Kisunla: novo medicamento com donanemabe oferece esperança no tratamento do Alzheimer inicial

Mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência globalmente, com projeção de ultrapassar 78 milhões até o final da década, impactando significativamente a qualidade de vida de pacientes e famílias.
Primeira terapia que atua na causa, não apenas nos sintomas
O donanemabe remove placas de beta-amiloide do cérebro, diferente dos medicamentos anteriores que apenas controlavam sintomas.

Por mais de um século, a medicina observou o Alzheimer sem poder alterá-lo — apenas suavizar o que era inevitável. A aprovação do Kisunla pela Anvisa marca uma inflexão histórica: pela primeira vez, um medicamento age na raiz da doença, removendo as placas de beta-amiloide que corroem o cérebro. Ainda assim, entre a aprovação regulatória e o acesso real de milhões de brasileiros, estende-se um abismo de custo, logística e política pública que a ciência, sozinha, não consegue atravessar.

  • O Alzheimer avança sem trégua — mais de 55 milhões de pessoas afetadas hoje, com projeção de 78 milhões até o fim da década, e nenhuma cura à vista.
  • O Kisunla rompe um paradigma de cem anos ao atacar diretamente as placas de beta-amiloide, mas só funciona nos estágios iniciais e exige seleção rigorosa de pacientes.
  • O tratamento impõe barreiras severas: infusões mensais, exames de imagem frequentes, risco de inchaço cerebral e micro-hemorragias, e um custo anual que ultrapassa 160 mil reais.
  • Aprovado pela Anvisa, o medicamento ainda não tem preço definido no Brasil nem data para chegar às farmácias — e sua incorporação ao SUS pode levar anos.
  • Enquanto o debate sobre acesso se arrasta, pacientes brasileiros seguem dependentes de remédios sintomáticos como rivastigmina e memantina, que controlam efeitos mas não freiam a doença.

O Alzheimer destrói o cérebro em silêncio há décadas antes de se revelar nos primeiros esquecimentos. Placas de beta-amiloide se acumulam entre os neurônios e emaranhados de proteína tau se formam dentro das células nervosas, interrompendo conexões, provocando inflamação e levando à morte celular progressiva. Desde que Alois Alzheimer descreveu a doença em 1906, a medicina pouco conseguiu além de aliviar sintomas — até agora.

O Kisunla, recém-aprovado pela Anvisa, contém o donanemabe, um anticorpo monoclonal que se liga à beta-amiloide piroglutamato e instrui o sistema imunológico a removê-la do cérebro. Estudos clínicos de fase 3 demonstraram que o medicamento desacelera a progressão da doença em pacientes com comprometimento cognitivo leve ou demência leve — aqueles com baixa carga de proteína tau. É a primeira terapia que age na causa, não apenas nas consequências.

O tratamento, porém, é exigente. Requer infusões intravenosas mensais, exames de imagem cerebrais para confirmar a presença de placas antes de iniciar, e monitoramento contínuo. Pacientes com Alzheimer moderado ou avançado não se beneficiam. Portadores homozigotos do gene APOE4 enfrentam risco elevado de reações graves, como inchaço cerebral e micro-hemorragias. O custo nos Estados Unidos — onde o medicamento já circula — gira em torno de 32 mil dólares por ano, mais de 160 mil reais, sem contar os exames associados.

No Brasil, o Kisunla ainda não está disponível comercialmente e não tem preço fixado pela Anvisa. A incorporação ao SUS é incerta e tende a ser demorada — a memantina, aprovada em 2011, percorreu um longo caminho até chegar gratuitamente aos pacientes. Enquanto isso, rivastigmina, galantamina e memantina seguem como as opções acessíveis pelo sistema público, complementadas por estimulação cognitiva e apoio familiar. O Kisunla acende uma esperança concreta, mas a distância entre a aprovação regulatória e o acesso real permanece, por ora, intransponível para a maioria dos brasileiros.

A doença de Alzheimer avança silenciosamente pelo mundo. Mais de 55 milhões de pessoas vivem atualmente com demência, e o Alzheimer responde por cerca de 60% a 70% desses casos, segundo a Organização Mundial da Saúde. As projeções são alarmantes: até o final desta década, esse número pode ultrapassar os 78 milhões, impulsionado pelo envelhecimento progressivo da população e pelo aumento da expectativa de vida. O custo global de cuidar desses pacientes já atinge centenas de bilhões de dólares anualmente.

Por mais de um século, desde que o psiquiatra alemão Alois Alzheimer descreveu a doença em 1906, a medicina pouco conseguiu fazer além de aliviar sintomas. A condição destrói o cérebro de forma irreversível: placas de beta-amiloide se acumulam entre os neurônios, enquanto emaranhados da proteína tau se formam dentro das células nervosas. Essa dupla agressão interrompe a comunicação entre neurônios, provoca inflamação crônica e, eventualmente, leva à morte celular e perda de massa encefálica. Os sintomas começam sutis — esquecimentos leves — mas evoluem inevitavelmente, comprometendo memória, linguagem, orientação espacial, raciocínio e, nos estágios finais, até funções motoras. Não existe cura.

