Adolescentes vistos como soldados perfeitos para crimes que nunca cometeram
Em ambos os lados do Atlântico, autoridades confrontam uma nova arquitetura do crime: redes organizadas que transformam adolescentes em executores de violência encomendada, recrutados silenciosamente nos mesmos espaços digitais onde jogam e se socializam. A Europol batizou o fenômeno de 'violência como serviço' — uma lógica de mercado aplicada ao derramamento de sangue, onde jovens sem histórico criminal são convencidos de que matar não é muito diferente de vencer uma partida. O assassinato de Rio Berg, 16 anos, em Estocolmo, em março de 2025, deu rosto humano a uma estatística que já soma centenas de prisões em onze países e mais de 450 investigados pelo FBI nos Estados Unidos.
- Um adolescente sueco de 16 anos foi morto por outro jovem da mesma idade que o confundiu com o alvo pretendido — erro fatal de um executor recrutado online e pago para matar.
- A Europol identificou quase 300 prisões, mais de 15 mil contas digitais rastreadas e mais de 1.500 pessoas conectadas a esquemas de crime por encomenda em 11 países europeus.
- Investigadores descrevem o fenômeno como 'fogo em mata seca': a inteligência artificial e os aplicativos de mensagens aceleram o recrutamento de menores que mal distinguem a missão real de um desafio virtual.
- O modelo criminoso atravessou o Atlântico — o FBI investiga mais de 450 pessoas nos EUA ligadas a esses grupos, com todos os escritórios da agência mobilizados.
- A Força-Tarefa Grimm coordena o combate europeu, mas autoridades alertam que a velocidade de expansão da rede supera a capacidade de resposta das instituições.
Nos últimos anos, policiais europeus e americanos passaram a enfrentar um esquema criminoso de novo tipo: adolescentes recrutados em jogos e aplicativos para executar assassinatos, sequestros e ataques violentos pagos por organizações criminosas. A operação ganhou nome próprio — 'violência como serviço' — e funciona como uma cadeia de terceirização do crime, onde o jovem executor frequentemente nem sabe quem o contratou.
Em março de 2025, o esquema deixou de ser abstrato. Rio Berg, 16 anos, foi baleado ao sair de uma academia em Estocolmo. Seu assassino tinha a mesma idade, foi preso menos de uma hora depois com a arma ainda na jaqueta, e as investigações revelaram que Rio nem era o alvo correto — o executor havia confundido a vítima. A condenação foi de nove anos e meio de prisão.
A Europol documentou a escala do problema: quase 300 prisões em 11 países, mais de 15 mil contas digitais monitoradas e mais de 1.500 pessoas identificadas como parte dessas redes. A Força-Tarefa Grimm coordena as operações europeias. O padrão de recrutamento é consistente — um pagador, um aliciador, um fornecedor de armas e um jovem sem antecedentes que executa a missão por valores que variam entre três mil e 40 mil euros, frequentemente nunca pagos após a prisão.
A ex-diretora da Europol apontou a inteligência artificial e o uso intensivo da internet pelos jovens como fatores que facilitam o aliciamento. Investigadores descrevem adolescentes sendo convencidos de que a ação real 'não é muito diferente dos jogos que costumam jogar'. O fenômeno já chegou aos Estados Unidos: o FBI investiga mais de 450 pessoas ligadas a esses grupos, com todos os seus escritórios envolvidos — sinal de que a rede criminosa cruzou o Atlântico e segue em expansão.
Nos últimos anos, autoridades policiais na Europa e nos Estados Unidos depararam-se com um fenômeno perturbador: adolescentes sendo recrutados pela internet para cometer assassinatos, sequestros e ataques violentos pagos por terceiros. O esquema, que ganhou o nome de "violência como serviço", funciona como uma rede criminosa sofisticada onde menores de idade se tornam executores de crimes encomendados por organizações criminosas.
Em março de 2025, em Estocolmo, a realidade dessa operação ganhou rosto. Rio Berg, um adolescente de 16 anos, foi morto a tiros ao sair de uma academia com amigos. Seu assassino também tinha apenas 16 anos e foi preso menos de uma hora depois, esperando um táxi para fugir. A arma estava em sua jaqueta. As investigações revelaram que Rio não era sequer o alvo pretendido — o jovem recrutado havia confundido sua vítima. O adolescente responsável recebeu condenação de nove anos e meio de prisão por homicídio.
