Não teremos vergonha de defender o remédio amargo
Em um momento em que as pesquisas o colocam em terceiro lugar com apenas 3% das intenções de voto, Renan Santos ofereceu ao deputado federal Kim Kataguiri um cargo que ainda não existe — e Kataguiri aceitou, abrindo mão da corrida ao governo de São Paulo. A aposta revela algo sobre a natureza da ambição política: às vezes, a promessa de reformar o Estado por inteiro seduz mais do que a certeza de governar um estado. No palco do Missão, em São Paulo, um político trocou o concreto pelo hipotético, e o regional pelo nacional.
- Kataguiri abandona a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes para assumir um superministério que só existirá se um candidato com 3% nas pesquisas vencer a presidência.
- A proposta é de escala incomum: coordenar simultaneamente Fazenda, Gestão, Planejamento, Casa Civil e Trabalho numa estrutura transversal sem precedente no governo federal.
- Kataguiri mira reformas impopulares — nova previdência, fim de supersalários, revisão de pisos constitucionais — e promete não ter vergonha de defendê-las publicamente.
- Para montar o núcleo econômico, o deputado já lista nomes como Marcos Lisboa, Zeina Latif e Mansueto Almeida, mas ainda não fez convites formais.
- A saída de Kataguiri deixa o Missão sem candidato definido ao governo de São Paulo e sem estratégia clara para a disputa estadual mais importante do país.
No sábado, Kim Kataguiri desceu do palco de um evento do Missão em São Paulo para anunciar uma aposta improvável: abriu mão de concorrer ao governo estadual para comandar um superministério de reforma de estado em um eventual governo Renan Santos — cargo que, por ora, não existe.
O contexto torna a decisão ainda mais intrigante. No mesmo dia, o Datafolha mostrava Santos em terceiro lugar na corrida presidencial, com apenas 3% das intenções de voto no primeiro turno, empatado com Ronaldo Caiado. Lula lidera com 41%, seguido por Flávio Bolsonaro com 31%. Mesmo assim, Kataguiri apostou no projeto.
O superministério proposto funcionaria como uma estrutura transversal, reunindo Fazenda, Gestão, Planejamento, Casa Civil e Trabalho sob uma única coordenação. Renan Santos resumiu a visão com uma frase reveladora: transformar o Planalto numa startup. Kataguiri, por sua vez, justificou a escolha criticando o governo Bolsonaro — onde Paulo Guedes tinha credibilidade técnica, mas conduziu a política econômica de forma desastrosa, segundo o deputado. Ele quer ser diferente: técnico e politicamente habilidoso ao mesmo tempo.
Suas prioridades declaradas incluem nova reforma previdenciária, fim dos supersalários no serviço público e revisão dos pisos constitucionais em saúde e educação. Kataguiri afirmou que não terá vergonha de defender medidas impopulares, acusando adversários de estelionato eleitoral por prometerem em campanha o que, segundo ele, qualquer presidente eleito será obrigado a fazer.
Para o núcleo econômico, já menciona nomes como Marcos Lisboa, Samuel Pessôa, Zeina Latif e Mansueto Almeida, com anúncios previstos para os próximos dois meses. Enquanto isso, o Missão segue sem candidato ao governo de São Paulo — e sem uma estratégia clara para a disputa estadual.
Kim Kataguiri desceu do palco de um evento do Missão em São Paulo no sábado para anunciar que não disputará o governo estadual. Em vez disso, o deputado federal aceitou um cargo que ainda não existe: comandante de um superministério de reforma de estado, caso seu partido consiga vencer a eleição presidencial com Renan Santos.
O timing é curioso. Uma pesquisa Datafolha divulgada no mesmo dia mostra Santos em terceira posição na corrida presidencial, empatado com Ronaldo Caiado do PSD, ambos com 3% das intenções de voto no primeiro turno. O presidente Lula lidera com 41%, enquanto o senador Flávio Bolsonaro fica em segundo com 31%. Ainda assim, Kataguiri apostou suas fichas no projeto.
