Os projetos continuam de pé. Vai sair
A startup devolveu valores de aproximadamente 90% dos clientes que reservaram o Lecar 459, modelo híbrido flex que nunca foi apresentado finalizado ao mercado. Negociações com a chinesa Dongfeng para comercializar veículo elétrico em white label fracassaram; empresa chinesa afirma conversas foram preliminares, enquanto fundador alega perda de confiança.
- Lecar devolveu valores de 90% dos clientes que reservaram o Lecar 459
- Negociações com Dongfeng para white label do modelo Nammi 01 fracassaram
- Lecar 459 nunca foi apresentado finalizado, apenas como mockup
- Flávio Assis atribui fracasso à perda de confiança causada por críticas públicas
A Lecar devolveu 90% das pré-reservas do Lecar 459 e não concretizou parceria com a Dongfeng para lançar carro elétrico no Brasil, enquanto busca reestruturar seus planos no mercado automotivo.
A Lecar, startup brasileira que prometia revolucionar o mercado automotivo nacional, devolveu o dinheiro de aproximadamente 90% dos clientes que haviam feito pré-reserva de seus veículos. A informação foi confirmada pelo fundador da empresa, Flávio Figueiredo Assis, em entrevista ao Estado de S.Paulo. O reembolso marca o colapso de um projeto que começou com ambições altas: o Lecar 459, um veículo híbrido flex anunciado como o primeiro modelo da marca, nunca chegou a ser apresentado ao público em versão finalizada. Os clientes viram apenas um mockup, um protótipo visual do que poderia ter sido.
Flávio Assis, que em entrevistas anteriores se autodenominava o "Elon Musk brasileiro", confirmou pela primeira vez que a empresa havia negociado com a montadora chinesa Dongfeng um acordo para trazer um carro elétrico ao mercado brasileiro. O modelo seria o Dongfeng Box, conhecido na China como Nammi 01, que seria rebatizado como Lecar Pop e vendido sob a marca brasileira em um arranjo conhecido como white label. Segundo o fundador, as negociações avançaram significativamente: houve três viagens da Lecar à China e duas visitas de executivos da Dongfeng ao Brasil. As empresas chegaram a discutir desenvolvimento conjunto do projeto e transferência de tecnologia para a equipe brasileira.
Mas a Dongfeng conta uma história diferente. Procurada pela reportagem, a fabricante chinesa confirmou ter mantido contato com a Lecar, porém descreveu as conversas como "preliminares" que não evoluíram após análises internas e a decisão da Dongfeng de entrar no mercado brasileiro como marca independente, em vez de atuar por meio de um distribuidor autorizado. O contraste entre as duas versões é notável: enquanto Flávio sustenta que cinco reuniões presenciais ocorreram e que um modelo específico já havia sido definido para o lançamento, a Dongfeng minimiza o escopo das tratativas.
O fundador da Lecar nega que questões financeiras tenham encerrado a parceria. Segundo uma fonte ouvida pela reportagem, Flávio Assis não teria cumprido o investimento financeiro acordado inicialmente. Ele refuta essa versão e atribui o fracasso à perda de confiança da Dongfeng no projeto, causada pelas críticas públicas direcionadas à Lecar. "A Dongfeng é uma das parcerias que a gente perdeu", afirmou. "O projeto estava fluindo super bem. O que aconteceu foi essa falta de confiança. As negociações passaram exclusivamente por isso." Flávio também menciona que a repercussão negativa envolvendo a empresa levou outros potenciais investidores e parceiros a suspenderem negociações.
Apesar do colapso das pré-reservas e do fim das negociações com a Dongfeng, Flávio mantém que os principais projetos da Lecar seguem em desenvolvimento. Tanto a fábrica anunciada pela companhia quanto o plano de lançar um veículo híbrido nacional continuam de pé, segundo ele. "Os projetos continuam de pé. Vai sair", declarou, sem apresentar detalhes concretos sobre como pretende viabilizar esses planos. O fundador também afirmou que um futuro parceiro chinês participará do desenvolvimento tecnológico da picape Campo, apontada como o principal modelo comercial da Lecar. A empresa agora busca reestruturar seus planos para ingressar no mercado automotivo brasileiro, mas permanece sem um produto finalizado, sem reservas de clientes e sem a parceria que poderia ter acelerado seu lançamento.
Citações Notáveis
Já devolvemos para 90% dos clientes— Flávio Figueiredo Assis, fundador da Lecar
Houve apenas conversas preliminares, que não evoluíram após as análises internas da Dongfeng— Dongfeng, em nota à reportagem
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como uma empresa consegue abrir pré-reservas para um carro que nunca foi apresentado finalizado?
A Lecar apostou em promessas. Mostrou um mockup, um desenho, e pediu dinheiro. Funcionou por um tempo — as pessoas acreditaram na visão. Mas quando nada saiu do papel, a confiança evaporou.
E a parceria com a Dongfeng? Parecia ser a salvação.
Parecia. Flávio diz que tudo estava encaminhado, que havia planos concretos. A Dongfeng diz que foram apenas conversas iniciais. Alguém está mentindo, ou pelo menos contando uma verdade muito diferente.
Qual é a sua leitura sobre o que realmente aconteceu?
Provavelmente a Dongfeng viu os problemas de reputação da Lecar crescerem e decidiu que não valia o risco. Uma empresa chinesa grande não quer seu nome associado a um projeto que está desmoronando.
E agora? A Lecar tem alguma chance?
Flávio diz que sim, que os projetos continuam. Mas ele está dizendo isso sem apresentar nada concreto. Sem fábrica, sem carro, sem dinheiro de clientes, sem parceiro. É difícil acreditar.
O que isso diz sobre o mercado automotivo brasileiro?
Que é difícil. Muito difícil. Você precisa de capital, de tecnologia, de confiança. A Lecar tinha ambição, mas não tinha nenhuma dessas coisas de verdade.