A Agência de Polícia da União Europeia (Europol) documentou a extensão dessa operação criminosa. Centenas de pessoas já foram presas em 11 países europeus — Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Islândia, Holanda, Noruega, Espanha, Suécia e Reino Unido. A operação de combate recebeu o nome de Força-Tarefa Grimm. As investigações identificaram quase 300 prisões, mais de 15 mil contas em plataformas digitais e mais de 1.500 pessoas ligadas aos crimes por encomenda.
O mecanismo de recrutamento segue um padrão claro. Uma pessoa paga pela ação criminosa. Outra procura adolescentes em aplicativos de mensagens privadas e jogos online. Um terceiro fornece as armas. Por fim, um jovem — frequentemente sem antecedentes criminais e sem saber quem o contratou — executa o crime. Os pagamentos variam conforme o país e o tipo de missão. Na Suécia e na França, ofertas oscilavam entre três mil euros (cerca de 17,6 mil reais) e 40 mil euros (aproximadamente 235,7 mil reais). Frequentemente, o dinheiro prometido nunca é pago, especialmente quando o adolescente é preso.
Catherine De Bolle, ex-diretora executiva da Europol, explicou à ABC News que o crescimento da inteligência artificial, das novas tecnologias e o uso constante da internet pelos jovens facilitaram essas operações. O ambiente digital se tornou um espaço onde criminosos encontram e atraem adolescentes com facilidade. Andy Kraag, investigador responsável pela equipe de combate a esse tipo de crime, descreveu o fenômeno como algo que "está se espalhando como fogo em mata seca". Os adolescentes são vistos pelos criminosos como "soldados perfeitos" — convencidos de que a ação "não é muito diferente dos jogos que costumam jogar", acabam sendo atraídos para atividades criminosas reais.
O problema não se limita à Europa. John Cohen, ex-chefe da área de inteligência do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, confirmou à ABC News que o mesmo modelo de crime por encomenda já foi identificado em território estadunidense. O FBI informou que investiga mais de 450 pessoas ligadas a esses grupos que atuam pela internet, com todos os escritórios da agência participando das investigações. O que começou como um padrão europeu agora se manifesta também nos Estados Unidos, sinalizando que a rede criminosa atravessou o Atlântico e continua se expandindo.
Citações Notáveis
O problema está se espalhando como fogo em mata seca— Andy Kraag, investigador da Europol
O ambiente digital se tornou um espaço para que criminosos encontrem e atraiam adolescentes facilmente— Catherine De Bolle, ex-diretora executiva da Europol
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Como exatamente esses criminosos conseguem convencer adolescentes a cometer assassinatos reais?
Eles usam o ambiente digital como ponte. Começam em jogos online e aplicativos de mensagens onde os jovens já estão. A proposta é apresentada como algo próximo aos jogos que eles já jogam — uma "missão" com pagamento. A linha entre o virtual e o real fica borrada.
E esses adolescentes sabem para quem estão trabalhando?
Raramente. A estrutura é pensada para manter o anonimato. O jovem recebe instruções de uma pessoa, as armas vêm de outra, e quem pagou permanece invisível. Muitos deles nunca tiveram contato com a polícia antes, então não têm experiência para reconhecer o perigo real.
O dinheiro prometido é realmente pago?
Frequentemente não. Especialmente quando o adolescente é preso. É parte da exploração — eles usam menores porque são descartáveis, do ponto de vista criminoso. Sem antecedentes, sem conexões, sem proteção.
Por que a Europol chama isso de "violência como serviço"?
Porque funciona como um serviço comercial. Alguém quer um crime cometido, paga por ele, e a rede entrega. É industrializado, estruturado, replicável. Não é crime passional — é negócio.
O caso de Rio Berg em Estocolmo foi um erro, certo?
Sim. O adolescente recrutado matou a pessoa errada. Rio Berg não era o alvo. Mas isso não muda o fato de que um jovem de 16 anos foi morto por outro jovem de 16 anos que havia sido recrutado online para cometer um assassinato. O erro não torna menos real a estrutura criminosa por trás disso.
E nos Estados Unidos, isso está crescendo também?
O FBI está investigando mais de 450 pessoas ligadas a esses grupos. Todos os escritórios da agência participam. Não é um fenômeno isolado — é uma rede que atravessou o Atlântico e está se expandindo.