Eu só queria uma resposta deles: eu errei, fiz uma cagada
Menina foi atingida enquanto observava abordagem policial de uma janela de loja, segundo relato do pai e testemunhas. PM alega confronto com indivíduos armados em motos; investigação em andamento com apreensão de armas para confronto balístico.
- Emanoelly Almeida da Silva, 19 anos, baleada no rosto em 13 de março de 2021
- Estava em uma loja no bairro Santa Luzia, São Gonçalo, observando abordagem policial
- Família contesta versão de confronto; PM alega disparos de indivíduos armados em motos
- 26 pessoas atingidas por bala perdida no Grande Rio em 2021 até aquele momento; 12 morreram
Emanoelly Almeida da Silva, 19 anos, foi baleada no rosto durante ação da Polícia Militar em São Gonçalo. Família contesta versão de confronto e acusa PM de disparo injustificado.
Emanoelly Almeida da Silva tinha 19 anos e estava em uma loja no bairro Santa Luzia, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, quando uma bala atravessou seu rosto. Era sábado à tarde, 13 de março, e ela se preparava para ir a um churrasco de aniversário da casa do pai. Segundo o relato de Ubirajara Silva de Freitas, seu pai, tudo começou quando um rapaz em uma motocicleta passou pela região. Uma viatura da Polícia Militar estava próxima. Ao ver os policiais, o motoqueiro manobrou. Os agentes desceram do veículo e foram em sua direção. Emanoelly, curiosa sobre o que acontecia, colocou o rosto para fora da janela da loja para observar. Naquele instante, um policial disparou. A bala acertou em cheio seu rosto.
A Polícia Militar apresentou uma versão diferente dos fatos. Segundo a corporação, agentes do 7º Batalhão de Polícia Militar estavam em patrulhamento quando se depararam com indivíduos armados em motocicletas. Esses indivíduos, conforme o relato policial, efetuaram disparos contra a equipe, que reagiu. Outras viaturas foram acionadas para reforço. Após o cessar dos disparos, uma pessoa foi encontrada ferida e levada ao Hospital Estadual Alberto Torres. A Polícia Civil apreendeu as armas dos policiais envolvidos para confronto balístico, e a ocorrência foi registrada na 73ª Delegacia de Polícia.
Mas testemunhas e a família contestam essa narrativa com firmeza. Ubirajara afirma que não houve confronto algum, apenas um disparo isolado da Polícia Militar. "Foi só um disparo e não houve troca de tiros, não houve confronto", disse o pai, ainda em luto. Ele também questionou o procedimento adotado pelos policiais após o disparo. Segundo seu relato, Emanoelly permaneceu caída no chão por 40 minutos antes de ser socorrida — já sem vida. Ubirajara vê nesse resgate tardio uma tentativa de alterar a cena do crime. "Nunca vi isso: socorrer uma pessoa morta. Isso é alterar a cena do crime. Ela já estava em óbito, o certo era esperar a perícia chegar", questionou.
A posição do corpo também é central na contestação da família. Emanoelly foi atingida no rosto, de frente, não na nuca. Isso significa que ela estava olhando na direção dos policiais quando foi baleada — exatamente como seu pai descreveu, observando pela janela. Ubirajara pediu apenas uma resposta honesta da Polícia Militar. "Eu só queria uma resposta deles. 'Meu irmão, olha só, eu errei, fiz uma cagada e acabei com a vida da sua filha', só isso. Não é chegar falando que teve confronto", disse, com a voz carregada de dor.
Emanoelly havia completado 19 anos na segunda-feira anterior, 8 de março. Estava terminando o terceiro ano do ensino médio. Seu pai a descreve como uma menina tranquila, dedicada aos estudos, sem problemas. Tinha um futuro pela frente. Ontem, familiares estiveram no Instituto Médico Legal de São Gonçalo para reconhecer seu corpo. O enterro aconteceu no mesmo dia, no cemitério Parque da Paz. "Estamos sem chão, é uma perda irreparável. Infelizmente é mais uma vítima e mais um pai que chora a perda de uma filha", finalizou Ubirajara, emocionado.
O caso de Emanoelly não é isolado. De acordo com a plataforma Fogo Cruzado, que monitora a violência armada no Rio de Janeiro, até aquele momento do ano de 2021, 26 pessoas haviam sido atingidas por bala perdida na Grande Rio. Dessas, 12 morreram. No mesmo período de 2020, 53 pessoas foram feridas, com nove mortes. Os números mostram uma tendência de redução em quantidade de feridos, mas a morte continua presente. Cada número representa uma vida interrompida, uma família sem chão, como a de Emanoelly.
Notable Quotes
Foi só um disparo e não houve troca de tiros, não houve confronto. Eles deixaram ela caída por 40 minutos — só que, mesmo morta, eles a socorreram.— Ubirajara Silva de Freitas, pai de Emanoelly
Estamos sem chão, é uma perda irreparável. Ela era uma menina tranquila, sempre estudando, ia terminar agora o 3º ano, não dava trabalho algum.— Ubirajara Silva de Freitas
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como você explica a diferença entre a versão da polícia e a da família?
A polícia fala de um confronto com indivíduos armados em motos. A família diz que houve apenas um disparo isolado, sem troca de tiros. O pai viu tudo: um rapaz em moto, a viatura passando, o policial se assustando quando a filha colocou o rosto na janela.
E a posição do corpo — por que isso importa tanto?
Porque ela foi atingida no rosto, de frente. Se houvesse um confronto real, se ela estivesse no meio de uma troca de tiros, talvez a história fosse outra. Mas ela estava observando de uma janela. O tiro veio de quem tinha medo.
O pai mencionou que ela ficou caída por 40 minutos. O que isso significa?
Significa que ela morreu ali, no chão. E mesmo morta, foi socorrida. O pai vê isso como uma tentativa de criar uma cena diferente, de fazer parecer que havia uma vítima de confronto quando na verdade havia uma menina que observava pela janela.
Qual era o futuro dela?
Estava terminando o terceiro ano do ensino médio. Tinha 19 anos, tinha acabado de fazer aniversário. O pai diz que era tranquila, dedicada aos estudos. Não dava trabalho. Tinha tudo pela frente.
E o que o pai quer agora?
Apenas uma resposta honesta. Não pede punição, não pede vingança. Pede que alguém diga: eu errei. Mas sabe que isso não vai acontecer. A polícia vai sempre usar o argumento do confronto.