O fechamento do Estreito removeu 20 milhões de barris do fluxo potencial
Conflito no Estreito de Ormuz removeu aproximadamente 20 milhões de barris por dia do fluxo potencial, forçando revisão significativa dos cenários de petróleo pela gestora. Kinea agora projeta 40% de chance de Brent acima de US$ 100 por período prolongado, versus cenário inicial de queda; gestora migrou de posição vendida para comprada.
- Conflito no Estreito de Ormuz removeu aproximadamente 20 milhões de barris por dia do fluxo potencial
- Kinea projeta 40% de probabilidade de Brent acima de US$ 100 por período prolongado
- Gestora migrou de posição vendida para comprada em petróleo
- 35% do comércio global de fertilizantes nitrogenados passa por Ormuz
- Brent operava perto de US$ 110 em 6 de abril, pressionado por novo ultimato de Trump
Gestora Kinea revisa projeções de petróleo e fecha posição vendida na commodity após conflito no Estreito de Ormuz retirar 20 milhões de barris/dia do mercado, elevando probabilidade de preços acima de US$ 100 por período prolongado.
No início de março, Ruy Alves, sócio e co-gestor de multimercados da Kinea, olhava para o petróleo com otimismo cauteloso. Havia estoque acumulado nos oceanos, o mercado físico estava morno, e o Estreito de Ormuz nunca havia sido fechado em nenhuma guerra anterior — nem mesmo durante o conflito entre Irã e Iraque. Para que os preços subissem de verdade, pensava ele, seria preciso uma escalada muito mais severa. Então a escalada veio.
Um mês de combate redesenhou tudo. Em sua carta mensal, a Kinea reconheceu que o conflito havia avançado além das expectativas iniciais, forçando a casa a "rever de forma significativa" suas projeções para o mercado de petróleo. O que começou como um cenário de abundância — com oferta maior que demanda — transformou-se em escassez. O fechamento do Estreito de Ormuz removeu aproximadamente 20 milhões de barris por dia do fluxo potencial da região, um número que redefine a aritmética global do petróleo.
A gestora agora trabalha com três cenários distintos. No primeiro, mais otimista, um acordo entre as partes levaria à reabertura do Estreito e ao alívio das sanções, permitindo que o Brent convergisse para a faixa de US$ 70 a US$ 80 — uma probabilidade que a Kinea estima em 40%. No segundo cenário, intermediário e agora o mais provável segundo a casa, os ataques americanos diminuem mas o Irã mantém o controle do Estreito, abrindo-o de forma gradual e seletiva. Nesse caso, o petróleo permaneceria "acima de US$ 100 por um período mais prolongado", também com 40% de chance. Um terceiro cenário, de escalada militar com bloqueio prolongado e possível invasão terrestre, poderia levar os preços entre US$ 150 e US$ 200, embora a probabilidade seja menor — apenas 20%.
Os números refletem a matemática crua do Estreito. Mesmo com compensações — oleodutos sauditas e dos Emirados Árabes Unidos podem redirecionar até 5 milhões de barris por dia, e a liberação de reservas estratégicas acrescentaria cerca de 2 milhões — o déficit permanece em torno de 7 milhões de barris diários. O mercado já sente o peso dessa conta. No dia 1º de abril, o Brent fechou perto de US$ 101; uma semana depois, operava próximo a US$ 110, pressionado por novo ultimato de Trump ao Irã. Um nível que, semanas antes, a Kinea havia descrito como dependente de uma deterioração severa do quadro.
Essa revisão se reflete na carteira da gestora. A Kinea saiu de uma posição vendida em petróleo — aberta antes do conflito — e passou a uma postura levemente comprada na commodity. Simultaneamente, migrou de vendida para comprada em milho, citando riscos de interrupção no fornecimento global de fertilizantes nitrogenados. O detalhe que importa: 35% do comércio mundial desse insumo passa por Ormuz, e março a maio é a janela crítica para compras de plantio no hemisfério norte. A guerra, portanto, não afeta apenas o petróleo.
A gestora ressalva que o ponto de partida global hoje é mais favorável do que em 2022, quando o choque de petróleo da guerra da Ucrânia coincidiu com inflação elevada e juros próximos de zero. Ainda assim, o choque já reconfigurou as expectativas de ciclos de juros em diversas economias. No Brasil, a curva que havia precificado quase 300 pontos-base de cortes na Selic passou a refletir um ciclo muito mais curto, com a inflação impondo desafios ao Banco Central. A Kinea vê nesse ajuste uma oportunidade tática, mantendo posição aplicada em juros e comprada em real, apostando que o país sai relativamente bem do choque geopolítico.
Notable Quotes
O fechamento do Estreito de Ormuz retirou inicialmente cerca de 20 milhões de barris por dia do fluxo potencial da região— Kinea, em carta mensal
O petróleo ficaria acima de US$ 100 por um período mais prolongado— Kinea, cenário intermediário
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a Kinea mudou tão radicalmente de visão em apenas um mês?
Porque o Estreito de Ormuz foi de fato fechado. No início, Ruy Alves apostava que isso nunca aconteceria, nem mesmo em uma guerra. Quando aconteceu, 20 milhões de barris desapareceram do fluxo. Não é uma opinião — é aritmética.
Mas 20 milhões de barris é muito? Qual é o contexto?
O mercado global consome cerca de 100 milhões de barris por dia. Remover 20% da oferta de uma região não é um ajuste marginal. É um choque. E mesmo com oleodutos alternativos e reservas estratégicas, só conseguem compensar 7 dos 20 milhões.
Então por que a Kinea ainda vê 40% de chance de petróleo acima de US$ 100 e não 100%?
Porque há cenários onde o conflito se resolve. Se houver acordo e reabertura do Estreito, o Brent cai para US$ 70-80. Isso tem 40% de probabilidade também. O mercado está precificando incerteza, não certeza.
E o milho? Por que a gestora se preocupa com milho em uma guerra no Oriente Médio?
Porque 35% do comércio global de fertilizantes nitrogenados passa por Ormuz. Estamos em março-maio, a janela crítica para plantio no hemisfério norte. Se o Estreito fecha, os fertilizantes não chegam. As safras sofrem.
A Kinea acha que o Brasil vai se sair bem disso tudo?
Relativamente bem, sim. O país não tem a inflação e os juros próximos de zero que tinha em 2022, quando a Ucrânia explodiu. Há espaço para o Banco Central manobrar. A gestora está comprada em real e aplicada em juros porque acredita que o Brasil absorve melhor esse choque.
Qual é o risco que ninguém está vendo?
O cenário de 20% — escalada militar prolongada, possível invasão terrestre, preços entre US$ 150 e US$ 200. Se isso acontecer, nenhuma compensação funciona. O mundo entra em choque de verdade.