Jogo Brasil x Noruega força ONS a cortar geração de energia renovável

O país produz mais energia do que consegue absorver
Brasil enfrenta paradoxo energético: excesso de geração renovável força cortes deliberados em eventos com baixa demanda.

Em um país que por décadas temeu o escuro, o Brasil se vê diante de um paradoxo inédito: produz energia renovável em excesso e precisa descartá-la para proteger a própria rede elétrica. A Copa do Mundo, ao esvaziar ruas e reduzir o consumo a mínimos históricos, expõe a fragilidade de uma transição energética que avançou mais rápido do que a infraestrutura capaz de sustentá-la. O que parece um problema de abundância é, na verdade, um convite urgente a repensar como uma nação armazena, distribui e valoriza a energia que já sabe produzir.

  • O ONS se prepara para desligar deliberadamente usinas solares e eólicas durante o jogo Brasil x Noruega — não por falta de energia, mas por excesso dela.
  • No jogo anterior, cerca de 20 GW de energia renovável foram cortados enquanto a partida acontecia, um desperdício equivalente a abastecer estados inteiros.
  • Com o apito final, a demanda saltou 12 mil MW em uma única hora, forçando o sistema a acionar fontes alternativas em tempo real para evitar colapso.
  • O horário do jogo deste domingo agrava o desafio: às 17h, a geração solar já declina, e o retorno dos torcedores a casa coincidirá com a menor disponibilidade de energia limpa.
  • O curtailment recorrente afasta investidores de novos parques renováveis, criando um freio invisível na transição energética brasileira.
  • O governo estuda baterias de grande escala como solução estrutural, mas nenhuma resposta imediata está disponível para os próximos 90 minutos de jogo.

O Brasil enfrenta neste domingo um problema energético sem precedentes em sua história: energia em excesso. Enquanto a seleção disputa a Copa do Mundo contra a Noruega, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) se prepara para desligar geradores solares e eólicos — uma medida que, em um país marcado pelo medo de apagões, soa quase absurda.

O paradoxo revela uma transformação profunda. O país agora gera mais energia renovável do que sua rede consegue absorver em momentos de baixo consumo. Feriados e grandes jogos criam vácuos de demanda: as ruas se esvaziam, os eletrodomésticos ficam em silêncio, e a carga cai abruptamente. Os painéis solares e as turbinas eólicas, no entanto, continuam produzindo. Sem capacidade de armazenamento, o ONS recorre ao curtailment — a interrupção forçada da geração — para evitar que a rede colapse sob o peso da própria abundância.

O jogo anterior da seleção serviu de ensaio. Durante a partida, o operador precisou cortar aproximadamente 20 GW de energia renovável. Quando o apito final soou, a demanda saltou 12 mil MW em uma hora — o equivalente ao consumo combinado de Minas Gerais e Paraná. Duas horas depois, tudo havia voltado ao ritmo de uma segunda-feira qualquer.

O confronto deste domingo traz uma complicação extra: o horário das 17h coincide com o declínio da geração solar. Quando os torcedores voltarem para casa e acionarem fogões, chuveiros e televisores, a energia limpa já não estará disponível em quantidade suficiente. O ONS terá de acionar usinas térmicas ou hidrelétricas para cobrir a demanda que ressurge — decisões tomadas quase em tempo real, com base em estimativas feitas no próprio dia do jogo.

Além do impacto operacional, o curtailment recorrente desestimula novos investimentos em energia renovável. Investidores hesitam em expandir parques solares e eólicos sabendo que parte da energia produzida será regularmente desperdiçada. É um obstáculo silencioso à transição energética brasileira.

O governo federal busca uma saída. A solução mais promissora são baterias de grande escala que armazenariam o excesso de energia nos momentos de baixa demanda e o liberariam quando o consumo voltasse a crescer. Não há resposta imediata — mas a tecnologia de armazenamento aponta o caminho para resolver o paradoxo que o Brasil agora enfrenta: o de um país que aprendeu a gerar energia limpa antes de aprender a guardá-la.

O Brasil enfrenta um problema energético inusitado neste domingo: tem energia demais. Enquanto a seleção enfrenta a Noruega na Copa do Mundo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) se prepara para fazer algo que parece contraditório em um país que historicamente teme apagões — desligar geradores de energia solar e eólica para evitar que a rede elétrica colapse.

