Uma segunda chance, uma sensação muito boa
Medicamentos de ação direta (DAA) para hepatite C curam em 90 dias com apenas um comprimido diário e poucos efeitos colaterais. Casos de hepatite B caíram 41,86% e hepatite C reduziu 23,08% no DF entre 2018 e 2022, demonstrando efetividade do tratamento público.
- Medicamentos de ação direta curam hepatite C em 90 dias com taxa de sucesso acima de 95%
- Casos de hepatite B caíram 41,86% no DF entre 2018 e 2022 (de 129 para 75)
- Hepatite C reduziu 23,08% no mesmo período (de 169 para 130 casos)
- Tratamento disponível gratuitamente pelo SUS em centros de referência como o Cedin
Pacientes com hepatite B e C recebem tratamento gratuito pelo SUS no Distrito Federal, com taxas de cura superiores a 95% para hepatite C. Julho Amarelo conscientiza sobre prevenção, vacinação e testagem precoce.
Glicério Fernandes descobriu que tinha hepatite C em 2010, durante um exame de rotina. O servidor da Secretaria de Transporte e Mobilidade tinha apenas cansaço para reclamar — sintomas que ele atribuía ao trabalho pesado e ao estresse. Quando o diagnóstico chegou, foi um choque. "Achei que não era possível, porque não sentia nada além de muito cansaço."
Seis anos depois, em 2016, quando a Secretaria de Saúde do Distrito Federal começou a distribuir os novos medicamentos de ação direta em forma de comprimido, Glicério iniciou o tratamento. A mudança foi radical. Os remédios antigos eram difíceis de tolerar, com efeitos colaterais fortes e taxas de cura baixas. Estes novos eram diferentes — um comprimido por dia, poucos efeitos adversos, e respostas rápidas. Antes mesmo de completar os 90 dias previstos, o vírus desapareceu. "Antes dos 90 dias já estava negativado," relata. O SUS forneceu o medicamento gratuitamente, algo que seu plano de saúde privado se recusava a cobrir. Hoje, aos 56 anos, Glicério chama o tratamento de "uma segunda chance".
A história de Glicério não é isolada. Os medicamentos de ação direta para hepatite C, quando usados corretamente, alcançam taxas de cura superiores a 95%. No Distrito Federal, entre 2018 e 2022, os casos de hepatite B caíram 41,86% — de 129 para 75 notificações. A hepatite C recuou 23,08% no mesmo período, passando de 169 para 130 casos. Esses números refletem não apenas a disponibilidade dos medicamentos, mas também uma mudança fundamental na forma como o sistema público aborda a doença.
José Antônio Conti, um aposentado de 64 anos que vive em Sobradinho, segue um caminho diferente. Ele carrega o vírus da hepatite B desde 2003, quando começou a sentir cansaço e amarelecimento nos olhos. Diferentemente de Glicério, José não pode ser curado — a hepatite B não tem cura. Mas o tratamento que recebe no Centro Especializado em Doenças Infecciosas, com o medicamento tenofovir alafenamida, controla a carga viral e impede que o vírus se multiplique. Ele toma um comprimido por dia, vai ao infectologista a cada seis meses para monitoramento, e retira o medicamento na mesma unidade onde faz os exames. "Sigo com a vida normal," diz. "Faço musculação, pratico caminhada."
A médica infectologista Sonia Maria Geraldes, que acompanha ambos os pacientes, enfatiza por que julho é importante. O mês, designado Julho Amarelo em alusão ao 28 de julho — Dia Mundial de Luta contra as Hepatites Virais — existe para lembrar que muitas pessoas carregam o vírus sem saber. Uma tatuagem feita com instrumentos não esterilizados, uma relação sexual sem proteção, um procedimento odontológico em local inadequado — qualquer um desses momentos pode transmitir hepatite B ou C. "A pessoa pode não sentir nada, mas fez tatuagem, sexo sem proteção, teve contato com sangue. Essas situações a torna uma candidata a fazer a testagem. Não pode esperar ter sintomas," alerta.
O desafio é que as hepatites virais frequentemente não anunciam sua presença. Quando os sintomas aparecem — cansaço, febre, mal-estar, tontura, enjoo, vômitos, dor abdominal, pele e olhos amarelados, urina escura, fezes claras — a doença pode já estar avançada. Sem diagnóstico e tratamento, pode evoluir para cirrose hepática ou câncer de fígado. A hepatite A se transmite por água e alimentos contaminados e requer apenas repouso para recuperação. As hepatites B, C e D se transmitem por contato com sangue, relações sexuais ou de mãe para recém-nascido. A hepatite E, rara no Brasil, vem de água contaminada.
A rede pública do Distrito Federal oferece vacinação contra hepatite B nas Unidades Básicas de Saúde — quatro doses para crianças (ao nascer, aos 2, 4 e 6 meses) e três doses para adultos. Quem tem mais de 20 anos e não sabe se está imunizado deve procurar uma UBS para testar. O tratamento está disponível em centros de referência como o Cedin e em policlínicas espalhadas por Taguatinga, Gama, Ceilândia, Paranoá e Planaltina. Beatriz Maciel, gerente de Vigilância de Infecções Sexualmente Transmissíveis da Secretaria de Saúde, resume o desafio: "É preciso conscientizar a população para que façam uso das diversas formas de prevenção, usem preservativos, vacinem-se contra hepatite B e busquem o diagnóstico por meio do teste rápido para início oportuno do tratamento."
Citas Notables
A pessoa pode não sentir nada, mas fez tatuagem, sexo sem proteção, teve contato com sangue. Essas situações a torna uma candidata a fazer a testagem. Não pode esperar ter sintomas.— Dra. Sonia Maria Geraldes, médica infectologista da SES-DF
É preciso conscientizar a população para que façam uso das diversas formas de prevenção, usem preservativos, vacinem-se contra hepatite B e busquem o diagnóstico por meio do teste rápido para início oportuno do tratamento.— Beatriz Maciel, gerente de Vigilância de Infecções Sexualmente Transmissíveis
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a história de Glicério importa agora, em julho?
Porque ele representa o que mudou. Dez anos atrás, quando descobriu a hepatite C, o tratamento era longo, tóxico, com baixas chances de cura. Hoje é um comprimido por dia durante três meses. Mas muita gente ainda não sabe disso.
E as pessoas que, como José, não podem ser curadas?
Elas vivem. Controlam o vírus com um comprimido diário e fazem acompanhamento regular. Não é cura, mas é uma vida normal — trabalho, exercício, rotina. O ponto é que precisam saber que têm o vírus. Muitos não sabem.
Como alguém descobre que tem hepatite se não sente nada?
Testagem. Um teste rápido em uma UBS. O problema é que as pessoas só procuram quando sentem algo — cansaço, amarelecimento. Mas nessa hora a doença pode estar avançada. Por isso Julho Amarelo existe.
Os números mostram que está funcionando?
Sim. Hepatite B caiu 41% no DF entre 2018 e 2022. Hepatite C caiu 23%. Esses números vêm de diagnóstico mais frequente e tratamento efetivo. Mas ainda há muito trabalho.
Qual é o maior risco que as pessoas não veem?
Que a hepatite não dói. Você pode ter cirrose se desenvolvendo silenciosamente. Pode chegar ao câncer de fígado sem nunca ter sentido um sintoma. Por isso o teste não é opcional — é proteção.