Agora, pela primeira vez, existe um medicamento que atua na causa da doença, não apenas em seus sintomas. O Kisunla, aprovado pela Anvisa, contém o donanemabe, um anticorpo monoclonal que se liga especificamente à beta-amiloide piroglutamato e estimula o sistema imunológico a removê-la do cérebro. O resultado é uma redução da carga amiloide e, potencialmente, um retardamento da progressão dos sintomas. A eficácia foi demonstrada em estudos clínicos de fase 3, particularmente em pacientes com baixa carga de proteína tau nos estágios iniciais da doença — aqueles com comprometimento cognitivo leve ou demência leve.

Mas o tratamento não é simples. O Kisunla é administrado por infusão intravenosa uma vez por mês, exigindo acompanhamento médico constante e exames de imagem cerebral prévios para confirmar a presença de placas amiloides. Nem todos os pacientes podem recebê-lo. Aqueles com Alzheimer em estágio moderado ou avançado não se beneficiam. Pessoas com predisposição genética ao acúmulo de amiloide — especialmente aquelas homozigotas para o gene APOE4 — enfrentam maior risco de reações adversas graves, como inchaço cerebral e micro-hemorragias, conhecidas como anormalidades por imagem associadas à amiloide. Outros efeitos colaterais incluem reações no local da infusão, febre, sintomas gripais e dor de cabeça.

O custo é proibitivo para a maioria. Nos Estados Unidos, onde o medicamento já foi aprovado, um ano de tratamento custa aproximadamente 32 mil dólares — mais de 160 mil reais pela cotação atual. Quando se somam os exames complexos e as infusões mensais, o custo total do tratamento sobe ainda mais. No Brasil, o Kisunla ainda não está disponível comercialmente e não tem preço definido pela Anvisa. A história recente sugere que a incorporação ao Sistema Único de Saúde pode levar anos. A memantina, último medicamento para Alzheimer aprovado pela Anvisa em 2011, levou tempo considerável para ser incorporada ao SUS, apesar de ser mais acessível e exigir menos monitoramento.

Enquanto isso, pacientes brasileiros com Alzheimer continuam tendo acesso gratuito a medicamentos como rivastigmina, galantamina e memantina, distribuídos pelo SUS. Esses fármacos atuam sobre neurotransmissores e ajudam a controlar sintomas, mas não interferem na progressão da doença. Estratégias não farmacológicas — acompanhamento psicológico, estimulação cognitiva, apoio familiar — permanecem como pilares fundamentais do tratamento. O Kisunla representa uma esperança real para pacientes em estágios iniciais, mas sua chegada ao Brasil e sua acessibilidade permanecem incertas, dependendo de avaliações futuras sobre custo-benefício e negociações com o Ministério da Saúde.

O desenvolvimento de terapias que atuam na causa da doença representa um avanço significativo na abordagem clínica da condição
— Informações da Anvisa
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que o donanemabe é diferente dos medicamentos que já existem para Alzheimer?

Model

Porque ele não apenas mascara os sintomas. Os medicamentos atuais ajudam a controlar a perda de memória e confusão, mas o donanemabe ataca a raiz do problema — remove as placas de beta-amiloide que estão destruindo o cérebro. É a primeira vez que temos uma terapia que age na causa, não na consequência.

Inventor

Mas se funciona, por que não está disponível no Brasil?

Model

Funciona, mas com ressalvas importantes. Só funciona bem em estágios iniciais, exige monitoramento constante com exames caros, e tem efeitos colaterais sérios em algumas pessoas. Além disso, custa 160 mil reais por ano. O SUS precisa avaliar se consegue oferecer isso para milhões de pacientes.

Inventor

Qual é o risco real de tomar esse medicamento?

Model

Para a maioria, reações leves — febre, dor de cabeça. Mas para pessoas com certa predisposição genética, pode haver inchaço no cérebro ou pequenas hemorragias. Por isso exigem exames de imagem regulares. É um tratamento que demanda vigilância constante.

Inventor

Se o Kisunla não chegar ao SUS, o que os pacientes brasileiros fazem?

Model

Continuam com o que têm: rivastigmina, galantamina, memantina. Medicamentos que ajudam, mas que não desaceleram a doença. E contam com apoio psicológico, estimulação cognitiva, ajuda da família. Não é pouco, mas também não é a mesma coisa que ter acesso a uma terapia que atua na causa.

Inventor

Quanto tempo até o Kisunla chegar ao Brasil?

Model

Ninguém sabe. A Anvisa já aprovou, mas aprovação não é o mesmo que disponibilidade comercial. A história da memantina mostra que pode levar anos. Depende de negociação com o Ministério da Saúde, de quanto o país está disposto a pagar, de quanto a doença vai custar se não fizer nada.

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