A proposta que o atraiu é ambiciosa em escopo, ainda que vaga em detalhes. O superministério funcionaria como uma estrutura transversal, coordenando áreas que normalmente funcionam de forma isolada: Fazenda, Gestão, Planejamento, Casa Civil e Trabalho. O objetivo declarado é conduzir reformas estruturais focadas na redução do tamanho da máquina pública. Segundo Renan Santos, a ideia é transformar o Palácio do Planalto numa startup — uma frase que captura tanto a ambição quanto a leveza com que a proposta foi apresentada.
Kataguiri justificou sua escolha com uma crítica velada a governos anteriores. Ele argumenta que reformas estruturais exigem mais do que competência técnica; precisam de alguém capaz de navegar o Congresso Nacional com habilidade política. Citou a experiência do governo Bolsonaro como exemplo do que não fazer: Paulo Guedes tinha credibilidade junto ao mercado, mas sua condução política foi, nas palavras de Kataguiri, um desastre. O deputado quer ser diferente — técnico e politicamente competente ao mesmo tempo.
Suas prioridades, se chegar ao poder, incluem uma nova reforma previdenciária, o fim dos chamados supersalários no serviço público e a revisão dos pisos constitucionais de investimentos em saúde e educação. Kataguiri não se esquivou da controvérsia. Afirmou que não terá vergonha de defender publicamente medidas impopulares, acusando seus concorrentes de cometer estelionato eleitoral ao prometer em campanha que não farão o que, segundo ele, qualquer presidente eleito terá de fazer.
Para montar seu núcleo econômico, Kataguiri já sinalizou que quer beber da fonte do Plano Real. Mencionou nominalmente economistas como Marcos Lisboa, Samuel Pessôa, Zeina Latif, Mário Mesquita, Mansueto Almeida, Marcos Mendes e Helena Landau. Ainda não fez convites formais, mas pretende anunciar os primeiros nomes nos próximos dois meses.
Com a saída de Kataguiri, o Missão ainda não decidiu se terá candidato próprio ao governo de São Paulo. Segundo seus dirigentes, o partido não deve apoiar outros partidos na disputa estadual. A decisão de Kataguiri, portanto, deixa em aberto não apenas seu futuro político, mas também a estratégia do Missão para a eleição mais importante do estado.
Citas Notables
Havia técnicos que deram credibilidade pro mercado na equipe de Jair Bolsonaro, mas a condução política por parte do Paulo Guedes foi um desastre— Kim Kataguiri
Seria transformar o Palácio do Planalto numa startup— Renan Santos
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que um deputado federal desistiria de disputar o governo de um estado como São Paulo para um cargo que depende de uma vitória presidencial improvável?
Porque a reforma de estado é o projeto que o move. Um governo estadual é poder local; um superministério é a chance de redesenhar como o Brasil funciona. Mesmo com 3%, Kataguiri apostou que essa é a batalha que importa.
Mas ele não está sendo ingênuo? A pesquisa mostra Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 31%. Renan Santos tem 3%.
Talvez. Ou talvez Kataguiri acredite que a campanha ainda tem meses, que números podem mudar, que o projeto em si é atrativo o bastante para justificar o risco. Ele está apostando em ideias, não em números.
O que o diferencia de Paulo Guedes, que ele criticou?
Guedes tinha credibilidade técnica mas não conseguia negociar com o Congresso. Kataguiri é deputado — ele conhece aquele mundo de dentro. Ele quer ser o técnico que sabe como fazer as coisas acontecerem politicamente.
Essas reformas que ele quer — previdência, supersalários, pisos constitucionais — são impopulares. Por que ele quer ser o rosto delas?
Porque ele acredita que são necessárias. E porque está dizendo que qualquer presidente, de qualquer partido, terá de fazer o mesmo. Ele quer ser honesto sobre isso, não esconder.
E se Renan não vencer?
Então Kataguiri perdeu a chance de governar São Paulo e não tem nada em troca. É um risco calculado que depende inteiramente de um resultado que as pesquisas dizem ser improvável.