Seu desejo mais fervoroso era não ser substituída até um novo presidente
Com a morte de Ruth Bader Ginsburg aos 87 anos, os Estados Unidos perdem não apenas uma magistrada, mas uma arquiteta silenciosa de direitos que moldaram a vida de milhões. Sua ausência abre uma fissura no equilíbrio do poder judicial americano precisamente no momento em que o país se prepara para escolher seu próximo presidente. O que se segue não é apenas uma disputa por um assento no tribunal — é uma batalha pelo caráter do direito americano por gerações.
- Ginsburg morreu de câncer no pâncreas em 18 de setembro de 2020, deixando vaga uma das cadeiras mais estratégicas do poder judiciário americano a apenas semanas de uma eleição presidencial.
- Sua última declaração — o desejo de não ser substituída antes de um novo presidente tomar posse — tornou-se imediatamente o centro de uma guerra política entre democratas e republicanos.
- Trump, que já nomeou dois juízes conservadores, tem agora a oportunidade de inclinar a Suprema Corte para a direita em proporção histórica: seis conservadores contra três liberais.
- Mitch McConnell sinalizou que avançará com a confirmação ainda em 2020, contradizendo abertamente sua própria posição de 2016, quando bloqueou a indicação de Obama a meses de uma eleição.
- Os democratas carecem de votos para barrar a indicação republicana, e a batalha de confirmação se desenrola sobre um país já dividido pela pandemia, agitação social e polarização extrema.
Ruth Bader Ginsburg morreu na sexta-feira, 18 de setembro de 2020, aos 87 anos, em sua casa em Washington, cercada pela família. A causa foi câncer no pâncreas, doença que a acompanhava desde 2009. A Suprema Corte anunciou o falecimento em comunicado breve, mas o peso da notícia foi imediato e profundo: Ginsburg não era apenas uma juíza — era o símbolo vivo de décadas de avanços nos direitos das mulheres, da comunidade LGBTQ+ e dos direitos reprodutivos nos Estados Unidos.
Nomeada pelo presidente Bill Clinton em 1993, ela chegou ao tribunal após uma carreira dedicada a combater o sexismo nas instituições jurídicas. Criada no Brooklyn operário, tornou-se uma das juristas mais influentes da história americana. Seus votos foram decisivos em marcos como a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2015. Para os liberais, ela transcendeu o papel de magistrada e se tornou ícone de resistência.
Sua morte abre uma brecha política de proporções históricas. A Suprema Corte já conta com cinco conservadores contra quatro liberais. Trump havia nomeado Neil Gorsuch em 2017 e Brett Kavanaugh em 2018; uma terceira indicação deslocaria o tribunal ainda mais à direita, com impacto sobre aborto, direitos de armas, liberdade religiosa e poderes presidenciais por décadas. Antes de morrer, Ginsburg ditou à neta seu desejo mais fervoroso: não ser substituída antes que um novo presidente tomasse posse.
A resposta política foi imediata. O democrata Chuck Schumer defendeu que o povo americano deveria ter voz na escolha do próximo juiz. Mas Mitch McConnell, líder republicano no Senado, já sinalizou que permitirá a Trump preencher a vaga — posição que contradiz diretamente sua recusa, em 2016, de sequer considerar o indicado de Barack Obama, Merrick Garland, após a morte do conservador Antonin Scalia.
A batalha de confirmação que se aproxima ocorre em um país marcado pela pandemia, agitação social e polarização sem precedentes. Os democratas não têm votos suficientes para barrar uma indicação republicana. O presidente da Suprema Corte, John Roberts, prestou homenagem a Ginsburg como "uma jurista de estatura histórica", mas as palavras de cortesia não ocultam a realidade: o tribunal que ela ajudou a construir está prestes a se transformar de forma irreversível.
Ruth Bader Ginsburg, a juíza que moldou o direito constitucional americano por quase três décadas, morreu na sexta-feira aos 87 anos em sua casa em Washington, cercada pela família. A causa foi câncer no pâncreas, doença que a perseguiu intermitentemente desde 2009. Sua morte, anunciada pela própria Suprema Corte em comunicado breve, reverbera muito além dos muros do tribunal: abre uma brecha que o presidente Donald Trump pode preencher com um terceiro juiz conservador, potencialmente alterando o curso do direito americano por gerações.
