O mundo está interdependente. Dificilmente alguém, sozinho, vai dar conta
Trump ameaçou tarifa de 10% contra países do BRICS em resposta à cúpula no Rio; medida repetiria protecionismo do primeiro mandato. BRICS representa 25% do PIB mundial e defende multilateralismo; economia global depende de cadeias produtivas integradas entre nações.
- Trump ameaçou tarifa de 10% contra países alinhados ao BRICS no domingo, 6 de julho
- BRICS original representa 25% do PIB mundial
- Produtos cruzam a fronteira México-EUA até oito vezes antes de chegar ao consumidor final
Presidente da ApexBrasil critica ameaça de Trump de impor tarifa adicional de 10% a países alinhados ao BRICS, alertando que protecionismo prejudica comércio global e cadeias produtivas interdependentes.
Jorge Viana, presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, acordou no domingo para notícias que o deixaram preocupado. Poucas horas depois que líderes do BRICS se reuniram no Rio de Janeiro para defender o comércio multilateral, Donald Trump publicou uma ameaça na rede Truth Social: 10% de tarifa adicional para qualquer país que se alinhasse ao bloco. Viana viu naquilo o retorno de uma velha lógica, a mesma que havia marcado o primeiro mandato de Trump, e decidiu falar.
"Isso não é bom para ninguém. É ruim para o mundo inteiro", disse em entrevista à TV 247. Desde que Trump começou a mexer nas tarifas americanas, Viana vinha repetindo essa mensagem: não há vencedores em uma guerra comercial. Ninguém tira vantagem de um cenário assim. A postura do presidente americano provocou reações diplomáticas em todo o planeta, e analistas começaram a dissecar o que aquilo significava.
Para Viana, o BRICS não era o que Trump parecia imaginar — um bloco ideológico ou geopolítico desafiador. Era, simplesmente, um agrupamento de países com boas relações que queriam ampliar essas relações em todos os aspectos. Mas os números importavam: o BRICS original, apenas seus fundadores, representava 25% do PIB mundial. Quando você soma os novos membros, a cifra fica ainda mais pesada. Isso não era um grupo marginal. Era uma força econômica real.
O que Viana queria que Trump entendesse — e que o Brasil compreendesse também — era que a economia global não funcionava mais como nos anos 1980. As cadeias produtivas estavam entrelaçadas de forma tão complexa que nenhum país conseguia agir sozinho sem sofrer ricochetes internos. Ele deu um exemplo concreto: produtos que cruzavam a fronteira entre México e Estados Unidos oito vezes antes de chegar ao consumidor final. Ferro vinha como matéria-prima, voltava como aço, depois como peça, depois como carro. O mundo estava interdependente. Dificilmente alguém, sozinho, conseguiria seguir crescendo.
Implementar uma tarifa de 10% contra países do BRICS quebraria essas cadeias. E quando você quebra uma cadeia de comércio que já existe, os efeitos colaterais aparecem dentro dos próprios Estados Unidos. A indústria norte-americana dependia desses processos integrados. Não era possível simplesmente fechar a porta e esperar que tudo funcionasse.
Viana evitou tomar um posicionamento político direto, mas deixou claro onde estava: a ApexBrasil trabalhava com tudo que o Brasil vendia no mundo e com atração de investimentos. Isso era o que importava. E o presidente Lula, acrescentou, tinha trabalhado pelo livre comércio, pela formação de blocos como o Mercosul e a União Europeia. Essa era a direção certa.
O Brasil não tinha conflito com ninguém, repetiu Viana. Defendia o multilateralismo. Agora era questão de aguardar, de manter a cautela. Ele encerrou com uma esperança: que esse tensionamento diminuísse. Mas enquanto Trump mantivesse a retórica protecionista, a incerteza pairaria sobre o comércio global.
Citações Notáveis
Isso não é bom para ninguém. É ruim para o mundo inteiro. Ninguém tira vantagem de uma situação dessa.— Jorge Viana, presidente da ApexBrasil
O Brasil não tem conflito com ninguém e defende o multilateralismo.— Jorge Viana
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Trump faria uma ameaça assim logo após a cúpula do BRICS no Rio?
Porque ele vê o BRICS como uma ameaça à hegemonia americana. Mas Viana tem razão em dizer que Trump está confundindo cooperação econômica com confronto geopolítico.
E se Trump realmente implementar essa tarifa de 10%?
Quebra as cadeias produtivas que já existem. Um carro que passa oito vezes pela fronteira México-EUA não consegue ser feito sem integração. A indústria americana sofre tanto quanto qualquer outra.
O BRICS é realmente tão importante economicamente?
Um quarto do PIB mundial. Não é marginal. É por isso que Viana fala com tanta convicção — não está defendendo um bloco ideológico, está falando de números reais.
Viana parece otimista demais ao esperar que o tensionamento diminua.
Talvez. Mas ele trabalha em promoção de exportações. Sua função é acreditar que o diálogo ainda é possível, que a razão econômica prevalece.
O Brasil está em posição frágil nessa disputa?
Não exatamente. O Brasil está no BRICS, mas também tem relações com os EUA. Viana deixa isso claro: o Brasil não tem conflito com ninguém. É uma posição de equilíbrio delicado.