sambista e ex-deputada Leci Brandão visita o Recife não apenas para cantar, mas para lembrar que a luta por representatividade negra — especialmente no Poder Judiciário — ainda não chegou ao fim. Sua trajetória, tecida entre músicas censuradas, episódios de racismo e quatro mandatos legislativos, é ela própria um argumento vivo de que arte e política raramente caminham separadas quando há injustiça a nomear.
- Uma campanha pediu ao presidente Lula que indicasse uma mulher negra ao STF — e o pedido não foi atendido, deixando exposta uma lacuna histórica no mais alto tribunal do país.
- Brandão relembra um episódio de 1980 em que foi mandada para a entrada de serviço com sua mãe às vésperas de uma final de festival, símbolo de um racismo que persiste disfarçado em piadas e atitudes cotidianas.
- No legislativo houve avanços — ela própria foi a segunda mulher negra eleita para a Assembleia de São Paulo em quarenta anos —, mas o judiciário permanece como território de exclusão estrutural.
- Diante do que ainda falta, Brandão não recua: 'Temos condições, temos inteligência, temos qualidade e temos a nossa liberdade', afirma, convocando à continuidade da luta.
Leci Brandão está no Recife para uma temporada de quatro shows do espetáculo 'Eu Sou o Samba' na Caixa Cultural, com a última sessão deste sábado já com ingressos esgotados. Às vésperas dos 80 anos e com quase cinco décadas de carreira, ela incluiu no repertório compositores nordestinos como Luiz Gonzaga e Alceu Valença, ao lado de suas próprias composições. Durante visita ao Jornal do Commércio, refletiu sobre uma trajetória marcada pela defesa de minorias.
Algumas de suas músicas enfrentaram censura, mas Brandão nunca recuou de temas difíceis. Desde 1976, abordou a vida de pessoas LGBT em canções como 'As Pessoas e Eles' e 'Ombro Amigo'. Mais recentemente, comentou um episódio em Pernambuco no qual uma vereadora tentou impedir que uma professora trans recebesse um título de cidadã recifense, respondendo com firmeza: 'Cidadã é cidadã'.
Sobre racismo, ela relembrou um episódio de 1980 no Rio de Janeiro, quando um porteiro mandou ela e sua mãe usarem a entrada de serviço antes de uma final de festival. O caso virou notícia, desviando o foco de seu trabalho. Para Brandão, o preconceito persiste nas atitudes e nas piadas, e o racismo institucional é ainda mais grave. Ela reconhece avanços no legislativo, mas aponta o Judiciário como território de exclusão: uma campanha pediu ao presidente Lula que indicasse uma mulher negra ao STF, e o pedido não foi atendido.
Sua entrada na política também não foi planejada. Em 2009, consultou sua casa de religião de matriz africana antes de aceitar o convite para ser candidata. Em 2010, filiou-se ao PCdoB e foi eleita deputada estadual por São Paulo, tornando-se a segunda mulher negra na Assembleia Legislativa paulista — quarenta anos após a primeira. Cumpriu quatro mandatos consecutivos. Para ela, a luta continua: 'Somos filhos de Deus, somos seres humanos'.
Leci Brandão está no Recife cumprindo uma temporada de quatro apresentações do espetáculo "Eu Sou o Samba" na Caixa Cultural, com a última sessão marcada para este sábado com ingressos já esgotados. A sambista, que se aproxima dos 80 anos e carrega quase cinco décadas de carreira, aproveitou a passagem pelo Nordeste para incluir no repertório compositores regionais como Luiz Gonzaga, Alceu Valença e Jackson do Pandeiro, ao lado de suas próprias composições e parcerias com mestres como Arlindo Cruz e Martinho da Vila. Durante visita à redação do Jornal do Commércio, ela refletiu sobre uma trajetória marcada pela defesa de pautas sociais e minorias.
Ao longo de quase cinco décadas, Brandão cantou sobre temas que permanecem pertinentes. Algumas de suas músicas enfrentaram censura, mas ela nunca recuou de questões difíceis. A faixa "Anjo da Guarda", de 1995, nasceu de uma cena que a impactou profundamente: uma imagem de uma bota preta chutando um professor durante uma passeata por melhores salários. Sobre a população LGBT, ela remonta a "As Pessoas e Eles", de 1976, e "Ombro Amigo", de 1977, músicas que abordavam como a sociedade tratava pessoas gays. Mais recentemente, ela considera regravar "Assumindo", de 1985, porque o tema segue urgente. Brandão observa que o público LGBT tem aderido fortemente a seu trabalho, compreendendo que cada pessoa deve ser aquilo que Deus deseja. Ela também comentou sobre um caso recente em Pernambuco, quando uma vereadora tentou impedir que uma professora trans recebesse um título de cidadã recifense na Câmara do Recife, afirmando com clareza: "Cidadã é cidadã, tem que ser mulher".