Ginsburg chegou à Suprema Corte em 1993, nomeada pelo presidente Bill Clinton, após uma carreira notável de combate ao sexismo nas fileiras jurídicas. Criada no bairro operário de Brooklyn, ela se tornou uma das juristas mais influentes do país, deixando sua marca em decisões que garantiram direitos iguais para as mulheres, expandiram proteções para pessoas LGBTQ+ e preservaram o direito ao aborto. Seu voto foi decisivo em momentos cruciais: quando o tribunal legalizou o aborto em 1973, quando permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2015. Para os liberais americanos, ela transcendeu o papel de magistrada para se tornar um símbolo de resistência contra o conservadorismo crescente.
O timing de sua morte coloca o país em encruzilhada política. A Suprema Corte atualmente tem cinco juízes conservadores contra quatro liberais. Trump já havia nomeado dois conservadores: Neil Gorsuch em 2017 e Brett Kavanaugh em 2018. Uma terceira nomeação deslocaria o tribunal ainda mais para a direita, em um momento de divisões profundas sobre questões que o tribunal controla — aborto, direitos de armas, liberdade religiosa, poderes presidenciais. A eleição presidencial ocorre em 3 de novembro, e Trump busca a reeleição.
Antes de morrer, Ginsburg ditou uma declaração à sua neta Clara Spera, segundo a National Public Radio: seu desejo mais fervoroso era não ser substituída até que um novo presidente fosse empossado. Essa frase ecoará na batalha que se aproxima. Os democratas já se posicionam: o líder do Senado Chuck Schumer afirmou que o povo americano deve ter voz na escolha do próximo juiz, portanto a vaga não deveria ser preenchida antes de um novo presidente assumir. Mas os republicanos controlam a Casa, e Mitch McConnell, líder da maioria, já deixou claro que permitirá a Trump preencher uma vaga em ano eleitoral — uma posição que contradiz sua recusa em 2016 de considerar o candidato de Barack Obama, Merrick Garland, quando o conservador Antonin Scalia morreu.
A batalha de confirmação será feroz. Ocorre em contexto de pandemia de coronavírus, agitação social e polarização extrema. Os democratas não têm votos para impedir a confirmação de um indicado republicano, a menos que alguns senadores republicanos se unam a eles — algo que parece improvável. Trump já havia divulgado, dias antes da morte de Ginsburg, uma lista de candidatos potenciais para futuras vagas na Suprema Corte, movimento que visava consolidar apoio entre eleitores conservadores.
O presidente da Suprema Corte, John Roberts, emitiu comunicado reconhecendo Ginsburg como "uma jurista de estatura histórica" e "uma incansável e resoluta defensora da justiça". Mas as palavras de cortesia não mascaram a realidade: o tribunal que ela ajudou a moldar está prestes a se transformar fundamentalmente. Os próximos meses determinarão não apenas quem ocupará seu assento, mas qual será o alcance do poder conservador no tribunal por décadas.
Citações Notáveis
Nossa nação perdeu uma jurista de estatura histórica. Nós na Suprema Corte perdemos uma colega querida.— John Roberts, presidente da Suprema Corte
Meu desejo mais fervoroso é que não seja substituída até que um novo presidente seja empossado— Ruth Bader Ginsburg, em declaração ditada à sua neta Clara Spera
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a morte de Ginsburg importa tanto além do tribunal?
Porque a Suprema Corte não é apenas um tribunal — é o árbitro final de direitos fundamentais. Aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, direitos de armas, liberdade religiosa. Ginsburg votou em tudo isso. Sua morte muda o equilíbrio.
Mas ela era apenas uma juíza entre nove. Por que uma pessoa faz tanta diferença?
Porque em questões divisivas, o tribunal costuma se dividir 5 a 4. Ginsburg era a voz que impedia decisões conservadoras extremas. Sem ela, essa voz desaparece.
E quanto ao timing? Por que isso é tão politicamente explosivo?
Porque faltam sete semanas para a eleição presidencial. Os democratas argumentam que o povo deveria ter voz escolhendo o próximo presidente, que então nomearia o juiz. Os republicanos dizem que Trump foi eleito para fazer exatamente isso.
Mitch McConnell não disse em 2016 que não deveria haver nomeações em ano eleitoral?
Disse. Quando Scalia morreu em fevereiro de 2016, McConnell recusou a considerar o candidato de Obama. Agora, em 2020, ele diz que permitirá Trump nomear. Os democratas chamam isso de hipocrisia flagrante.
Os democratas podem impedir a confirmação?
Não, a menos que alguns senadores republicanos votem contra. E isso parece improvável. Os republicanos controlam o Senado.
O que Ginsburg deixou dito antes de morrer?
Ela ditou uma mensagem à sua neta pedindo para não ser substituída até um novo presidente ser empossado. É um apelo que os democratas agora usam como arma política, mas que não tem força legal.