O paradoxo revela uma transformação silenciosa no setor energético brasileiro. O país agora produz mais energia renovável do que consegue absorver, especialmente em momentos em que o consumo cai drasticamente. Feriados e grandes eventos esportivos criam picos de inatividade: milhões de pessoas saem das ruas, desligam luzes, param de usar eletrodomésticos. A demanda despenca. Os geradores solares e eólicos, porém, continuam produzindo. A rede não consegue armazenar esse excesso, e o ONS precisa pedir aos operadores que interrompam o envio de energia — uma prática chamada curtailment que, na prática, significa desperdiçar eletricidade limpa.

O jogo anterior da seleção brasileira no mata-mata ofereceu um ensaio dessa realidade. Durante a partida, o consumo caiu tanto que o ONS precisou restringir aproximadamente 20 gigawatts de geração renovável. Quando o apito final soou, o comportamento se inverteu: em uma única hora, a demanda saltou 12 mil megawatts — uma quantidade equivalente ao consumo médio combinado de Minas Gerais e Paraná. Duas horas depois, tudo voltou ao padrão de uma segunda-feira comum.

O confronto de domingo apresenta uma complicação adicional. A partida começa às 17h, horário em que a geração solar já está em declínio. Isso significa que quando os torcedores retornarem às suas casas e ligarem fogões, chuveiros e televisores, a energia solar não estará disponível em quantidade suficiente. O ONS terá de ativar outras fontes — provavelmente usinas térmicas ou hidrelétricas — para cobrir a demanda que reaparece.

O operador não divulga com antecedência quais fontes serão acionadas porque as decisões são tomadas quase em tempo real. No dia do jogo, a equipe do ONS faz estimativas sobre quanto a demanda cairá durante a transmissão, calcula o excesso de energia renovável que será gerado e, com base nesses números, define quais usinas entrarão em operação quando o consumo retornar. Marcio Rea, diretor-geral do ONS, reconheceu o desafio em comunicado, observando que a expectativa de maior audiência da Copa tornará a operação ainda mais complexa.

O curtailment não é apenas um incômodo operacional — ele desestimula investimentos em novos parques solares e eólicos. Investidores hesitam em expandir a capacidade renovável se souberem que parte da energia que geram será desperdiçada regularmente. É um obstáculo invisível ao crescimento da transição energética brasileira.

O governo federal começou a explorar soluções. A mais promissora envolve a contratação de baterias de grande escala — espécies de power banks gigantes — que funcionariam como reservatórios de energia. Durante períodos de baixa demanda, essas baterias armazenariam o excesso de energia solar e eólica. Quando o consumo aumentasse, liberariam essa energia armazenada, suavizando os picos e reduzindo a necessidade de cortes. Ainda não há uma solução simples ou imediata, mas a tecnologia de armazenamento representa a direção mais promissora para resolver esse paradoxo energético que o Brasil agora enfrenta.

O time ONS já se prepara para o desafio no domingo. Avaliamos que mais pessoas estarão ligadas na Copa, o que poderá aumentar ainda mais a complexidade da operação
— Marcio Rea, diretor-geral do ONS
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Como é possível um país ter excesso de energia renovável? Não era para isso ser uma solução?

Model

É uma solução, mas incompleta. O Brasil construiu muita capacidade solar e eólica — o que é ótimo — mas a rede elétrica foi projetada para um padrão de consumo que não existe mais. Quando milhões de pessoas param de consumir ao mesmo tempo, a produção não consegue parar tão rápido.

Inventor

E por que não armazenam essa energia em algum lugar?

Model

Exatamente a pergunta certa. Historicamente, o Brasil usava as hidrelétricas como armazenamento natural — enchiam os reservatórios em períodos de chuva. Mas com solar e eólica, não há esse buffer. A energia é gerada e precisa ser usada no mesmo instante, ou se perde.

Inventor

Então desligam os geradores? Isso não é um desperdício enorme?

Model

É. E é por isso que desestimula novos investimentos. Um empresário que quer construir um parque solar sabe que em certos dias sua energia será cortada. Reduz o retorno do investimento. É um problema que cresce conforme a matriz fica mais renovável.

Inventor

O jogo de domingo vai piorar as coisas?

Model

Vai criar um pico de complexidade. O horário é ruim — 17h, quando o sol já está fraco. Então quando o jogo termina e as pessoas voltam para casa, a energia solar não está lá para ajudar. O ONS vai precisar ligar outras fontes, provavelmente combustíveis fósseis.

Inventor

Qual é a saída?

Model

Baterias. Armazenar o excesso durante o dia, liberar à noite ou em picos de demanda. É caro, mas é a única forma de resolver isso sem desperdiçar energia limpa ou voltar a depender de combustíveis fósseis.

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