Brandão relembrou um episódio de racismo que marcou sua carreira. Em 1980, no Rio de Janeiro, um porteiro pediu que ela e sua mãe usassem a entrada de serviço quando se dirigiam à final do festival MPB 80. O incidente virou notícia nos jornais, desviando o foco de outras pautas sobre seu trabalho. Ela observa que muitas pessoas falam sobre racismo hoje, mas poucas assumem ser racistas. O preconceito persiste nas atitudes, nas piadas, nos comportamentos. O racismo institucional, segundo ela, é ainda mais grave. Ainda assim, Brandão reconhece avanços: no poder legislativo, existem mulheres e homens negros fazendo diferença.
Mas no Poder Judiciário, a representatividade segue deficiente. Recentemente, uma campanha pediu ao presidente Lula que indicasse uma mulher negra para o Supremo Tribunal Federal, mas isso não se concretizou. Brandão é direta: "Não conseguimos isso ainda. Nós temos que entender que vale a pena continuar lutando. Temos condições, temos inteligência, temos qualidade e temos a nossa liberdade. Somos filhos de Deus, somos seres humanos".
Sua entrada na política não foi planejada. Em 2009, recebeu um convite para ser candidata. Brandão, ligada à religião de matriz africana, consultou sua casa espiritual para compreender o chamado. A resposta que recebeu apontava para seu orixá, Ogum, sugerindo que aceitasse o desafio. Afinal, musicalmente ela sempre havia defendido as pessoas e tocado em pautas difíceis. Em 2010, filiou-se ao PCdoB e foi eleita deputada estadual por São Paulo com uma votação expressiva. Tornou-se a segunda mulher negra a entrar na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, quarenta anos depois da primeira, a Dra. Rosa Ribeiro. Cumpriu quatro mandatos consecutivos, trazendo de volta para a casa legislativa um partido que estava ausente há oito anos.
Este sábado, a partir das 15h, a Caixa Cultural Recife oferecerá uma palestra gratuita intitulada "As pioneiras compositoras e o legado de Leci Brandão", ministrada pelo jornalista, produtor e crítico musical Rodrigo Faour, historiador da música popular brasileira. Os ingressos serão distribuídos uma hora antes do início.
Citações Notáveis
Não conseguimos isso ainda. Nós temos que entender que vale a pena continuar lutando. Temos condições, temos inteligência, temos qualidade e temos a nossa liberdade.— Leci Brandão, sobre representatividade negra no Supremo Tribunal Federal
Cidadã é cidadã, tem que ser mulher— Leci Brandão, comentando sobre caso de rejeição de título para professora trans em Recife
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como você vê a diferença entre o racismo que viveu em 1980 e o que existe hoje?
O racismo mudou de forma, não de essência. Naquela época era explícito, um porteiro mandava você usar a entrada de serviço. Hoje as pessoas não assumem, mas as atitudes revelam. É nas piadas, nos comportamentos, nas portas que não se abrem. O pior é o racismo institucional, aquele que está nos sistemas, nas estruturas.
Você mencionou que consultou sua religião antes de entrar na política. Como a espiritualidade guia suas escolhas?
Sou ligada à religião de matriz africana. Quando recebi o convite para ser candidata, não aceitei de imediato. Procurei minha casa espiritual para entender. A resposta veio através de Ogum, meu orixá. Ele sugeriu que eu aceitasse porque musicalmente eu sempre havia defendido as pessoas. Era uma coisa que eu tinha a cumprir em outro espaço.
Por que a representatividade no Judiciário é tão diferente da que você conquistou no legislativo?
No legislativo, conseguimos avançar. Existem mulheres e homens negros fazendo diferença. Mas o Judiciário é outra história. Recentemente, uma campanha pediu que o presidente indicasse uma mulher negra para o Supremo Tribunal Federal. Não conseguimos. Isso dói, mas não desanima. Vale a pena continuar lutando.
Qual é a mensagem que você quer deixar para as próximas gerações?
Que temos condições, temos inteligência, temos qualidade e temos a nossa liberdade. Somos filhos de Deus, somos seres humanos. As pessoas precisam entender que cada um tem o direito de ser aquilo que Deus quer que seja. Isso vale para pessoas LGBT, para pessoas negras, para todas as minorias.